
A Bíblia ensina que Deus é imaterial?
Uma das doutrinas definidoras da teologia cristã clássica é que Deus é imaterial: sem um corpo, partes ou extensão espacial.
Muitos cristãos presumem que é isso que a Bíblia ensina. Mas será que a Bíblia realmente ensina isso?
A pergunta para quem acredita nisso é simples:
Se Deus é imaterial, o que Moisés viu quando viu as costas de Jeová (YHWH)?
Se Deus é imaterial, o que Moisés viu quando viu as costas de Jeová?
Em Êxodo 33, Moisés pede a Deus:
“Peço que me mostres a tua glória.” (Êxodo 33:18)
Deus responde colocando Moisés na fenda de uma rocha, cobrindo-o com Sua mão enquanto passa, e então dizendo:
“Depois, quando eu tirar a mão, você me verá pelas costas; mas a minha face ninguém verá.” (Êxodo 33:23)
Isso não é uma única frase poética retirada de um Salmo, mas sim uma narrativa histórica extensa.
Deus coloca Moisés na rocha.
Deus passa.
Deus cobre Moisés com Sua mão.
Deus retira Sua mão.
Moisés vê as costas de Deus, mas não a Sua face.
Se Deus é literalmente imaterial, o que exatamente Moisés viu?
A resposta padrão é que se trata de uma linguagem “antropomórfica”. Mas isso não responde à pergunta; apenas rotula a interpretação.
O texto nunca diz que Moisés viu um corpo criado temporariamente. Nunca diz que ele viu uma representação simbólica. Nunca diz que isso foi meramente uma visão destinada a acomodar o entendimento humano.
Alguns responderão que Moisés viu apenas uma manifestação criada de Deus. No entanto, o texto nunca afirma isso explicitamente.
Essas conclusões são alcançadas porque o intérprete já presumiu que Deus não pode possuir um corpo.
Em outras palavras, o raciocínio costuma ser este:
- Deus não pode ter um corpo.
- Êxodo retrata Deus de forma corpórea.
- Portanto, Êxodo não pode significar o que parece significar.
Nesse caso, a conclusão determina a interpretação do texto.
Em vez de permitir que a Escritura molde nossa teologia, a teologia é que determina como a Escritura deve ser interpretada.
Em vez de permitir que a Escritura molde nossa teologia, a teologia é que determina como a Escritura deve ser interpretada
E o desafio não se limita a Êxodo 33.
A Escritura retrata repetidamente Deus em termos corporais e espaciais. Ele caminha no jardim (Gênesis 3), aparece a Abraão e come com ele (Gênesis 18), permite que Moisés e os anciãos de Israel O vejam (Êxodo 24), é visto sentado em Seu trono (Isaías 6; Daniel 7), e Estêvão vê o Cristo glorificado de pé à direita de Deus (Atos 7). Quer alguém, no fim das contas, interprete essas passagens de forma literal ou figurada, elas não podem ser simplesmente descartadas porque conflitam com um compromisso filosófico com a imaterialidade.
É justamente aqui que normalmente surge a objeção do antropomorfismo.
”Antropomórfico” Não Resolve a Questão
É certamente verdade que a Escritura descreve Deus usando características humanas.
Ele tem olhos.
Ele tem ouvidos.
Ele tem mãos.
Ele tem pés.
Ele tem um rosto.
Mas chamar essas descrições de “antropomórficas” não prova que elas não sejam literais.
Considere a afirmação:
“Jesus estendeu Sua mão.”
Isso também é antropomórfico (descreve uma pessoa divina usando características humanas), mas os cristãos não concluem que Jesus carecia de uma mão real.
A palavra antropomórfico significa simplesmente que Deus é descrito em termos humanos. Ela não nos diz se essas descrições correspondem à realidade.
Um Deus com corpo seria naturalmente descrito de forma antropomórfica.
E Quanto às Asas de Deus?
Uma objeção comum aponta para versículos como o Salmo 91:
“Ele o cobrirá com as suas penas, e, sob as suas asas, você estará seguro.” (Salmo 91:4)
Ou Malaquias 4:
“Nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas.” (Malaquias 4:2)
Como Deus obviamente não possui asas literais, argumenta-se que nenhuma das descrições corporais da Bíblia deve ser tomada literalmente.
Mas isso não é uma consequência lógica.
Nem todas as imagens funcionam da mesma maneira.
O Salmo 91 está claramente empregando a imagem de uma ave mãe protegendo seu filhote. O contexto literário sinaliza que a linguagem é metafórica.
Êxodo 33 é inteiramente diferente.
Nada na narrativa sugere que Moisés tenha apenas vivenciado uma metáfora estendida. O texto apresenta um encontro direto no qual Deus se move, cobre Moisés, passa por ele e permite que ele veja Suas costas enquanto retém Sua face.
A existência de metáforas óbvias em outros lugares não justifica tratar cada descrição corporal como metáfora.
Caso contrário, poder-se-ia argumentar que, porque Jesus é chamado de “porta” ou de “videira”, Seu corpo ressurreto também deve ser metafórico.
O contexto determina se a linguagem é figurada, e não apenas a presença de imagens corporais.
A Matéria é Realmente Inferior?
Em muitos casos, o argumento deixa de ser bíblico e passa a ser filosófico.
O argumento segue algo como isto:
Deus deve ser imaterial porque a existência imaterial é superior à existência material.
Mas onde a Bíblia realmente ensina isso?
A Escritura nunca diz que a matéria é inerentemente inferior ou que possuir um corpo é um defeito.
Na verdade, a afirmação central do cristianismo parece apontar na direção oposta.
Jesus Cristo é plenamente Deus.
Após Sua ressurreição, Ele possui um corpo glorificado.
Ele convida Seus discípulos a tocá-Lo.
Ele come com eles.
Ele ascende corporalmente ao céu.
O Novo Testamento nunca sugere que Seu corpo ressurreto seja uma acomodação temporária que Ele acabará por descartar.
Se a corporeidade é inerentemente uma imperfeição, por que o Cristo glorificado ainda tem um corpo?
A suposição de que a imaterialidade é um modo de existência superior deve muito mais ao pensamento filosófico grego do que a um ensinamento bíblico explícito.
A Bíblia realmente ensina a imaterialidade divina?
Nada disso comprova a compreensão dos Santos dos Últimos Dias sobre Deus.
No entanto, isso expõe um problema significativo para aqueles que afirmam que a Escritura ensina claramente a imaterialidade divina.
O argumento bíblico geralmente depende de passagens que afirmam que Deus é Espírito, que é invisível ou que jamais foi visto.
Esses são textos importantes.
Mas nenhum deles diz explicitamente que Deus é uma substância imaterial sem corpo ou partes.
Essa conclusão provém de definições filosóficas e de sínteses teológicas.
Enquanto isso, a Bíblia retrata repetidamente Deus falando face a face, aparecendo a profetas, sentado em um trono, em pé, caminhando, sendo visto e até mesmo possuindo um rosto, mãos, pés e, em Êxodo 33, as costas.
A questão não é se essas passagens podem ser interpretadas de forma figurada. A questão é se o próprio texto exige essa interpretação, ou se ela é imposta por pressupostos filosóficos anteriores.
Para aqueles comprometidos com a sola scriptura, essa é uma questão que vale a pena enfrentar.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

