A ressurreição de Jesus: respondendo ao melhor argumento do Skeptical Agnostic

“A ressurreição de Jesus é o auge de tal credulidade e ingenuidade.”

Essa é a conclusão de “The Best Argument Against the Resurrection”, um vídeo do canal do YouTube Skeptical Agnostic. O mundo antigo era realmente repleto de superstições, e esse é um motivo justo para analisar cuidadosamente os relatos de milagres da antiguidade. No entanto, a superstição explica por que explicações sobrenaturais estavam disponíveis para os primeiros cristãos; ela não explica por que eles escolheram justamente aquela explicação, quão rápido chegaram a essa conclusão ou por que construíram tudo em torno dela.

Estou dizendo que isso prova a ressurreição? Não. Significa apenas que o argumento não pode resolver a questão antes que alguém examine as evidências, o que é exatamente o que ele se propõe a fazer.

O vídeo merece uma resposta porque é claro sobre seu método. Ele dedica a maior parte de sua duração a rituais de lanças trácias, fantasmas romanos, adivinhação por fígados e presságios, e só então se volta para Jesus. Vou reconhecer o que ele acerta, mostrar onde sua visão do mundo antigo se distorce e, então, fazer a pergunta que ele nunca responde de fato.

O argumento do cético

Aqui está o método em suas próprias palavras:

Antes mesmo de falarmos sobre a autoria dos Evangelhos, a confiabilidade dos Evangelhos, fatos máximos ou fatos mínimos, precisamos considerar o fato indiscutível de que o mundo antigo estava saturado exatamente com o tipo de pensamento irracional e simplista que se presta facilmente a inferir falsamente que alguém que estava morto passou a estar vivo novamente.

O raciocínio é uma atualização do de David Hume. Hume defendia que os relatos de milagres “são observados, principalmente, em abundância entre nações ignorantes e bárbaras”, e ele utilizou o exato caso com o qual o vídeo termina. “Quando alguém me diz que viu um homem morto ser restaurado à vida”, escreveu, e se pergunta se é mais provável que a testemunha esteja enganada, ou enganando, ou que o fato realmente tenha ocorrido. “Peso um milagre contra o outro… e sempre rejeito o milagre maior.”

Em seu ponto mais forte, trata-se apenas de um argumento de probabilidade. Se as pessoas da antiguidade regularmente interpretavam experiências incomuns por meio de categorias sobrenaturais, a chance de os seguidores de Jesus terem acreditado em algo falso aumenta, e nossa confiança no relato deles deve começar em um nível mais baixo do que seria para um relato moderno. Ele tem o cuidado de dizer que não é um miticista. Ele não afirma que os Evangelhos copiaram mitos pagãos, apenas que surgiram do mesmo solo de credulidade.

O argumento, portanto, tem duas partes: um retrato do mundo antigo e do lugar do cristianismo nele, e uma afirmação de probabilidade construída sobre esse retrato. Vou tratá-las nessa ordem.

Se as pessoas da antiguidade regularmente interpretavam experiências incomuns por meio de categorias sobrenaturais, a chance de os seguidores de Jesus terem acreditado em algo falso aumenta

A credulidade no mundo antigo

A visão do mundo antigo apresentada no vídeo é de uma credulidade total:

Do topo ao fundo, crenças, práticas e costumes eram saturados de credulidade e pensamento mágico.

Dizer que “a cultura antiga continha enormes quantidades de superstição” é verdade.

Dizer que “os povos antigos careciam de recursos intelectuais para reconhecer a superstição” é falso.

Existe um pensamento generalizado, especialmente entre ateus e agnósticos com quem interagi online, de que a humanidade evoluiu do primitivismo para a civilização e que os seres humanos costumavam ser um grupo de ignorantes, enquanto hoje somos muito mais esclarecidos. Essa é uma visão excessivamente simplista, e livros como The Dawn of Everything, de David Graeber e David Wengrow, a contestam.

Os seres humanos nunca foram estúpidos. Os povos antigos careciam de grande parte do conhecimento científico acumulado que temos hoje, mas eram plenamente capazes de raciocínio lógico, ceticismo, de detectar fraudes e de exigir evidências.

Os próprios Evangelhos refletem isso, e eles são justamente os textos que o vídeo trata como produtos de um mundo crédulo. Mesmo assim, as narrativas de sua ressurreição fazem com que a dúvida seja a primeira reação dos discípulos, em vez de uma aceitação automática. Em Lucas, o relato das mulheres parece aos apóstolos “um delírio”; em João, Tomé exige evidências físicas; e Mateus diz que, quando os onze viram Jesus, “o adoraram; mas alguns duvidaram” (Mateus 28:17). As narrativas também enfatizam que o Jesus ressuscitado podia ser visto, tocado e podia comer.

As próprias fontes do Skeptical Agnostic apoiam a ideia de que os seres humanos não eram uniformemente crédulos.

Heródoto, ao tratar do culto trácio a Zalmoxis, apresenta um relato grego de um falso retorno dos mortos, escrito no século V a.C. O próprio Heródoto disse: “Nem descreio disso, nem acredito muito firmemente”. Isso soa bastante agnóstico.

O vídeo lista Augusto entre aqueles que teriam ascendido ao céu. O historiador Dião Cássio registra como essa crença foi produzida. A viúva de Augusto, Lívia, deu “um milhão de sestércios” a um senador chamado Númerio Ático “porque ele jurou que tinha visto Augusto ascendendo ao céu”.

Os seres humanos nunca foram estúpidos.

E o “exorcista sírio que interrogava demônios” mencionado no vídeo vem de “The Lover of Lies”, de Luciano, uma sátira escrita para zombar de pessoas que acreditam em histórias desse tipo. Citá-la como evidência da ingenuidade antiga é interpretar o gênero de forma invertida.

A ressurreição judaica e os paralelos pagãos

O vídeo transita livremente entre fantasmas, almas que vão aos deuses, heróis levados ao céu, divinização e ressurreição, como se fossem conceitos intercambiáveis. Eles não eram.

A reivindicação cristã era específica: Jesus morreu e foi sepultado, e então foi ressuscitado em corpo para a vida imortal, como o início da ressurreição que Deus por fim daria aos justos. A mitologia pagã certamente continha conceitos próximos, incluindo a trasladação corporal em alguns casos, mas a ressurreição não era a expectativa normal. Wright observa que a visão clássica dominante era a de que os mortos não retornam; quando Paulo pregou a ressurreição em Atenas, “uns zombaram” (Atos 17:32), e o próprio Paulo chamou a mensagem de “loucura para os gentios” (1 Coríntios 1:23).

O contexto judaico chega mais perto, mas cria um problema diferente para a explicação do vídeo. Muitos judeus esperavam uma ressurreição corporal no fim dos tempos. O que era incomum era a afirmação de que um homem, um Messias executado, já havia sido ressuscitado antes de todos os outros. Paulo chama Cristo de “as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20).

Isso é importante porque supõe-se que a afirmação de que “os povos antigos eram supersticiosos” explique por que os discípulos chegaram à conclusão que chegaram. No entanto, a superstição genérica tornava muitas interpretações possíveis. Quando Pedro apareceu inesperadamente após escapar da prisão, os crentes inicialmente disseram: “É o anjo dele” (Atos 12:15). Jesus poderia, da mesma forma, ter sido compreendido como um fantasma, um espírito exaltado ou alguém levado ao céu. Em vez disso, os primeiros cristãos se fixaram na ressurreição corporal e a tornaram tão central que Paulo pôde escrever: “se Cristo não ressuscitou, é vã a fé que vocês têm” (1 Coríntios 15:17).

O próprio exemplo do vídeo sobre João Batista ilustra a diferença. Marcos registra a especulação de que João teria sido ressuscitado dos mortos (Marcos 6:14), mas o rumor não produziu nada comparável ao movimento cristão. A mera disposição em considerar a ressurreição não era suficiente.

Portanto, o problema permanece: a credulidade antiga genérica pode explicar por que interpretações sobrenaturais estavam disponíveis. Ela não explica por que os primeiros cristãos convergiram de forma tão rápida e decisiva para esta interpretação específica.

Justino Mártir

O vídeo chama Justino Mártir de “prova cabal” porque Justino reconhece semelhanças entre as reivindicações cristãs sobre Jesus e as histórias pagãs sobre filhos divinos, nascimentos milagrosos, ressurreição e ascensão.

Mas o ponto de Justino não é que o cristianismo surgiu do mesmo processo de criação de mitos. Ele está argumentando contra um padrão duplo: se os pagãos já aceitam histórias desse tipo, não podem descartar o cristianismo simplesmente porque suas reivindicações parecem extraordinárias.

Justino afirma explicitamente que os cristãos devem ser acreditados “não porque digamos as mesmas coisas que esses escritores disseram, mas porque dizemos coisas verdadeiras”. Independentemente do que pensemos da própria explicação de Justino para os paralelos (ele culpava demônios que imitavam as profecias sobre Cristo), ele claramente não os trata como evidência de que o cristianismo e a mitologia pagã compartilham a mesma origem humana.

Portanto, Justino apoia a existência de paralelos. Ele não apoia a conclusão que o vídeo extrai deles.

Por que as probabilidades iniciais não são vereditos

Apenas um jogador de basquete jamais marcou 100 pontos em um jogo da NBA. A cultura esportiva também é repleta de exageros, memórias falhas e lendas sobre grandes atletas. Se você raciocinasse apenas com base nesses dois fatos, concluiria que as pessoas acreditaram erroneamente que Wilt Chamberlain marcou 100 pontos em 1962. Ninguém havia marcado tanto antes e ninguém marcou tanto depois.

Não concluímos isso porque analisamos o que as pessoas que estavam lá naquela noite disseram a respeito. Temos a súmula do jogo, o que seus companheiros de equipe disseram e o que os jogadores contra quem ele jogou disseram.

Essa analogia não é perfeita, porque o jogo de Wilt foi um caso extremo de uma habilidade comum. Uma ressurreição é, aparentemente, sobrenatural, portanto, sua probabilidade inicial é muito menor. Estou apenas apontando que tentar descartar a ressurreição com base nesses fundamentos tem seus limites, já que nem toda alegação é determinada por sua probabilidade inicial.

Os cristãos afirmam que Deus ressuscitou Jesus, e a probabilidade disso depende de se Deus existe e pode agir.

Uma ressurreição já é astronomicamente improvável. É tão improvável quanto qualquer evento pode ser.

Improvável em relação a quê? Se não existe Deus, uma ressurreição divina não tem uma probabilidade baixa. Ela não tem probabilidade alguma. Se Deus existe e pode agir na história, essa conclusão deixa de ser automática. Um cético é livre para argumentar que Deus provavelmente não existe ou que não faria isso. Ele não é livre para assumir isso, pois, caso o faça, o argumento se torna circular: eventos sobrenaturais são extremamente improváveis, logo a ressurreição também é, e assim a explicação sobrenatural perde. Isso só funciona se o debate já tiver sido decidido.

tentar descartar a ressurreição com base nesses fundamentos tem seus limites, já que nem toda alegação é determinada por sua probabilidade inicial

A escolha da comparação também importa. O vídeo pergunta com que frequência as pessoas da antiguidade, em geral, acreditavam em coisas sobrenaturais falsas. Se vamos raciocinar com base em taxas de ocorrência, a comparação deve incluir, ao menos, outros movimentos judaicos cujos líderes foram mortos. Josefo descreve vários e, embora nossa evidência sobre eles seja escassa, eles não mostram seguidores desiludidos anunciando rotineiramente que seu líder havia sido ressuscitado. Após a morte de Judas, o Galileu, seu movimento voltou-se para seus filhos e netos e, com o tempo, para um descendente chamado Eleazar, em Masada. N. T. Wright destaca o ponto sobre a própria família de Jesus: seu irmão Tiago liderou a Igreja em Jerusalém, mas “ninguém no cristianismo primitivo jamais sonhou em dizer que Tiago era o Messias”.

O debate real

Paulo transmite um resumo que ele mesmo diz ter recebido (“entreguei a vocês o que também recebi”): que Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou e “apareceu a Cefas e, depois, aos doze” (1 Coríntios 15:3-5). Bart Ehrman, que não é um apologista, trata isso como uma tradição mais antiga que a carta de Paulo e questiona se ela remonta “até mesmo ao período anterior ao momento em que o próprio Paulo se juntou ao movimento, por volta do ano 33 d.C.”. Paulo também escreve, sobre os anos após sua conversão: “Passados três anos, fui a Jerusalém para me encontrar com Cefas e fiquei quinze dias com ele” (Gálatas 1:18). Lá ele também viu Tiago.

As testemunhas não eram um grupo amigável. Paulo vinha perseguindo a Igreja. Os evangelhos retratam os irmãos de Jesus como céticos durante seu ministério (“nem mesmo os irmãos de Jesus criam nele”, João 7:5), mas Tiago aparece na lista de Paulo e, mais tarde, lidera a Igreja em Jerusalém. Em Lucas, a primeira reação dos apóstolos ao relato das mulheres é esta: “para eles tais palavras pareciam um delírio; eles não acreditaram no que as mulheres diziam” (Lucas 24:11). Paulo acrescenta que o Jesus ressuscitado apareceu a mais de quinhentas pessoas, “das quais a maioria ainda vive” (1 Coríntios 15:6). Ele não menciona nomes, portanto, é uma pergunta justa questionar o peso que isso carrega. Ainda assim, ele apresenta o fato como uma afirmação sobre pessoas vivas, não como uma história de um passado distante.

As explicações naturalistas que valem a pena ser pesadas contra a ressurreição são visões causadas pelo luto, experiências compartilhadas, dissonância após uma derrota esmagadora, releitura das escrituras e lendas que crescem com o tempo, isoladamente ou em combinação. Eu não considero esses argumentos naturalistas necessariamente convincentes, razão pela qual pode parecer mais fácil para um agnóstico argumentar apenas com base em probabilidades prévias. Em algum momento, o cético ainda precisará descer do campo das probabilidades e explicar as evidências.

Evidências dos Santos dos Últimos Dias

Os Santos dos Últimos Dias têm mais evidências para pesar do que apenas o Novo Testamento, porque as afirmações da Restauração também dizem respeito à ressurreição. Joseph Smith e outros afirmam ter visto o Senhor ressuscitado. O Livro de Mórmon testemunha que Jesus Cristo apareceu nas Américas, e suas origens são difíceis de explicar de forma naturalista.

Portanto, apelar para superstições do primeiro século não toca, de fato, nas reivindicações de verdade dos Santos dos Últimos Dias, exigindo um argumento separado para desmenti-las.

“O que é mais milagroso?”

O vídeo termina com a pergunta de Hume:

O que é mais milagroso? Que um movimento religioso primitivo, imerso em um mundo crédulo, onde o mitológico e o mágico eram comuns, chegasse a afirmar falsamente que um homem ressuscitou dos mortos? Ou que esse homem realmente tenha ressuscitado dos mortos?

Essa é uma pergunta justa. Mas Hume inclina a balança antes mesmo de qualquer coisa ser pesada. Ele argumenta que deve haver “uma experiência uniforme contra cada evento milagroso”, de modo que o testemunho de uma ressurreição perde por definição. Ele chega a imaginar a Rainha Elizabeth morrendo, sendo sepultada e reaparecendo um mês depois diante de toda a sua corte, e diz que insistiria “que isso não era, nem possivelmente poderia ser real”. Para um milagre ligado a “qualquer novo sistema de religião”, a credulidade das pessoas religiosas, por si só, “seria uma prova plena de fraude”. Esse é o argumento do vídeo, e é um veredito alcançado antes de as evidências serem pesadas.

Portanto, coloque as explicações concorrentes reais na balança. De um lado: Deus ressuscitou Jesus. Do outro: visões, dissonância cognitiva, reinterpretação das escrituras, reforço social, lenda ou alguma combinação deles. Qualquer que seja o lado escolhido, ele terá que explicar um credo antigo, um perseguidor que se tornou apóstolo, um irmão cético que liderou a Igreja e a crença em um homem ressuscitado antes de todos os outros, algo que ninguém ao redor deles estava esperando.

Um cético ainda pode pensar que a explicação naturalista vence. Mas esse caso precisa ser provado. “As pessoas da antiguidade eram supersticiosas” não é suficiente para ele.

A pergunta de Hume não é um atalho para evitar as evidências. É a razão pela qual precisamos pesá-las.

Fontes

As citações do vídeo foram transcritas de “The Best Argument Against the Resurrection” no canal Skeptical Agnostic. As citações bíblicas são da NAA.

  • Heródoto, Histories 4.95-96 (tr. G. C. Macaulay).
  • Dião Cássio, Roman History 56.46 (tr. E. Cary).
  • Luciano, The Lover of Lies (Philopseudes) 16.
  • Justino Mártir, First Apology 21, 23 e 54 (Ante-Nicene Fathers, vol. 1).
  • N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God (2003), capítulos 2 e 4; The Challenge of Jesus (1999), capítulo 6.
  • Bart D. Ehrman, How Jesus Became God (2014), capítulo 4.
  • David Graeber e David Wengrow, The Dawn of Everything: A New History of Humanity (2021).
  • David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding, seção 10 (“Of Miracles”), parágrafos 12-13, 20 e 36-38.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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