A Grande Apostasia: respondendo aos melhores argumentos de Joe Heschmeyer

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“Uma bolota e um carvalho não se parecem muito, mas são a mesma coisa.”

Esse é o argumento de Joe Heschmeyer contra a Grande Apostasia, apresentado no Catholic Answers Live, e a analogia acerta em uma coisa. A Igreja Católica pode não se parecer em nada com a igreja de Atos sem que essa diferença, por si só, prove uma apostasia. Uma bolota realmente se torna um carvalho e continua sendo, tecnicamente, a mesma coisa.

Só que isso levanta a questão em vez de respondê-la: é mesmo a mesma coisa? A heresia também é um tipo de mudança, então alguma coisa precisa distinguir o desenvolvimento legítimo da corrupção.

Heschmeyer oferece um critério: a continuidade da Igreja que ensina. Cristo autorizou os apóstolos, os apóstolos designaram ministros, Atos 15 mostra a igreja resolvendo doutrina com autoridade, e a Primeira Carta de Clemente mostra esse ministério designado continuando depois da morte dos apóstolos. Os Santos dos Últimos Dias não disputam nada disso, e é por isso que a resposta prova muito pouco.

Nossa afirmação não é que cristãos, bispos, escrituras, sacramentos ou autoridade delegada legítima desapareceram. A afirmação é que a autoridade revelatória apostólica desapareceu, ou seja, a autoridade que Pedro e Paulo tinham de receber revelação que obrigasse a Igreja universal. O Novo Testamento mostra apóstolos designando bispos, ministros e mestres. Ele nunca diz que essa designação era o plano de sucessão para aquela autoridade.

A sucessão episcopal não é sucessão à autoridade revelatória apostólica, e nossa afirmação é que ensinamentos, práticas e tradições foram se corrompendo ao longo do tempo sem profetas vivos para corrigi-los. E o próprio catolicismo nega que bispos posteriores possam receber nova revelação pública, o que significa que a descontinuidade histórica não está realmente em disputa. O que está em disputa é o que ela significa.

Roma chama essa descontinuidade de plenitude. Os Santos dos Últimos Dias a chamam de perda, e de um afastamento da maneira como Deus sempre conduziu o seu povo.

“Uma bolota e um carvalho”

A citação completa:

A pergunta é: isto é a mesma coisa? Assim como uma bolota e um carvalho não se parecem muito, mas são a mesma coisa.

Não basta dizer que existem essas mudanças aparentes, de superfície. Queremos saber se houve o fim de um organismo, de uma organização, de uma estrutura, de uma sociedade, de uma igreja, e a criação de outra.

Repare em como a analogia funciona. É uma inversão do ônus da prova disfarçada de concessão. Ele abre mão das diferenças visíveis, o que não lhe custa nada, e em troca passa a tratar cada objeção específica que vier depois como mais uma etapa do crescimento do carvalho.

Mais adiante no episódio ele concede o ponto que importa:

Às vezes o desenvolvimento vai mesmo do simples para o complexo. Mas, de novo, lembre-se do exemplo do embrião que se torna adulto, ou do exemplo da bolota, ou da semente de mostarda que cresce até virar árvore.

Alguns desenvolvimentos são legítimos. Outros não são, ou então a categoria de heresia está vazia. O critério que a tradição dele oferece é o juízo da Igreja que ensina, e é exatamente esse juízo que está em questão.

O que a afirmação da apostasia realmente diz

Ao longo do episódio a objeção é respondida como se nós disséssemos que a igreja desapareceu. Aqui está a afirmação de verdade, com os termos definidos.

Por apostasia eu não quero dizer o desaparecimento de cristãos, bispos, escrituras, sacramentos, verdade ou dons espirituais. Quero dizer a perda da autoridade revelatória apostólica na Igreja universal.

Por autoridade revelatória apostólica quero dizer a capacidade de receber revelação divina genuinamente nova e obrigatória para toda a Igreja, distinta da orientação, da iluminação ou da assistência do Espírito em preservar e aplicar aquilo que já foi dado.

Por que a autoridade revelatória importa? Porque esse é o padrão que vemos desde o princípio, e é o padrão que vemos no Novo Testamento. As escrituras não dizem que os céus estão fechados e que não haverá mais revelação. Isso é tradição. O Novo Testamento também não mostra que os bispos tenham a mesma autoridade que os apóstolos tinham, então por que essa prática cessaria de uma hora para outra?

Ou seja, a disputa não é revelação contra ausência de revelação. Os católicos afirmam uma Igreja viva, guiada pelo Espírito, que ensina com autoridade. A disputa é se Cristo pretendia um ofício contínuo, capaz de receber revelação nova e universalmente obrigatória, ou se o depósito apostólico foi definitivamente completado na primeira geração.

Atos 15 e a Primeira Carta de Clemente

A evidência mais forte de Heschmeyer é Atos 15 e a Primeira Carta de Clemente.

Jesus não estabelece a república popular de Deus. Você nunca vê os apóstolos sendo eleitos pelo rebanho. Você nunca vê uma fonte de autoridade que venha de baixo para cima.

Existe essa ideia de que a estrutura da igreja e a autoridade na igreja vêm de uma designação de cima para baixo, em que o Pai envia Cristo, que envia os apóstolos, que enviam a hierarquia da igreja.

Ele constrói o argumento a partir de Lucas 22, onde Cristo diz “eu confio a vocês um reino, assim como o meu Pai confiou a mim” (Lucas 22:29), depois a partir de Atos 15, onde, após considerável debate, os apóstolos e presbíteros emitem uma decisão obrigatória em nome do Espírito Santo, e então a partir da Primeira Carta de Clemente, escrita por volta do ano 96, que descreve os apóstolos designando ministros para sucedê-los.

Boa parte disso está correta, e os Santos dos Últimos Dias sustentam esses pontos com mais firmeza do que a maioria das pessoas com quem Heschmeyer costuma debater. No Novo Testamento a autoridade é conferida de cima e nunca reivindicada. Ninguém envia a si mesmo. Nós cremos em chaves, em ordenação e na imposição de mãos.

Atos 15 estabelece um juízo conciliar com autoridade, e a Primeira Carta de Clemente estabelece a continuidade de um ministério designado. O que nenhum dos dois estabelece é a sucessão à autoridade revelatória apostólica, e é justamente nessa lacuna que está o nosso argumento.

Clemente descreve os apóstolos provendo uma sucessão ordenada no ministério. Ele não descreve os apóstolos transmitindo a capacidade de declarar que Deus falou sobre algo que não havia sido revelado antes. E a distinção não é uma invenção dos Santos dos Últimos Dias, já que Roma traça a mesma linha, do outro lado, e a traça explicitamente.

A Didaqué

“Você nunca vê uma fonte de autoridade que venha de baixo para cima” é uma posição forte, e a Didaqué é difícil de conciliar com ela. O próprio Heschmeyer cita o documento nesse episódio, chamando-o de um texto “que parece datar do próprio primeiro século”. A Didaqué é um manual cristão primitivo sobre como as igrejas locais devem se conduzir, e o capítulo 15 diz o seguinte:

Escolhei, pois, para vós, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens mansos, não apegados ao dinheiro, verazes e aprovados; pois eles também exercem entre vós o serviço dos profetas e dos mestres. (Didaqué 15:1)

Se o episcopado é a autoridade da igreja de cima para baixo, por que a congregação está sendo instruída a escolher os próprios bispos?

A resposta honesta é que isso estabelece menos do que pode parecer à primeira vista, mas o suficiente para o meu argumento. O simples fato de a congregação designar, ou ao menos escolher, o seu bispo já deveria causar estranheza a quem defende a alegação do “nunca de baixo para cima”. Um católico pode me corrigir se eu estiver errado, mas foi mais ou menos mil anos depois que os papas começaram a reservar para si a nomeação dos bispos, o que representa um afastamento significativo da forma como a liderança era conferida na igreja mais primitiva.

Roma admite que a revelação pública cessou. E daí?

Bispos católicos reivindicam orientação divina o tempo todo, concílios reivindicam a assistência do Espírito, e os papas reivindicam proteção contra o erro sob condições definidas. O que nenhum bispo pós-apostólico é reconhecido por Roma como tendo recebido é nova revelação pública que amplie o depósito apostólico. Qualquer cristão pode receber visões ou revelação privada, mas elas não acrescentam nada ao depósito e não podem obrigar a Igreja universal.

Roma interpreta a cessação como plenitude. Os Santos dos Últimos Dias a interpretam como perda. A pergunta direta que eu faço é: como uma igreja com autoridade revelatória apostólica é a mesma coisa que uma igreja sem ela?

A ausência de profetas, do jeito que o Antigo Testamento a descreve, soa como privação e não como maturidade.

“Já não vemos os nossos sinais; já não há profeta; nem há, entre nós, quem saiba até quando isso vai durar.” (Salmos 74:9)

O Primeiro Livro dos Macabeus registra a mesma ausência três vezes (4:46, 9:27, 14:41) como uma situação ainda sem solução, à espera de um profeta que viesse decidir a questão. O profeta veio, e se chamava João Batista, que preparou o caminho para o Messias, Jesus Cristo. Cristo então chamou doze apóstolos, sendo Pedro o principal deles. Quando Judas traiu Nosso Senhor e morreu, os doze chamaram Matias para substituí-lo. Paulo e Barnabé, ainda que não fossem dos doze, eram apóstolos, e nós consideramos os escritos de Paulo como escritura.

O próprio Paulo diz até quando esses ministérios deveriam continuar, e não é até o fim da geração apostólica:

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Efésios 4:11-13)

Se devemos crer que os apóstolos foram um fundamento assentado uma única vez, como alguns leem Efésios 2:20, por que ele diz que eles continuariam apenas dois capítulos depois?

“Você não precisa ser sacerdote para batizar”

Aqui Cy Kellett para de levantar as próprias objeções e apresenta as nossas a Heschmeyer. Ele diz que tirou a questão diretamente de materiais dos Santos dos Últimos Dias, e a apresenta como central para a nossa teologia. A pergunta é esta: se os apóstolos originais foram mortos sem transmitir as chaves do sacerdócio, com que autoridade os bispos posteriores realizaram batismos válidos ou lideraram a igreja de Cristo?

Heschmeyer diz que a pergunta “erra em algumas coisas de um jeito sutil”, e dá duas respostas. Esta é a primeira. A segunda é o argumento sobre os Doze, na próxima seção.

Na verdade você não precisa ser sacerdote para batizar de forma válida e lícita. E isso é algo que a igreja disse explicitamente, por exemplo, no Quarto Concílio de Latrão.

Filipe não é sacerdote. Ele é diácono. E Filipe está em Samaria batizando os samaritanos.

A jogada é romper a corrente no primeiro elo. Se o batismo nunca exigiu sacerdócio, então perder as chaves não poderia ter invalidado o batismo de ninguém, e o argumento perde sustentação antes mesmo de começar.

Isso responde à questão do batismo, e não à questão da autoridade. Nossa afirmação nunca foi que ninguém conseguiria fisicamente realizar um batismo. É que uma ordenança válida exige a autoridade que Deus designou para ela, e é por isso que os Santos dos Últimos Dias exigem um sacerdote ou um élder para batizar, e não qualquer crente disposto.

E o próprio texto ao qual ele recorre depõe a nosso favor:

“Quando os apóstolos, que estavam em Jerusalém, ouviram que o povo de Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Chegando ali, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.” (Atos 8:14-17)

Filipe pode batizar. O que Filipe não pode fazer é tudo o que os crentes samaritanos precisam, e os homens que podem fazer o resto viajam de Jerusalém para fazê-lo. Nada sugere que o batismo dele fosse defeituoso. A distinção é de jurisdição. Alguns atos pertencem a uma ordem e outros a outra, e a diferença é real o bastante para exigir a viagem de dois apóstolos. O próprio Heschmeyer diz isso. A confirmação “é algo que Filipe, como diácono, não pode administrar”.

Essa distinção entre graus de autoridade é o que dizemos ter sido perdido. Não o batismo. Ninguém argumentou que o batismo fosse a parte difícil.

A própria autoridade de Filipe foi conferida, e conferida por apóstolos. Ele é um dos sete de Atos 6, e “apresentaram estes homens aos apóstolos, que, orando, lhes impuseram as mãos” (Atos 6:6). O exemplo escolhido para mostrar autoridade operando sem sacerdócio passa direto pelas mãos dos apóstolos.

A objeção também tinha duas partes, batismos válidos ou liderar a igreja de Cristo, e só a primeira foi respondida.

“Os Doze sempre serão apenas doze”

Em Atos 12 lemos que Herodes lançou mãos violentas sobre alguns que pertenciam à igreja. Ele matou Tiago, irmão de João, à espada. Essa é a primeira vez que vemos um apóstolo morrer. E ele não é substituído.

Um dos erros que você encontra na polêmica e na apologética dos Santos dos Últimos Dias é essa confusão entre os Doze e os apóstolos, quando na realidade são dois grupos distintos, e os Doze sempre serão apenas doze indivíduos, e isso vale para sempre.

Ele tem razão de que a distinção existe. O próprio Paulo a faz:

“E apareceu a Cefas e, depois, aos doze… Depois, foi visto por Tiago e, mais tarde, por todos os apóstolos. Por último, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos.” (1 Coríntios 15:5, 7-9)

E Paulo não é um dos Doze. Ainda assim ele recebe revelação que obriga igrejas que nunca visitou, e designa e instrui bispos. Lucas também chama Barnabé de apóstolo, sem qualquer ressalva, depois da Ascensão:

“Porém, ouvindo isto, os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgando as suas roupas, saltaram para o meio da multidão, gritando…” (Atos 14:14)

A autoridade que está realmente em disputa nunca esteve limitada aos Doze, e por isso mostrar que os Doze eram um grupo fechado não nos diz nada sobre se a autoridade apostólica continuou.

Paulo e Barnabé mostram que o apostolado era mais amplo do que os Doze. Eles não mostram que o ofício mais amplo devia durar. Heschmeyer ainda pode argumentar que todo apóstolo era fundacional e, portanto, temporário. Ele só precisa de um argumento para isso, e Atos 12 não serve, porque Atos 12 trata dos Doze.

Atos 1 é o problema maior, e ele cria duas dificuldades. É ali que uma vaga é preenchida de novo. Com Matias, treze homens ocuparam doze lugares, ou seja, há sucessão nesse ofício pelo menos uma vez. E a exigência que o texto estabelece, de que um apóstolo tenha estado com os Doze desde o batismo de João até a Ascensão, é a qualificação para a vaga de Judas. Ela não pode ser o critério do apostolado em geral, porque Paulo e Barnabé não a cumprem. Ou vale para todos, e então Paulo não é apóstolo, ou vale apenas para os Doze, e então não nos diz nada sobre os demais.

“A grande apostasia aconteceu em Atos 12”

Então, se houve uma grande apostasia, você teria que dizer que a grande apostasia aconteceu em Atos 12. E, em Atos 12, ainda falta boa parte do Novo Testamento acontecer. E ninguém percebe que está numa apostasia nesse momento.

É uma ótima frase de efeito, mas se apoia numa premissa que os Santos dos Últimos Dias não sustentam, já que não cremos que um apóstolo não substituído equivalha a uma apostasia. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias passa regularmente por períodos com o Quórum dos Doze incompleto, porque chamar um novo apóstolo leva tempo. Ninguém dentro da Igreja trata o intervalo entre uma morte e um chamado como interrupção da autoridade apostólica, desde que a capacidade de chamar um novo apóstolo não tenha se perdido.

“Vamos ler os pais da igreja anteriores a Constantino”

A objeção, como Cy a formula, é que protestantes e Santos dos Últimos Dias dizem que a igreja era cristã antes de Constantino e católica depois. Nessa versão, foi o favor imperial que transformou um movimento perseguido numa instituição romana, e a missa, o sacerdócio, os bispos e o papado chegam todos com o imperador. Heschmeyer escreveu um livro sobre os dois primeiros séculos em parte para responder a isso, e Cy observa que ele para deliberadamente cem anos antes de Constantino, antes de tirar a própria conclusão:

Se alguém algum dia lhe fizer essa objeção, é só dizer: ótimo, vamos ler os pais da igreja anteriores a Constantino, e então veja essa visão de mundo inteira se desmanchar.

Concordo que é um argumento ruim e uma crítica fraca à Igreja Católica. Pessoalmente, vejo a reformulação doutrinária ficar muito mais visível a partir de Niceia. Os pais da igreja anteriores a Constantino certamente não eram um bloco monolítico, e há muitos exemplos deles ensinando coisas como o subordinacionismo, que os católicos hoje considerariam heresia.

Por falar em heresia, Cy diz para escolher um pai da igreja, qualquer um, e Heschmeyer responde:

Bom, você tem que tomar cuidado. Não escolha Orígenes.

A diversidade de pensamento entre os pais da igreja primitiva certamente torna difícil para qualquer um sustentar que “todos os pais da igreja primitiva concordam comigo e discordam de você”.

“Onde o bispo aparecer”

Esta é a melhor evidência que Heschmeyer apresentou, uma carta antiga de Inácio de Antioquia:

Onde o bispo aparecer, ali esteja também a multidão, assim como onde está Jesus Cristo, ali está a Igreja católica. Não é lícito, sem o bispo, nem batizar nem celebrar a ágape. (Inácio, Aos Esmirniotas)

Sem estes, não há igreja. (Inácio, Aos Tralianos, sobre o bispo, os presbíteros e os diáconos)

No começo do segundo século já existe uma igreja visível, sacramental e ordenada episcopalmente, e essa carta traz o uso mais antigo preservado da expressão katholike ekklesia, ou seja, Igreja católica.

E, no entanto, escrevendo aos romanos, ele diz isto:

Não lhes dou ordens como Pedro e Paulo. Eles eram apóstolos; eu sou apenas um condenado. Eles eram livres, ao passo que eu, até agora, sou um servo. (Aos Romanos 4)

Inácio admite que existe uma diferença clara de autoridade entre um apóstolo e um bispo. A afirmação católica é que os bispos herdam uma parte transmissível daquilo que os apóstolos tinham, e Inácio não diz isso. Não disputo que os bispos tivessem autoridade sobre as suas igrejas, mas era autoridade episcopal, não autoridade apostólica. Simplesmente não há evidência convincente da segunda na Bíblia nem nos escritos cristãos primitivos.

E repare que Inácio nunca apela a Roma em busca de autoridade universal. Diante da própria morte, ele diz que a igreja na Síria “agora tem Deus como seu pastor, em meu lugar. Somente Jesus Cristo cuidará dela”. Um bispo contemplando a vacância da própria sé, e o pastor que ele nomeia é Cristo. Não Roma. Se Roma tivesse jurisdição sobre Antioquia, ou algum papel em prover uma sé vaga, aquele seria o momento natural para dizê-lo.

Acho que todos concordamos sobre o que Inácio está dizendo, e discordamos sobre o que isso significa ou deixa de significar.

Os credos

Cy levanta a objeção de que a igreja pegou o ensino judaico e despejou filosofia grega dentro dele.

Quando você está diante de uma disputa dentro da igreja, nós dois sabemos o que Jesus disse. Agora estamos perguntando o que ele quis dizer com aquilo. E se a sua resposta é apenas repetir literalmente o que ele disse, você não respondeu à pergunta.

Nós usamos deliberadamente linguagem não bíblica para explicar realidades bíblicas.

Não foi tão simples quanto copiar a metafísica grega para dentro do cristianismo e encerrar o assunto. A metafísica foi empregada, e empregada de maneiras genuinamente novas. Lewis Ayres defendeu isso longamente, e os Santos dos Últimos Dias deveriam parar de argumentar como se ele não o tivesse feito.

A minha objeção é que essa metafísica é literal e figurativamente estrangeira ao mundo hebraico, e a fórmula nicena depende inteiramente de aceitá-la. Não dá para traçar as mesmas fronteiras doutrinárias a partir de nenhuma outra metafísica. Isso é revelador. Soa como uma invenção posterior, e não como a articulação de fronteiras que as escrituras já sugeriam.

O Novo Testamento atribui a Jesus um status divino de forma inequívoca. O que ele não faz é decidir entre as versões rivais do quarto século sobre o que esse status significa ontologicamente. Até a palavra ontologia vem do pensamento grego, e o mesmo vale para categorias como a de “eternamente gerado”.

Na época do Credo Atanasiano, a adesão a uma formulação trinitária e cristológica altamente desenvolvida já é declarada em termos explicitamente salvíficos. Ele começa assim: “Todo aquele que quiser salvar-se, antes de tudo é necessário que guarde a fé católica.” E depois: “Aquele que não a guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá eternamente.”

Os católicos dizem que não receberam nenhuma revelação nova, e os documentos deles dizem isso com todas as letras. A Munificentissimus Deus, a constituição que definiu a Assunção, afirma que “o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que, por sua revelação, expressem doutrinas novas, mas para que, com sua assistência, guardassem com cuidado e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, ou seja o depósito da fé”. O Magistério interpreta o depósito, não acrescenta nada a ele.

Mesmo aceitando isso tal como é apresentado, o problema continua ali. Do ponto de vista do fiel, o efeito prático é difícil de distinguir de uma revelação nova. Uma proposição que não é ensinada explicitamente nos escritos apostólicos, e que nunca havia sido definida, pode ser declarada divinamente revelada séculos depois e tornada obrigatória para todos, de modo que negá-la se torna inadmissível, enquanto a Igreja sustenta que nenhuma revelação pública nova ocorreu.

Os dogmas marianos mostram isso com mais clareza do que Niceia, porque em Niceia um católico pode apontar para material cristológico do primeiro e do segundo século e argumentar um desenvolvimento real. Não há um conjunto comparável de evidências por trás da Imaculada Conceição, definida em 1854. Em 1950 a Munificentissimus Deus declarou “ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”, e advertiu que “se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica”. Então, em 1997, João Paulo II disse isto:

O Novo Testamento, embora não afirme explicitamente a Assunção de Maria, oferece o seu fundamento, porque sublinhou fortemente a perfeita união da Virgem santíssima com o destino de Jesus.

As escrituras não afirmam a coisa, mas apontam para ela, e a Igreja lê aquilo para onde elas apontam. Essa é a tese do desenvolvimento, e ela é justa até certo ponto. Ainda assim, ponha as duas afirmações lado a lado. Não afirmada explicitamente no Novo Testamento, e negá-la coloca você fora da fé.

Os católicos de fato têm critérios para distinguir o desenvolvimento autêntico da corrupção, e são critérios sérios: continuidade com as escrituras e a tradição, o testemunho patrístico, a recepção litúrgica, o sentido dos fiéis, o consenso dos bispos, a coerência com aquilo que já foi definido. A dificuldade aparece onde a evidência histórica é escassa ou aponta para os dois lados, porque ali os critérios deixam de decidir e quem decide é o juízo da própria Igreja. Então como se estabelece que uma proposição recém-articulada e universalmente obrigatória estava no depósito apostólico, em vez de ter sido acrescentada a ele, sem apelar justamente para a autoridade cuja competência para fazer esse julgamento é o que está sendo discutido?

De volta à bolota

O critério de Heschmeyer é a continuidade da Igreja que ensina. Um desenvolvimento é autêntico quando a Igreja, exercendo a autoridade herdada dos apóstolos, o julga autêntico. A evidência histórica que ele oferece para essa sucessão é evidência real, apresentada com honestidade, e ela estabelece autoridade episcopal. O que ela não estabelece é a sucessão à autoridade revelatória apostólica, que é justamente o que a conclusão dele exige.

O que Heschmeyer está dizendo é que a complexidade não é problema porque o carvalho é maior que a bolota. A riqueza não é problema porque o carvalho precisa de mais terra. A metafísica nicena não é problema porque o carvalho desenvolveu vocabulário novo. Cada resposta só se sustenta se isto for um carvalho, e a evidência de que é um carvalho é que a própria árvore diz que é.

Veja bem, nada disso prova que a Grande Apostasia aconteceu. A conclusão mais modesta é que nada nesse episódio mostra que o fim da autoridade revelatória apostólica foi pretendido, e não perdido.

O que nos devolve à pergunta de fundo. Autoridade apostólica significa o quê, exatamente, se ela não pode fazer as coisas que os apóstolos faziam? Os bispos ensinam, governam, santificam e ordenam, e nada disso está em questão. O que nenhum bispo desde o primeiro século é reconhecido como tendo feito é receber uma palavra de Deus que amplie o depósito para toda a Igreja. Roma concorda que o modo apostólico de revelação não continua, e lê essa cessação como plenitude, não como perda.

Nós achamos que a igreja foi instruída a esperar outra coisa, até que todos cheguemos à unidade da fé.

Fontes

As citações de Joe Heschmeyer e Cy Kellett foram transcritas e traduzidas do episódio do Catholic Answers Live publicado como “Every Question About the Great Apostasy Answered w/ @shamelesspopery”.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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