A Bíblia diz que a revelação cessou?
Resposta curta
A Bíblia não diz que a revelação pública cessou depois do primeiro século ou com a morte do último apóstolo. Essa doutrina vem de ler as Escrituras junto com uma narrativa da história cristã. Os textos mais citados provam outra coisa: Hebreus 1 mostra a supremacia de Cristo, Judas 3 uma fé já estabelecida e Efésios 2:20 o papel fundador dos apóstolos. Efésios 4:11-13 chega a dar a apóstolos e profetas um prazo, até que todos cheguem à unidade da fé, e esse dia ainda não chegou.
Não. A Bíblia nunca diz que a revelação cessou depois do primeiro século ou com a morte do último apóstolo.
A doutrina nasce de uma leitura das Escrituras feita em conjunto com uma determinada narrativa da história cristã. Os apóstolos morreram, o ofício deles desapareceu da igreja majoritária e, com o tempo, a igreja deixou de aceitar novos escritos em seu cânon. As tradições católica e protestante passaram a explicar essa história como a conclusão da revelação pública, tal como Deus a teria planejado.
Ninguém contesta que os apóstolos originais morreram. A pergunta é se Deus quis que a autoridade revelatória deles terminasse para sempre, e se a Bíblia diz isso.
Três afirmações costumam andar juntas aqui, e elas não são a mesma coisa. Uma é que o cânon das escrituras está fechado. Outra é que a revelação pública à igreja inteira terminou com os apóstolos. A terceira é o cessacionismo, a visão protestante de que dons como a profecia cessaram. Um protestante carismático pode crer na profecia hoje e ainda assim sustentar um cânon fechado, e um católico nega que haja nova revelação pública sem ser cessacionista no sentido reformado. Este artigo trata da segunda afirmação, porque é ela que se usa contra a Restauração.
O que o argumento do encerramento realmente afirma
Os defensores cuidadosos do encerramento da revelação não dizem que ela terminou durante o ministério de Jesus. Boa parte do Novo Testamento registra revelações dadas depois de Sua ressurreição e ascensão. O argumento deles é que Cristo é a suprema autorrevelação de Deus, que os apóstolos tiveram um papel único na transmissão do Seu ensino e que, uma vez concluída a obra fundadora deles, ninguém mais poderia ter autoridade comparável.
A teologia católica e a reformada constroem esse argumento de maneiras diferentes.
A posição católica gira em torno do depósito da fé. A Dei Verbum ensina que nenhuma nova revelação pública é esperada antes da volta de Cristo:
“Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Dei Verbum §4)
Esse depósito é preservado na Escritura e na Tradição, e o magistério da igreja o guarda e o interpreta sem lhe acrescentar nada.
A posição reformada gira em torno da Escritura. A Confissão de Westminster recorre à linguagem de Hebreus 1:1 e depois declara encerrados os antigos modos de revelação:
“…por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade… foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo.” (Confissão de Westminster 1.1)
São argumentos materialmente diferentes. O catolicismo diz que a autoridade apostólica de ensino continua, ao passo que a nova revelação pública terminou. A teologia reformada trata apóstolos e profetas como uma classe fundadora já concluída, cujo ensino agora está na Escritura.
O catolicismo diz que a autoridade apostólica de ensino continua, ao passo que a nova revelação pública terminou
Somando os textos
Nenhuma das duas tradições consegue apontar um versículo que diga que a revelação pública terminou com os apóstolos, e nenhuma acha que precisa de um. Os cristãos constroem doutrinas o tempo todo a partir de vários textos lidos em conjunto. Nenhum versículo sozinho enuncia a Trindade, e os Santos dos Últimos Dias raciocinam da mesma forma sobre doutrinas próprias. Portanto, a pergunta justa não é se um versículo diz isso. É o que os textos citados a favor do encerramento provam depois de somados.
Tome os três que têm mais peso. Hebreus 1 mostra que Cristo supera todos os profetas. Judas 3 mostra que a fé tem uma identidade estabelecida, que nenhum mestre posterior pode substituir. Efésios 2:20 mostra que os apóstolos e profetas lançaram o fundamento da igreja. Juntos, eles provam algo real. Cristo é supremo, a fé é fixa e os apóstolos foram fundacionais.
Os Santos dos Últimos Dias afirmam cada parte disso. O que nenhum dos três fornece é o passo que vai daí até “e Deus nunca mais chamará um apóstolo nem revelará coisa alguma à Sua Igreja”. Um argumento cumulativo pode combinar evidências parciais a favor de uma conclusão. Não pode chegar a uma conclusão da qual nenhuma de suas partes é evidência, e cada parte, lida em seu próprio contexto, acaba sendo evidência de outra coisa.
Um argumento cumulativo pode combinar evidências parciais a favor de uma conclusão. Não pode chegar a uma conclusão da qual nenhuma de suas partes é evidência
Hebreus 1
Hebreus começa com a passagem sobre a qual as duas confissões constroem:
“Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1:1-2)
O contraste é entre os profetas e o Filho. Os profetas falavam em fragmentos, e o Filho é “a expressão exata do seu Ser” (1:3). Isso faz de Cristo o ápice de tudo aquilo para que os profetas apontavam. Não faz Dele a palavra final de Deus, expressão que Hebreus nunca usa. O que é último são os dias, não a palavra, e a maior parte do Novo Testamento foi revelada depois que, segundo esta mesma frase, Deus “nos falou pelo Filho”.
O texto mais forte de Hebreus a favor do outro lado aparece um capítulo depois, onde a mensagem foi “anunciada inicialmente pelo Senhor” e “depois nos foi confirmada pelos que a ouviram” (2:3). Isso dá às primeiras testemunhas oculares um lugar que ninguém mais pode ocupar. Mas o autor se inclui entre os que receberam a mensagem de segunda mão, e escreveu uma carta que a igreja recebeu como escritura.
O contraste é entre os profetas e o Filho. Os profetas falavam em fragmentos, e o Filho é “a expressão exata do seu Ser”
Hebreus de fato usa uma linguagem forte sobre coisas feitas “uma vez por todas”, e os argumentos do encerramento se apropriam desse clima. Mas todas as vezes que a expressão aparece na carta, ela está entre os capítulos 7 e 10 e trata do sacrifício de Cristo ou de seus efeitos. Nenhuma dessas passagens trata de revelação, profecia, apostolado ou Escritura. Um profeta que propusesse uma segunda expiação seria falso segundo os próprios termos da epístola, e isso não é algo que os Santos dos Últimos Dias afirmem.
O tratamento completo está em Hebreus 1 ensina que a revelação acabou?
Judas 3
Este é um dos versículos mais fortes do outro lado:
“Amados, quando eu me empenhava para escrever-lhes a respeito da salvação que temos em comum, senti que era necessário corresponder-me com vocês, para exortá-los a lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Judas 3)
Aceite a tradução. Suponha que “uma vez por todas” esteja exatamente certo e depois pergunte o que aconteceu uma vez por todas. A fé foi entregue aos santos. Judas não diz que a revelação foi completada uma vez por todas, nem que o cânon foi fechado. “A fé” é um corpo de ensino recebido, e os cristãos devem defendê-lo contra qualquer um que queira substituí-lo. Não é um inventário acabado de tudo o que Deus viria a dizer.
O próprio Novo Testamento mostra a diferença. Richard Bauckham chama a visão de que 2 Pedro se baseou em Judas de “de longe a solução mais amplamente aceita”. Se isso estiver certo, um livro do Novo Testamento foi escrito depois que a fé foi entregue uma vez por todas. Um defensor do encerramento pode responder que a fé estava completa em substância e que os escritores posteriores apenas a explicaram e a aplicaram. A distinção é justa. Mas ela abre mão do versículo, porque, se a escrita inspirada continuou depois que a fé foi entregue, Judas 3 não pode mostrar que ela parou.
Não é um inventário acabado de tudo o que Deus viria a dizer
O tratamento completo está em Judas 3 e a fé entregue uma vez por todas
Efésios 4 fixa um prazo para apóstolos e profetas
Efésios 4 nomeia os ofícios que Cristo deu à igreja e diz por quanto tempo Ele os deu:
“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Efésios 4:11-13)
Paulo coloca os cinco ofícios numa única lista, com um único propósito e um único ponto de chegada. Não os divide em temporários e permanentes. E ele mesmo dá a data de término. Cristo os concede até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus. O ponto de chegada não é a morte dos apóstolos nem a conclusão de um livro. É a maturidade da igreja, que ele descreve no versículo seguinte: “para que não mais sejamos como crianças, arrastados pelas ondas e levados de um lado para outro por qualquer vento de doutrina” (4:14).
Esse ponto de chegada claramente ainda não veio. Depois do primeiro século, os cristãos se dividiram sobre a natureza de Cristo, a Trindade, a graça, os sacramentos, a autoridade da igreja, o cânon e a salvação, e a maioria dessas disputas continua aberta. Se apóstolos e profetas foram dados até que a igreja chegasse à unidade da fé, a igreja ainda está dentro do período que Paulo descreve.
Os Santos dos Últimos Dias leem a lista tal como ela está escrita. A sexta Regra de Fé nomeia os mesmos ofícios: “Cremos na mesma organização que existia na Igreja Primitiva, isto é, apóstolos, profetas, pastores, mestres, evangelistas, etc.”
O fundamento vem primeiro
A resposta habitual é Efésios 2:20, que descreve os cristãos como
“edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.” (Efésios 2:20)
Um fundamento se lança uma única vez, diz o argumento, e portanto esses ofícios eram temporários.
Mas é a mesma carta. No capítulo 2, Paulo diz para que servem os apóstolos e profetas. No capítulo 4, diz por quanto tempo Cristo os concede. Ler o capítulo 2 como data de validade anula a data que Paulo dá dois capítulos depois. E a própria imagem de Paulo não para no fundamento. Logo no versículo seguinte, o edifício “cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor” (2:21), e no capítulo 4 apóstolos e profetas são dados “para a edificação do corpo de Cristo”. A obra ainda está subindo.
Há algo nos primeiros apóstolos que não pode se repetir, e isso deve ser dito com precisão. Quando os onze substituíram Judas Iscariotes, exigiram um homem que os tivesse acompanhado “começando no batismo de João, até o dia em que foi tirado do nosso meio” (Atos 1:21-22). Ninguém depois daquela geração poderia cumprir esse requisito. Ser testemunha do Cristo ressuscitado é outra questão. Paulo se tornou apóstolo depois da ascensão exatamente com base nisso: “Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor?” (1 Coríntios 9:1; veja 15:8).
Apocalipse 22 e 1 Coríntios 13
O Apocalipse termina com uma advertência muitas vezes citada contra qualquer escritura posterior:
“Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro.” (Apocalipse 22:18)
A advertência diz respeito às palavras “da profecia deste livro”, o livro do Apocalipse, que circulou como um rolo independente muito antes de alguém reunir o Novo Testamento num só volume. Moisés fez a mesma advertência: “Não acrescentem nada à palavra que eu lhes ordeno, nem diminuam nada dela” (Deuteronômio 4:2). Profetas e livros inspirados continuaram surgindo durante séculos depois de Deuteronômio. A advertência protege um texto contra adulteração. Não proíbe Deus de falar de novo.
1 Coríntios 13 de fato diz que a profecia vai acabar:
“Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará. Pois o nosso conhecimento é incompleto e a nossa profecia é incompleta. Mas, quando vier o que é completo, então o que é incompleto será aniquilado.” (1 Coríntios 13:8-10)
Paulo diz quando: “Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; depois veremos face a face” (13:12). Ver face a face não é o que acontece quando se conclui um cânon. Richard Gaffin, um dos principais defensores reformados do cessacionismo, diz que a leitura que identifica “o que é completo” com o Novo Testamento concluído “não pode se tornar exegeticamente crível”.
As duas passagens também compartilham uma imagem. Paulo liga o fim da profecia ao momento em que vier “o que é completo”, e em Efésios concede os ofícios até que a igreja chegue ao “estado de pessoa madura”. As duas expressões traduzem a mesma palavra grega, teleios. Nas duas, a imagem é a de deixar a infância: “quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino” (1 Coríntios 13:11) e “para que não mais sejamos como crianças” (Efésios 4:14). Paulo sempre situa o fim da profecia na maturidade plena da igreja, não na conclusão de um livro.
A Escritura dá testes para os profetas, não um prazo de validade
A Bíblia oferece várias maneiras de julgar uma alegação profética. Jesus diz: “Pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mateus 7:16). Deuteronômio diz que a profecia que não se cumpre é “uma palavra que o Senhor não falou” (18:22). João escreve: “provem os espíritos para ver se procedem de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído mundo afora” (1 João 4:1). Paulo diz a uma congregação: “Não desprezem as profecias. Examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:20-21).
Essas instruções tratam de problemas diferentes e não formam uma única lista de verificação. Mas nenhuma delas faz da data de uma alegação profética o teste para saber se ela é falsa. As epístolas foram escritas para igrejas que sobreviveriam aos apóstolos, e o fim da profecia teria sido importante para essas igrejas. Nenhum autor as avisa de que esse fim está chegando.
O Novo Testamento apresenta a profecia como parte normal da vida da igreja. Profetas viajam de Jerusalém para Antioquia, onde Ágabo prediz uma fome (Atos 11:27-28). A igreja de Antioquia tem seus próprios “profetas e mestres” (Atos 13:1). Filipe tem “quatro filhas solteiras, que profetizavam” (Atos 21:9). Paulo enumera, em ordem, as designações de Deus na igreja: “primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres” (1 Coríntios 12:28). Um defensor do encerramento aceita tudo isso e argumenta que a profecia parou mais tarde. É aí que está o ônus da prova. O registro mostra a profecia em funcionamento na igreja, e a retirada permanente dela exige um argumento que a Bíblia não apresenta.
Aplique o teste
A Bíblia não ensina que a revelação pública cessou. Hebreus estabelece a supremacia de Cristo. Judas estabelece uma fé definida, que o ensino posterior não pode contradizer nem substituir. Efésios dá apóstolos e profetas à igreja até que ela chegue à unidade da fé. Nenhum deles diz que Deus parou de falar.
O que a Escritura mostra, em vez disso, é um padrão. Os profetas são o meio pelo qual Deus diz ao Seu povo o que Ele está fazendo, em todas as épocas que o registro abrange:
“Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.” (Amós 3:7)
Os Santos dos Últimos Dias creem que esse padrão nunca terminou e que a revelação pública foi restaurada por meio do profeta Joseph Smith.
Nada do que foi dito acima prova isso. O que foi dito remove a objeção de que a Escritura o proíbe, que é uma afirmação diferente e menor. Se uma restauração realmente aconteceu é uma pergunta que só se responde examinando a própria alegação.
Jesus disse como fazer isso:
“Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão.” (Mateus 7:20)
Ele não disse para verificar a data. Joseph Smith disse que traduziu o Livro de Mórmon pelo dom e poder de Deus. Essa alegação produziu um livro que qualquer pessoa pode pegar e ler. Aplique o teste a ele.
Fontes
Escrituras (NAA): Hebreus 1:1-3; 2:3. Judas 3. Efésios 2:20-21; 4:11-14. Atos 1:21-22; 11:27-28; 13:1; 21:9. 1 Coríntios 9:1; 12:28; 13:8-12; 15:8. Apocalipse 22:18. Deuteronômio 4:2; 18:22. Mateus 7:16, 20. 1 João 4:1. 1 Tessalonicenses 5:20-21. Amós 3:7.
Escrituras da Restauração: Regras de Fé 1:6.
A posição do encerramento: Concílio Vaticano II, Dei Verbum §4; Confissão de Fé de Westminster 1.1 (tradução da Igreja Presbiteriana do Brasil).
Sobre o uso de Judas em 2 Pedro: Richard Bauckham, Jude and the Relatives of Jesus in the Early Church (Edinburgh: T&T Clark, 1990), 145.
Sobre 1 Coríntios 13:10: Richard B. Gaffin Jr., Perspectives on Pentecost (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1979), 109.
Leitura relacionada: Hebreus 1 ensina que a revelação acabou? · Judas 3 e a fé entregue uma vez por todas
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.