Hebreus 1 ensina que a revelação acabou?
Resposta curta
Hebreus 1 não ensina que a revelação acabou. O texto diz que Jesus Cristo é maior do que todos os profetas que vieram antes Dele e que Deus falou pelo Filho nestes últimos dias: o que é último são os dias, não a palavra. Hebreus nunca chama o Filho de palavra final de Deus, e boa parte do Novo Testamento foi revelada depois dessa frase. O Filho é o ápice do que os profetas anunciaram, e todo verdadeiro profeta desde então fala em Seu nome.
Não. Hebreus 1 ensina que Jesus Cristo é maior do que todos os profetas que vieram antes Dele. Nunca diz que Deus deixaria de chamar profetas ou de dar revelação à Sua Igreja.
Os cristãos costumam chamar o Filho de “palavra final” de Deus, mas Hebreus nunca faz isso. O autor diz que Deus falou pelo Filho “nestes últimos dias”. O que é último são os dias, não a palavra. O Filho é o ápice de tudo o que os profetas falaram de forma fragmentada, e Ele continuou falando depois de subir ao céu.
Nada disso faz do Filho mais um profeta numa série. Ele é aquele de quem os profetas falaram, e aquele em cujo nome todo verdadeiro profeta, desde então, tem falado.
A ideia de que a revelação acabou vem das primeiras linhas da carta:
“Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também fez o universo. O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas.” (Hebreus 1:1-3)
Muitos cristãos leem isso como se Deus tivesse falado antes por meio de profetas e depois enviado o Seu Filho, de modo que os profetas já não seriam necessários. As declarações católica e reformada sobre o fim da revelação, a Dei Verbum §4 e a Confissão de Westminster 1.1, se apoiam nesses versículos. Mas a conclusão que elas tiram precisa ser trazida de fora para dentro da passagem.
O que a passagem de fato ensina
Os contrastes daquela frase de abertura são reais. O “Antigamente” contra “nestes últimos dias”. Os pais contra nós. Os profetas contra o Filho. As “muitas vezes e de muitas maneiras” contra uma só. Hebreus marca um antes e um depois de verdade. Os profetas falavam em fragmentos. No Filho, Deus fala por meio de alguém que é “a expressão exata do seu Ser”, o que nenhum profeta jamais foi e nenhum profeta posterior pode ser.
O restante da carta desenvolve o que isso significa. O Filho é superior aos anjos, depois a Moisés, depois ao sacerdócio levítico e aos sacrifícios da antiga aliança. O assunto de Hebreus é quem Cristo é e por que Ele supera todos os mediadores que vieram antes Dele.
Essa é a supremacia que Hebreus ensina, e os Santos dos Últimos Dias a afirmam por inteiro. Nenhum profeta pode substituir Cristo. Nenhuma revelação posterior pode oferecer um salvador superior, um evangelho melhor ou uma segunda expiação. Toda revelação genuína depois Dele vem Dele e é julgada por Ele. As revelações que os Santos dos Últimos Dias aceitam como escritura falam em Seu nome: “Eis que eu sou Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Doutrina e Convênios 6:21).
O assunto de Hebreus é quem Cristo é e por que Ele supera todos os mediadores que vieram antes Dele
Essa é a diferença entre um ápice e uma palavra final. Uma palavra final encerra a conversa. Em Hebreus, a conversa continua. Perto do fim da carta, Deus ainda é aquele “que dos céus nos adverte” (12:25), agora sob a nova aliança que o Filho inaugurou.
O que ela não diz
A frase descreve duas eras e situa seus leitores na segunda. Não há uma terceira etapa, nenhum período depois dos apóstolos em que Deus fica em silêncio. O capítulo não menciona a morte dos apóstolos, a conclusão da Bíblia nem um cânon fechado. Não diz que os profetas vão desaparecer nem que a autoridade apostólica nunca poderá ser restaurada.
A expressão “nestes últimos dias” também não designa uma era encerrada. A carta diz que Cristo “aparecerá segunda vez” (9:28), e os últimos dias duram até que Ele apareça. Quem vive antes da Sua volta está vivendo dentro deles, não depois deles.
Deus continuou falando depois do Filho
O problema mais evidente da leitura que vê aqui o fim da revelação é que a maior parte do Novo Testamento foi revelada depois que Deus “nos falou pelo Filho”. Os apóstolos receberam visões. Pedro recebeu a revelação de que o evangelho era para os gentios (Atos 10). Paulo recebeu revelações e escreveu cartas que os cristãos hoje leem como escritura. João recebeu o livro do Apocalipse. O próprio Hebreus faz parte desse registro. A frase “nos falou pelo Filho” não pode significar que Deus parou de se comunicar quando Jesus veio, e todo cristão que aceita o Novo Testamento já concorda com isso.
A afirmação mais cuidadosa é que a revelação continuou por meio dos apóstolos e terminou quando eles morreram. Hebreus 1 também não diz isso, e o restante da carta descreve Deus falando no presente:
“Por isso, como diz o Espírito Santo: ‘Hoje, se ouvirem a sua voz, não endureçam o coração como foi na rebelião, no dia da tentação no deserto.’” (Hebreus 3:7-8)
“E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo. Porque, após ter dito: ‘Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: Imprimirei as minhas leis no coração deles e as inscreverei sobre a sua mente.’” (Hebreus 10:15-16)
“Tenham cuidado e não se recusem a ouvir aquele que fala. Pois, se os que se recusaram a ouvir quem divinamente os advertia na terra não escaparam, muito menos escaparemos nós, se nos desviarmos daquele que dos céus nos adverte.” (Hebreus 12:25)
Esses versículos não provam nenhuma alegação moderna de revelação. Mostram que o autor não achava que a vinda de Cristo tivesse deixado Deus em silêncio.
O texto mais forte de Hebreus a favor do outro lado
Um defensor do encerramento que lê Hebreus tem uma passagem melhor que o capítulo 1, poucas linhas adiante:
“como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação? Esta, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, depois nos foi confirmada pelos que a ouviram. Também Deus testemunhou juntamente com eles, por meio de sinais, prodígios, vários milagres e a distribuição do Espírito Santo, segundo a sua vontade.” (Hebreus 2:3-4)
É uma cadeia de três elos: anunciada pelo Senhor, confirmada pelos que a ouviram, recebida por “nós”. Ela dá às primeiras testemunhas oculares um lugar que nenhuma pessoa posterior pode ocupar, e isso deve ser concedido sem resistência. Ninguém vivo hoje ouviu Jesus pregar na Galileia, e os Santos dos Últimos Dias não afirmam o contrário.
Mas veja onde a cadeia deixa o autor. Ele se inclui no terceiro grupo. Não ouviu o Senhor; recebeu a mensagem dos que O ouviram. E escreveu uma carta que a igreja passou a receber como escritura, para uma comunidade na qual Deus ainda fazia “a distribuição do Espírito Santo”, isto é, ainda concedia os dons do Espírito. Se a revelação com autoridade terminou com os que ouviram o Senhor, o primeiro documento que ela excluiria seria Hebreus.
Um defensor do encerramento pode responder, com razão, que o autor ainda pertence à era apostólica e que a revelação se encerrou mais tarde, com a morte do último apóstolo. Essa posição é coerente. Mas a data de encerramento passa a vir de uma afirmação sobre a história da igreja, não de algo que Hebreus diga.
A verdadeira discordância
Os apóstolos originais morreram, e nenhuma figura posterior foi amplamente reconhecida como detentora da autoridade deles. Até aí, é história. A disputa é sobre o que isso significa.
Os católicos sustentam que o papel dos apóstolos na recepção da revelação terminou com eles, enquanto a autoridade de ensino deles continua por meio dos bispos. Os protestantes em geral sustentam que o fundamento apostólico agora está nas Escrituras concluídas. Os Santos dos Últimos Dias sustentam que a autoridade apostólica foi perdida e depois restaurada. Os mesmos fatos se encaixam nas três explicações. Passar de “a revelação apostólica parou” para “Deus quis que ela parasse para sempre” exige um argumento, e Hebreus 1 não fornece nenhum.
O que Hebreus 1 fornece é uma afirmação sobre quem Jesus é, e é uma afirmação maior do que a tese do encerramento. Nenhum profeta, antigo ou moderno, é maior do que Ele, e todo verdadeiro profeta fala em Seu nome. Transformar isso em prova de que Deus parou de falar torna a passagem menor do que ela é.
Fontes
Escrituras (NAA): Hebreus 1:1-3; 2:3-4; 3:7-8; 9:28; 10:15-16; 12:25. Atos 10.
Escrituras da Restauração: Doutrina e Convênios 6:21.
A posição do encerramento: Concílio Vaticano II, Dei Verbum §4; Confissão de Fé de Westminster 1.1.
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As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.