Judas 3 e a fé entregue uma vez por todas
Resposta curta
Judas 3 não ensina que a revelação pública terminou com os apóstolos. O versículo manda os cristãos lutarem pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos, isto é, defender uma fé já recebida contra quem a estava corrompendo. Ele não diz que Deus deixaria de falar, e o Novo Testamento continuou a ser escrito depois dele. Judas estabelece um teste: nenhuma revelação posterior pode substituir Cristo nem contradizer o evangelho dos apóstolos, e os Santos dos Últimos Dias aceitam esse teste.
Judas 3 é um dos versículos mais fortes e mais citados em favor da tese de que a revelação pública se encerrou com os apóstolos, e mesmo assim ele não diz isso. Ele manda os cristãos defenderem uma fé que já tinham recebido contra pessoas que a estavam corrompendo. Não diz nada sobre Deus deixar de revelá-la, e o Novo Testamento continuou a ser escrito depois que Judas escreveu isto:
“Amados, quando eu me empenhava para escrever-lhes a respeito da salvação que temos em comum, senti que era necessário corresponder-me com vocês, para exortá-los a lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Judas 3)
Isso não esvazia o versículo. Judas ensina que a fé tem uma identidade já estabelecida, e que mestres posteriores não podem redefinir a graça, a moral ou o senhorio de Jesus. Qualquer suposta revelação que substituísse Cristo ou contradissesse o evangelho pregado pelos apóstolos seria reprovada pelos próprios critérios de Judas. Os Santos dos Últimos Dias aceitam esse teste.
Três afirmações costumam andar juntas aqui, e elas não são a mesma coisa. Uma é que o cânon das escrituras está fechado. Outra é que a revelação pública à igreja inteira terminou com os apóstolos. A terceira é o cessacionismo, a posição protestante de que dons como a profecia cessaram. Um protestante carismático pode crer em profecia hoje e ainda assim sustentar um cânon fechado. Um católico nega qualquer nova revelação pública depois dos apóstolos sem ser cessacionista no sentido reformado. Este artigo trata da segunda afirmação, o encerramento da revelação pública, porque é isso que normalmente se pede a Judas 3 que prove.
O argumento do encerramento se apoia em três expressões, “a fé”, “foi entregue” e “uma vez por todas”, e depois numa afirmação sobre quando tudo isso aconteceu. Vale a pena examinar cada uma delas.
“A fé” é um corpo de ensinamentos, não um inventário acabado
A palavra grega é pistis. Em geral, ela significa confiança, o ato pelo qual uma pessoa crê. Mas o Novo Testamento também usa “a fé” para uma mensagem que existe antes de quem a ouve e que pode ser pregada, obedecida e abandonada. Um grande grupo de sacerdotes “obedecia à fé” (Atos 6:7). Um mago se opunha a Paulo e Barnabé, “procurando afastar da fé o procônsul” (Atos 13:8). De Paulo se dizia que “agora prega a fé que no passado procurava destruir” (Gálatas 1:23). Nos últimos tempos, alguns “apostatarão da fé” (1 Timóteo 4:1). Ninguém obedece ao próprio ato de crer.
Judas usa a palavra nesse sentido, e os Santos dos Últimos Dias deveriam concedê-lo sem discussão. Ele não está pedindo aos leitores que continuem crendo com sinceridade. Está mandando que defendam algo que tem uma identidade definida.
Concedamos, então, a versão mais forte. “A fé” é um corpo de ensinamentos recebido, com conteúdo real. O que nenhuma dessas passagens faz é transformá-la num inventário acabado de tudo o que Deus viria a revelar. Elas descrevem a identidade de uma mensagem, não um registro que já tivesse sido encerrado. A teologia católica chama isso de “depósito da fé”, mas esse é o vocabulário dela, não o de Judas. As palavras de Judas são mais simples: a fé, entregue aos santos.
Ele não está pedindo aos leitores que continuem crendo com sinceridade. Está mandando que defendam algo que tem uma identidade definida
“Foi entregue” não quer dizer “nada mais”
“Foi entregue” traduz paradidōmi, a palavra comum para a transmissão de um ensino recebido. Paulo a usa para o próprio evangelho: “Antes de tudo, entreguei a vocês o que também recebi” (1 Coríntios 15:3). Nada na palavra restringe essa entrega à escrita. Paulo manda os tessalonicenses guardarem as tradições “que lhes foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa” (2 Tessalonicenses 2:15), e Judas diz aos seus leitores: “lembrem-se das palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 17).
Alguns críticos dos Santos dos Últimos Dias se apoiam na gramática do verbo:
“Também é importante observar que a palavra ‘entregue’ em Judas 3 é um particípio aoristo passivo. Isso indica um ato que foi concluído no passado, sem nenhum elemento contínuo. Não haveria nenhuma nova ‘fé’ ou corpo de verdade (como o Livro de Mórmon ou a Pérola de Grande Valor!)” (Ron Rhodes e Marian Bodine, Reasoning from the Scriptures with the Mormons)
Não é isso que o aoristo faz. Ele apresenta uma ação como um todo. Não anuncia que nada relacionado a ela jamais virá depois, e tratá-lo como se anunciasse é um erro contra o qual estudiosos do grego vêm alertando há décadas. O argumento também derruba a si mesmo. Se “entregue” exclui toda palavra posterior de Deus, exclui também a carta de Judas, que foi escrita depois que a fé já tinha sido entregue.
Nem mesmo o uso católico deste versículo produz uma Bíblia fechada. O Catecismo descreve o depósito da fé que os apóstolos confiaram à Igreja como “contido na Tradição sagrada e na Sagrada Escritura” (§84). Judas 3 pode apoiar a ideia de que existe uma só fé apostólica. Por si só, não pode dizer onde essa fé está guardada, nem que nada mais será dito sobre ela.
Se “entregue” exclui toda palavra posterior de Deus, exclui também a carta de Judas, que foi escrita depois que a fé já tinha sido entregue
Concedamos o “uma vez por todas”
Quase todo argumento a favor do encerramento põe seu peso num único advérbio. “Uma vez por todas” traduz hapax, e o argumento é que a entrega nunca mais pode acontecer.
Conceda a tradução. Suponha que “uma vez por todas”, como traduzem tanto a NRSVUE quanto a NAA, esteja exatamente certo, e então pergunte o que aconteceu uma vez por todas. A fé foi entregue aos santos. Judas não diz que a revelação foi concluída uma vez por todas, nem que o cânon foi fechado uma vez por todas, nem que Deus falou uma vez por todas e não diria mais nada. O advérbio descreve a entrega da fé, e uma fé entregue uma vez por todas deixa Deus livre para continuar falando sobre ela. A própria carta de Judas mostra isso, como argumenta a próxima seção.
A tradução forte nem sequer é a única possível. Hapax também significa simplesmente “uma vez”, a respeito de coisas que podiam se repetir: “Uma vez fui apedrejado” (2 Coríntios 11:25), ou o sumo sacerdote, que “entra sozinho uma vez por ano” (Hebreus 9:7). A Almeida Revista e Corrigida diz “a fé que uma vez foi dada aos santos”, sem o “por todas”. Judas escreve porque certos indivíduos “se infiltraram no meio de vocês sem serem notados” (v. 4), e dois versículos depois usa a mesma palavra para o que os leitores já sabem: “Embora vocês já estejam cientes de tudo de uma vez por todas” (v. 5). Nessa leitura, o que ele quer dizer é que a fé já tinha sido entregue antes de os intrusos chegarem, de modo que os leitores não lhes devem nada. (Os manuscritos divergem sobre a que oração o advérbio pertence no versículo 5, por isso ele ilustra o uso de Judas em vez de prová-lo.)
O advérbio descreve a entrega da fé, e uma fé entregue uma vez por todas deixa Deus livre para continuar falando sobre ela
O argumento não depende dessa leitura. Mesmo com a tradução mais forte, o versículo deixa a fé estabelecida. Sobre o futuro da revelação, não diz nada.
Judas continuou escrevendo depois que a fé foi entregue
Judas diz que a fé já tinha sido entregue e, em seguida, escreve uma carta cheia de advertências, interpretações, mandamentos e predições, porque uma situação nova as exigia.
Um cristão tradicional vai responder que Judas não está acrescentando um novo evangelho, apenas defendendo e aplicando o que já tinha sido dado. Essa resposta está correta, e ela concede justamente a distinção da qual toda esta questão depende. Uma nova comunicação de Deus, com autoridade, não equivale por si só a uma segunda fé.
Paulo sustentava as duas coisas ao mesmo tempo. Declarou anátema qualquer um, “mesmo um anjo vindo do céu”, que pregasse um evangelho contrário ao que ele tinha pregado (Gálatas 1:8-9). E continuou recebendo revelação e escrevendo instruções obrigatórias sobre questões que Jesus nunca havia tratado. Um evangelho estabelecido não impediu Deus de falar com Paulo. Significava que nada do que Deus dissesse depois poderia contradizer o evangelho que Ele já tinha dado.
Repare também em quem está escrevendo. Judas se apresenta como “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago” (v. 1), não como apóstolo, e remete os leitores às palavras proferidas “pelos apóstolos” como se fossem outras pessoas. A carta que a igreja recebeu como escritura foi escrita por um homem que não afirmava ser um dos apóstolos, depois que a fé já tinha sido entregue.
O Novo Testamento continuou a ser escrito depois de Judas
É aqui que ler Judas 3 como um selo sobre a revelação esbarra no próprio Novo Testamento.
2 Pedro usa Judas como fonte. Richard Bauckham, autor de um comentário de referência sobre as duas cartas, chama essa hipótese de “de longe a solução mais amplamente aceita” desde o fim do século XIX. Se isso estiver certo, um livro do Novo Testamento foi escrito depois da “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Seja o que for que Judas quis dizer, ele não pode ter querido dizer que nenhum outro escrito inspirado poderia vir depois, porque veio um.
Esse não é um argumento dos Santos dos Últimos Dias. Trent Horn, um apologista católico que rejeita tanto a revelação pós-bíblica quanto qualquer Grande Apostasia, usa esse argumento contra os protestantes:
“Alguns argumentaram que essa verdade é descrita em Judas 3, que fala da ‘fé que uma vez por todas foi entregue aos santos’, mas esse versículo, por si só, não sustenta a afirmação de que a revelação pública cessou. Muitos estudiosos acham que Judas foi uma fonte de 2 Pedro, o que significa que 2 Pedro não faria parte da revelação divina, já que foi escrita depois que a fé ‘uma vez por todas foi entregue aos santos’.”
O diagnóstico dele é o mesmo que este artigo vem fazendo. Usar Judas 3 dessa forma “confunde ‘dar a fé’ aos santos com a revelação pública”, escreve ele. “Jesus deu ‘a fé’ uma vez por todas aos apóstolos, mas a revelação pública da fé continuou por décadas depois das interações dele com eles, durante a escrita do Novo Testamento.”
Horn também cita John MacArthur, o cessacionista protestante mais conhecido. MacArthur diz que hapax significa que “nada precisa ser acrescentado à fé que foi entregue ‘uma vez por todas’”, e diz também que o versículo foi “escrito por Judas antes que o NT estivesse completo”. Ele pode sustentar as duas coisas com coerência. A fé, diria ele, estava completa em substância, e Judas, Pedro e João vieram depois a escrever explicações e aplicações inspiradas dela. Essa distinção é justa, e é a mesma que este artigo vem traçando. Mas ela abre mão do versículo. Se os escritos inspirados continuaram depois que a fé foi entregue uma vez por todas, então Judas 3 não pode mostrar que os escritos inspirados, ou a revelação, tinham cessado. A afirmação de que nada mais poderia vir depois dos apóstolos precisa de um argumento à parte.
As datas que a maioria dos defensores do encerramento aceita apontam na mesma direção. Se a carta de Judas foi escrita pelo irmão de Tiago, ela pertence a algum ponto entre os anos 50 e 80, aproximadamente. A tradição que remonta a Ireneu situa o Apocalipse perto do fim do reinado de Domiciano, em meados da década de 90, e a datação tradicional também coloca o Evangelho e as cartas de João no final do século. Nessa cronologia, uma grande parte do Novo Testamento foi escrita depois de Judas. E o Apocalipse não se apresenta como um lembrete de algo já dado. Ele se chama “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer” (Apocalipse 1:1), e descreve um reinado de mil anos que nenhum outro livro do Novo Testamento menciona (Apocalipse 20:4-6).
Um defensor do encerramento tem uma resposta justa. Esses livros ainda estão dentro da era apostólica, então a revelação se encerrou com a morte do último apóstolo, não com a carta de Judas. Essa posição é coerente. Mas agora a data do encerramento vem de uma afirmação sobre a história da igreja, não de algo que Judas diga.
O que o versículo deixa resolvido
Judas 3 deixa resolvido que existe uma só fé, e não um evangelho novo a cada geração, e que os cristãos devem defendê-la contra qualquer um que queira substituí-la ou corrompê-la. Não diz que o cânon está completo, que tudo o que os apóstolos ensinaram foi posto por escrito, que nenhum apóstolo ou profeta poderia voltar a ser chamado, nem que uma autoridade, uma vez perdida, jamais poderia ser restaurada.
Isso deixa os Santos dos Últimos Dias diante de um teste, e é um teste que eles deveriam receber de bom grado. A Restauração afirma ser a mesma fé que foi entregue aos santos, não outra. Se ela preserva essa fé ou a substitui é algo que se pode debater com base nas evidências, doutrina por doutrina. O que não se pode sustentar a partir de Judas é que Deus não tivesse mais nada a dizer.
Fontes
Escrituras (NAA): Judas 1, 3, 4, 5, 17. Atos 6:7; 13:8. Gálatas 1:8-9, 23. 1 Timóteo 4:1. 1 Coríntios 15:3. 2 Tessalonicenses 2:15. 2 Coríntios 11:25. Hebreus 9:7. Apocalipse 1:1; 20:4-6.
O argumento do aoristo: Ron Rhodes e Marian Bodine, Reasoning from the Scriptures with the Mormons (Eugene, OR: Harvest House, 1995), 76. Sobre por que o aoristo não significa “uma vez e nunca mais”, veja Frank Stagg, “The Abused Aorist”, Journal of Biblical Literature 91 (1972): 222-31.
Sobre o uso de Judas em 2 Pedro: Richard Bauckham, Jude and the Relatives of Jesus in the Early Church (Edinburgh: T&T Clark, 1990), 145; e seu Jude, 2 Peter, Word Biblical Commentary 50, que também discute a posição de hapax em Judas 5.
O argumento católico a partir de 2 Pedro: Trent Horn, The Case for Catholicism: Answers to Classic and Contemporary Protestant Objections (San Francisco: Ignatius Press, 2017), 51-52, incluindo as citações que ele faz de John MacArthur.
Sobre a datação: The New Oxford Annotated Bible, introduções a Judas e ao Apocalipse; Ireneu, Contra as Heresias 5.30.3, sobre o Apocalipse e o reinado de Domiciano.
O depósito da fé: Catecismo da Igreja Católica §84.
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As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.