Uma história em doze cenas
Como o Livro de Mórmon foi traduzido?
Traduzir, aqui, não quer dizer decifrar com dicionário e gramática. Joseph Smith dizia ter traduzido o livro “pelo dom e poder de Deus”, ditando o texto a escreventes. Esta é a história contada por quem estava na sala.
Role para começar
01 1827 · Urim e Tumim
Duas pedras em aros de prata
Na noite de 1823 em que falou das placas, Morôni falou também do que estava guardado com elas:
“…havia duas pedras em aros de prata — e essas pedras, presas a um peitoral, constituíam o que é chamado Urim e Tumim — depositadas com as placas…”
Joseph Smith—História 1:35
O Livro de Mórmon chama esse instrumento de “intérpretes” (Mosias 8:13). Alguns anos depois da tradução, os santos passaram a chamá-lo de Urim e Tumim, o nome dos objetos que o sumo sacerdote de Israel levava no peitoral (Êxodo 28:30). Joseph recebeu as placas e os intérpretes em setembro de 1827.
02 1828 · Harmony, Pensilvânia
116 páginas
Na primavera de 1828, em Harmony, Martin Harris, um fazendeiro de Palmyra, serviu de escrevente. De meados de abril a meados de junho, o manuscrito chegou a 116 páginas.
Martin pediu para levá-las e mostrá-las à família, e Joseph deixou, com relutância. As páginas se perderam e nunca foram encontradas. Em julho, Joseph recebeu uma repreensão dura e ficou algum tempo sem poder traduzir. A revelação começava assim:
“As obras e os desígnios e os propósitos de Deus não podem ser frustrados nem podem se dissipar.”
Doutrina e Convênios 3:1
03 O outro instrumento · A pedra vidente
Uma pedra oval, cor de chocolate
Joseph tinha também outro instrumento: uma pequena pedra oval, encontrada anos antes. Na juventude, como outros de sua época, ele a usara para procurar objetos perdidos e tesouros enterrados. Segundo as testemunhas, muitas vezes era com ela que traduzia.
A Igreja trata disso abertamente. Em 2015, publicou fotografias da pedra, “da cor de chocolate, de formato oval”. Martin Harris, que escreveu para Joseph em 1828, contou:
“…o Profeta possuía uma pedra de vidente, com a qual podia traduzir, assim como com o Urim e Tumim, e, por conveniência, usava então a pedra de vidente.”
Martin Harris, relatado por Edward Stevenson, 1882
04 Joseph Smith, a pedra e o chapéu
Luz no escuro
Muitas testemunhas descrevem a mesma cena: Joseph punha a pedra, ou os intérpretes, num chapéu e encostava o rosto nele para bloquear a luz. David Whitmer, que viu o fim da tradução na casa do pai, contou em 1887:
“…e na escuridão a luz espiritual brilhava. Aparecia um pedaço de algo parecido com pergaminho, e nele aparecia a escrita. Aparecia um caractere de cada vez e, debaixo dele, a interpretação em inglês.”
David Whitmer, 1887
Segundo ele, quando o escrevente lia de volta e estava certo, o trecho sumia e vinha o seguinte. Os escreventes não viam nada disso: viam um homem com o rosto no chapéu, ditando. O próprio livro fala de “uma pedra que brilhará na escuridão como luz” (Alma 37:23).
05 7 de abril de 1829 · Harmony
Dias inolvidáveis
Em 5 de abril de 1829, chegou a Harmony um professor chamado Oliver Cowdery. Dois dias depois, Joseph começou a ditar e Oliver, a escrever (Joseph Smith—História 1:66–67).
“Esses foram dias inolvidáveis — ouvir o som de uma voz ditada pela inspiração do céu despertou neste peito uma profunda gratidão! Dia após dia continuei ininterruptamente a escrever o que lhe saía da boca…”
Oliver Cowdery, 1834
Em menos de três meses, ditaram quase todo o livro que conhecemos, que tem cerca de 270 mil palavras. O estudioso John W. Welch calcula que, descontadas viagens, uma mudança e outras interrupções, sobraram de 57 a 63 dias de trabalho.
Velocidade, sozinha, não prova nada: um bom orador fala milhares de palavras por dia. O que chama a atenção é o que saiu nesse ritmo, e como saiu.
06 O manuscrito original
Letra por letra
Cerca de 28% do manuscrito ditado ainda existe, e o linguista Royal Skousen o estudou linha por linha. Os erros são de quem ouve, não de quem copia: em 1 Néfi 13:29, um escrevente pôs “and” onde Joseph disse “an”.
Em Helamã 1:15, Oliver escreveu “Coriantummer”, riscou e escreveu “Coriantumr”. Nenhuma palavra inglesa termina em “mr”: alguém teve de soletrar o nome.
Segundo Skousen, Joseph tinha diante de si pelo menos vinte palavras de cada vez. A maioria das correções é imediata, na mesma linha, e há pouquíssimos sinais de revisão ou de mudança de ideia.
07 O que Emma viu
Nada entre nós
Emma Smith também escreveu para o marido em Harmony. Ela o descreveu “sentado com o rosto enterrado no seu chapéu, com a pedra nele e ditando hora após hora com nada entre nós”. Perguntada se ele ditava da Bíblia ou de um manuscrito, respondeu: “Ele não tinha nem um manuscrito nem um livro para ler”.
“…ao voltar das refeições ou outras interrupções, ele retomava o trabalho exatamente onde parara, sem nem sequer olhar o manuscrito ou pedir que lhe lesse algum trecho.”
Emma Smith, 1879
Não se conhece nenhum rascunho, esboço ou lista de nomes anterior a 1829. É uma evidência negativa: mostra o que não se encontrou, não prova o que não existiu.
08 Abril a junho de 1829 · A ordem do ditado
Mosias primeiro
Depois da perda, Joseph não recomeçou do início. As evidências indicam que ele e Oliver retomaram em Mosias, onde o trabalho com Martin tinha parado, e seguiram até Morôni. Só em junho ditaram o começo: de 1 Néfi a Palavras de Mórmon.
A emenda entre esses dois pontos foi ditada de trás para a frente, com semanas de distância. E se encaixa:
“…o rei Benjamim, trabalhando com todas as forças de seu corpo e a faculdade de toda a sua alma, mais uma vez estabeleceu a paz naquela terra.”
Palavras de Mórmon 1:18 · ditado em junho
“E então não houve mais contendas em toda a terra de Zaraenla…”
Mosias 1:1 · ditado em abril
09 As placas menores de Néfi
Um sábio propósito
As 116 páginas perdidas eram o Livro de Leí, parte do resumo feito por Mórmon. O que Joseph ditou por último cobre o mesmo período a partir de outro registro, as placas menores de Néfi. Mórmon diz que as juntou ao seu resumo sem saber bem por quê:
“E faço isto com um sábio propósito; pois assim me é sussurrado, segundo o Espírito do Senhor que está em mim. E agora, eu não sei todas as coisas, mas o Senhor sabe todas as coisas que hão de acontecer…”
Palavras de Mórmon 1:7
Quem crê vê aqui previsão. O crítico vê uma solução engenhosa para um problema de 1828. Seja como for, não é um remendo solto: aparece em 1 Néfi 9:5, em Palavras de Mórmon e numa revelação de 1829 (Doutrina e Convênios 10:38–45).
10 Junho de 1829 · Fayette, Nova York
Terminado em Fayette
No começo de junho, Joseph e Oliver foram para a fazenda de Peter Whitmer Sr., em Fayette. Ali, com membros da família Whitmer ajudando como escreventes, terminaram o ditado por volta de 28 de junho.
A página de rosto, que Joseph disse vir da última folha das placas, foi registrada para direitos autorais em 11 de junho. Promete um livro “revelado pelo dom e poder de Deus”.
O que é o Livro de Mórmon?11 O que pensar disso
Fato e hipótese
Os fatos são mais firmes que qualquer explicação: um texto ditado entre abril e junho de 1829, a vários escreventes, com Mosias primeiro e as placas menores por último.
O historiador William L. Davis (Visions in a Seer Stone, 2020) propõe que Joseph passou anos preparando esboços, talvez só de memória, com cronologias, genealogias e enredos, e os desenvolveu ao ditar, com a técnica de improviso dos pregadores da época.
A técnica é real. Falta evidência de que Joseph a usou assim: nenhum esboço é conhecido, e Davis deduz a preparação sobretudo do próprio texto.
Falta também um paralelo. Davis chama o ditado de uma das mais longas performances orais registradas nos Estados Unidos e o compara a Homero, admitindo que a comparação diverge quanto à autoria e à transmissão. Sua explicação precisa de um Joseph sem paralelo conhecido.
Joseph disse ter traduzido “pelo dom e poder de Deus”. Os escreventes não viam a origem das palavras, mas viam o processo: ele ditava sem nada para ler.
Os Santos dos Últimos Dias creem no relato de Joseph. A história mostra como o livro foi ditado; de onde vieram as palavras, nenhuma testemunha podia ver.