Atos 2:38 e 22:16: batismo "para remissão dos seus pecados"

Resposta curta

Em Atos 2:38, Pedro manda a multidão se arrepender e ser batizada para remissão dos seus pecados, e o versículo quer dizer o que diz: o arrependimento e o batismo, juntos, levam ao perdão. As duas leituras alternativas mais conhecidas esbarram na gramática, como reconhecem estudiosos evangélicos e até batistas, e Atos 22:16 diz o mesmo de forma ainda mais clara. Isso não faz do batismo uma obra que conquista o perdão, que vem de Cristo e segue o arrependimento.

Atos 2:38 quer dizer o que diz. Quando a multidão no Pentecostes perguntou o que devia fazer, Pedro mandou que se arrependessem e fossem batizados “para remissão dos seus pecados”. O arrependimento e o batismo, juntos, levam ao perdão. Há duas maneiras conhecidas de ler o versículo de outro modo, e ambas esbarram na gramática, como estudiosos evangélicos e até batistas já disseram. Atos 22:16, a ordem de Ananias a Saulo, diz a mesma coisa de forma ainda mais clara.

Nada disso faz do batismo uma obra que conquista o perdão, nem da água uma substância que remove o pecado por si mesma. O perdão vem de Cristo, “em nome de Jesus Cristo”, como diz Pedro, e o batismo vem depois do arrependimento. A pergunta aqui é mais restrita: se o Novo Testamento liga o batismo ao perdão dos pecados. Nesses dois versículos, liga com toda a clareza.

O que perguntaram a Pedro

Pedro acaba de dizer à multidão que o Jesus que eles crucificaram é Senhor e Cristo. Lucas descreve a reação:

“Quando ouviram isso, ficaram muito comovidos e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: — Que faremos, irmãos? Pedro respondeu: — Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo.” (Atos 2:37-38)

A pergunta é prática: “Que faremos?” A resposta tem duas ordens e duas promessas. Arrependam-se e sejam batizados, e vocês terão os pecados perdoados e receberão o Espírito. E a multidão entendeu assim: “os que aceitaram a palavra de Pedro foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (2:41).

“Para” não quer dizer “por causa de”

A saída mais comum gira em torno de uma única preposição grega, eis, traduzida por “para”. Em 1951, o gramático batista J. R. Mantey defendeu no Journal of Biblical Literature que eis pode significar “por causa de”. Nessa leitura, as pessoas são batizadas porque seus pecados já foram perdoados, como quem toma uma aspirina “para” uma dor de cabeça que já tem.

A tentativa de Mantey de estabelecer a leitura causal pela gramática não deu certo. Ralph Marcus, especialista em grego helenístico, respondeu aos exemplos de Mantey tirados do grego não bíblico, um por um, no Journal of Biblical Literature e concluiu que eles não contribuíam “absolutamente nada” para tornar provável um eis causal. Daniel Wallace, cuja Greek Grammar Beyond the Basics é obra de referência nos seminários evangélicos, resume o debate: “Marcus demonstrou com competência que a evidência linguística a favor de um εἰς causal ficou aquém de uma prova”. Wallace não crê na regeneração batismal. Ele simplesmente se recusa a afirmar que a gramática diz algo que ela não diz.

O restante do Novo Testamento mostra por quê. A expressão de Atos 2:38, “para remissão” dos pecados, aparece em outros lugares, e em nenhum deles pode significar “por causa de”.

  • Na Última Ceia, Jesus diz: “isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mateus 26:28). O sangue de Cristo não foi derramado porque os pecados já tinham sido perdoados.
  • João Batista pregava “batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Marcos 1:4; Lucas 3:3). As pessoas iam a João para serem perdoadas, e não porque já tivessem sido.

Stanley Fowler, teólogo batista, faz exatamente esse argumento contra a leitura causal. O uso mais amplo de eis com “remissão de pecados”, escreve ele, “mostra de forma consistente que o perdão é o resultado de eis, e não a condição de eis”, de modo que “é natural, então, ler Atos 2:38 como a afirmação de que o perdão é buscado pelo batismo”.

A própria frase acrescenta mais um problema. Pedro liga as duas ordens com “e”: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado”. Se “para remissão dos seus pecados” significasse “porque vocês já foram perdoados”, a expressão valeria também para o arrependimento, e as pessoas se arrependeriam porque já estavam perdoadas. Nenhuma tradição ensina isso. A única saída é separar a expressão de “arrependam-se”, e a próxima seção trata disso. As principais traduções refletem tudo isso. Nenhuma traduz Atos 2:38 por “por causa de”. A NAA, citada aqui, diz “para remissão dos seus pecados”, e a NRSVUE, em inglês, torna o propósito explícito com “so that your sins may be forgiven”, para que os seus pecados sejam perdoados.

“Arrependam-se” está no plural; “seja batizado”, no singular

Um segundo argumento é mais técnico. Em grego, “arrependam-se” é uma ordem no plural, dirigida à multidão inteira, e “seja batizado” é uma ordem na terceira pessoa do singular: “cada um de vocês seja batizado”. O pronome de “seus pecados” também está no plural (no grego, “de vocês”). Então, segundo o argumento, o perdão se liga gramaticalmente ao plural “arrependam-se”, e o batismo é um parêntese.

Mas “cada um de vocês” é justamente o tipo de expressão que pede o verbo no singular. Pedro está mandando a multidão, toda ela, se arrepender, e depois dizendo que cada um, individualmente, deve ser batizado. O plural de “seus pecados” se refere à mesma multidão a quem ele vinha se dirigindo o tempo todo. A frase é uma só resposta a uma só pergunta, e não se divide em pedaços.

Pedro está mandando a multidão, toda ela, se arrepender, e depois dizendo que cada um, individualmente, deve ser batizado

Atos 22:16: “lave os seus pecados”

Se Atos 2:38 deixasse alguma dúvida, Atos 22:16 a eliminaria. Paulo está contando a história da própria conversão. No caminho de Damasco, Jesus lhe apareceu: “Saulo, Saulo, por que você me persegue? … — Eu sou Jesus, a quem você persegue” (Atos 9:4-5). Saulo ficou cego. “Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu” (9:9). Quando o Senhor lhe enviou Ananias, disse a respeito de Saulo: “Ele está orando” (9:11).

Assim, quando Ananias chegou, Saulo já tinha visto o Cristo ressuscitado, crido Nele e passado três dias em jejum e oração. Segundo a maioria das explicações evangélicas, ele foi salvo na estrada. Mas Saulo tinha perguntado ao Senhor “o que devo fazer?” e ouvido: “Levante-se, entre em Damasco, onde lhe dirão tudo o que você precisa fazer” (22:10). E foi isto que lhe disseram:

“E agora, o que está esperando? Levante-se, receba o batismo e lave os seus pecados, invocando o nome dele.” (Atos 22:16)

Depois de encontrar o Cristo ressuscitado e de três dias de jejum e oração, Saulo ainda recebeu a ordem de lavar os seus pecados, e Ananias ligou essa lavagem ao batismo.

A resposta de sempre é que o que lava os pecados é o “invocando o nome dele”, e não a água. Paulo de fato escreve: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:13). Mas veja como a frase de Ananias é construída. Em grego, “receba o batismo” e “lave os seus pecados” são duas ordens ligadas por “e”, e “invocando o nome dele” pertence à mesma frase. Lucas põe as três coisas juntas. Mesmo que o particípio signifique que os pecados de Saulo são lavados quando ele invoca o nome do Senhor, a lavagem continua sendo ordenada junto com o batismo, como um único ato. Invocar o nome Dele é o apelo, e Saulo o faz ao ser batizado. Pedro descreve o batismo quase nos mesmos termos, como “o apelo por uma boa consciência para com Deus” (1 Pedro 3:21).

“Todo o que nele crê recebe remissão dos pecados”

Atos também diz que, “por meio do seu nome, todo o que nele crê recebe remissão dos pecados” (Atos 10:43), e Paulo diz ao carcereiro de Filipos: “Creia no Senhor Jesus e você será salvo” (16:31). Isso não resolve a questão a favor da fé?

Veja o que acontece em seguida nas duas histórias. Pedro disse aquelas palavras à casa de Cornélio e, enquanto ele falava, o Espírito Santo caiu sobre eles. A reação de Pedro foi imediata: “Será que alguém poderia recusar a água e impedir que sejam batizados estes…? E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo” (10:47-48). O carcereiro ouviu “Creia no Senhor Jesus”. E então: “Naquela mesma hora da noite… Logo a seguir, ele e todos os membros da casa dele foram batizados” (16:33).

Atos nunca põe a fé e o batismo um contra o outro. A fé que o livro descreve é uma fé que se deixa batizar, em geral no mesmo dia e às vezes na mesma hora. Ler “Creia no Senhor Jesus e você será salvo” como se significasse “creia, e o batismo não importa” é tirar a frase da história a que ela pertence.

Atos também não estabelece uma ordem fixa. Em Cesareia, o Espírito veio antes da água, e em Samaria veio depois. Mas ninguém em Atos que recebeu o Espírito ficou sem ser batizado.

O dom do Espírito Santo

A resposta de Pedro traz uma segunda promessa: “vocês receberão o dom do Espírito Santo”. Os Santos dos Últimos Dias leem Atos 2:38 como a ordem da conversão, e uma revelação dada a Joseph Smith repete as palavras de Pedro quase exatamente, acrescentando como o dom é concedido: “Arrependei-vos e sede batizados em nome de Jesus Cristo, para a remissão de pecados, de acordo com o santo mandamento”, e “todo o que isto fizer receberá o dom do Espírito Santo, pela imposição das mãos dos élderes da igreja” (Doutrina e Convênios 49:13-14). É o padrão que Atos mostra em Samaria, onde os batizados receberam o Espírito quando os apóstolos lhes impuseram as mãos (Atos 8:14-17). A relação entre a água e o Espírito ao longo do livro de Atos é tratada em Água e Espírito: os samaritanos, Cornélio e Éfeso.

O que esses versículos ensinam

Quando a multidão perguntou o que fazer a respeito dos seus pecados, Pedro mandou que se arrependessem e fossem batizados, para remissão dos seus pecados. Saulo fez ao Senhor a mesma pergunta, e a resposta que veio por meio de Ananias foi levantar-se, receber o batismo e lavar os seus pecados. As tentativas de ler esses versículos como “porque os seus pecados já foram perdoados” contrariam a gramática, contrariam a mesma expressão em todos os outros lugares do Novo Testamento e contrariam o juízo de estudiosos que não defendem a regeneração batismal. O batismo não conquista o perdão. Em Atos, é no batismo que o perdão é recebido.

Este é um dos artigos de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?.

Fontes

Escrituras (NAA): Mateus 26:28. Marcos 1:4. Lucas 3:3. Atos 2:37-38, 41; 8:14-17; 9:4-5, 9, 11; 10:43, 47-48; 16:31, 33; 22:10, 16. Romanos 10:13. 1 Pedro 3:21.

Escrituras da Restauração: Doutrina e Convênios 49:13-14.

O debate sobre eis: J. R. Mantey, “The Causal Use of Eis in the New Testament” e “On Causal Eis Again”, Journal of Biblical Literature 70 (1951). Ralph Marcus, “On Causal Eis”, Journal of Biblical Literature 70 (1951), e “The Elusive Causal Eis”, Journal of Biblical Literature 71 (1952). Daniel B. Wallace, Greek Grammar Beyond the Basics (Zondervan, 1996), 369-71.

Uma visão batista: Stanley K. Fowler, Rethinking Baptism: Some Baptist Reflections (Wipf and Stock, 2015), 17.

Trabalhos de Santos dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, “Baptism, Salvation, and the New Testament, Part 2: Acts 2:38”, Scriptural Mormonism, que reúne o material de Wallace e Fowler.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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