Água e Espírito: os samaritanos, Cornélio e Éfeso
Resposta curta
Os relatos de Samaria, de Cornélio e de Éfeso em Atos não mostram que o batismo seja dispensável. Todos os que aparecem neles foram batizados na água, inclusive Cornélio e sua casa, que já tinham recebido o Espírito. As variações mostram que o batismo e o dom do Espírito Santo são distintos, e duas vezes Lucas mostra o Espírito sendo dado depois do batismo, pela imposição das mãos dos apóstolos. Cornélio mostra que Deus pode se afastar desse padrão, não que o padrão deixe de valer.
No Pentecostes, Pedro disse à multidão: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado… e vocês receberão o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). Daí em diante, o livro de Atos mantém o batismo e o dom do Espírito juntos, mas a ordem nem sempre é a mesma. Em Samaria, as pessoas foram batizadas e só receberam o Espírito mais tarde, quando apóstolos lhes impuseram as mãos. Em Cesareia, o Espírito caiu sobre a casa de Cornélio antes que fossem batizados. Em Éfeso, discípulos que tinham recebido o batismo de João foram batizados de novo e então receberam o Espírito pelas mãos de Paulo.
Essas três histórias costumam ser citadas para mostrar que o batismo não importa muito. Lida no seu contexto, cada uma mostra o contrário. Todos os que aparecem nelas foram batizados na água, inclusive os que já tinham recebido o Espírito. E as variações mostram duas coisas que o sermão do Pentecostes apenas deixa implícitas. O batismo e o dom do Espírito são distintos, e duas vezes Lucas mostra o Espírito sendo dado depois do batismo, pela imposição das mãos dos apóstolos.
Atos não faz disso uma regra da qual Deus não possa se afastar. Cornélio mostra que Ele pode. O que Atos mostra é o padrão que Ele normalmente seguia e como os apóstolos reagiram quando Ele se afastou dele.
O padrão no Pentecostes
A resposta de Pedro no Pentecostes tem duas ordens e duas promessas. Arrependam-se e sejam batizados, e os seus pecados serão perdoados e vocês receberão o dom do Espírito Santo. “Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar” (2:39). O dom era para todo convertido, e vinha ligado ao batismo.
O artigo sobre Atos 2:38 trata da primeira promessa, o perdão. É na segunda promessa, o dom do Espírito, que entram as variações do livro.
Samaria: batizados, mas ainda sem o Espírito
Filipe, um dos sete homens que os apóstolos tinham separado impondo-lhes as mãos (6:6), levou o evangelho a Samaria. A resposta foi enorme:
“Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, tanto homens como mulheres… Quando os apóstolos, que estavam em Jerusalém, ouviram que o povo de Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Chegando ali, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.” (Atos 8:12, 14-17)
Lucas usa para os samaritanos as mesmas palavras que usa para os convertidos em todos os outros lugares: eles creram e “iam sendo batizados”. O verbo grego para “crer” é o de sempre, pisteuō, embora a NAA o traduza aqui como “deram crédito”. Alguns intérpretes argumentam que a fé deles devia ser defeituosa, mas Lucas não dá nenhum indício disso, e os apóstolos não corrigiram a fé deles. Oraram e impuseram as mãos. O que faltava aos samaritanos, diz Lucas, era o Espírito, e o Espírito veio pelas mãos dos apóstolos.
Lucas reforça o ponto uma segunda vez por meio de Simão, o mágico. “Quando Simão viu que, pelo fato de os apóstolos imporem as mãos, era concedido o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: — Deem também a mim este poder, para que a pessoa sobre a qual eu impuser as mãos receba o Espírito Santo” (8:18-19). Pedro respondeu que “o dom de Deus” não se compra e acrescentou: “Não existe porção nem parte para você neste ministério” (8:20-21). Simão percebeu corretamente que o dom vinha pela imposição de mãos. O erro dele foi pensar que o poder de concedê-lo podia ser comprado.
O que faltava aos samaritanos, diz Lucas, era o Espírito, e o Espírito veio pelas mãos dos apóstolos
N. T. Wright argumenta que os apóstolos foram a Samaria para deixar claro que os crentes samaritanos pertenciam à mesma igreja que os crentes de Jerusalém, e não a “um movimento novo e separado”. Ele rejeita ler a passagem como uma “segunda bênção” pentecostal ou como a confirmação católica e anglicana: “Ambas estão erradas, porque ambas são completamente anacrônicas”. A observação dele sobre a unidade é pertinente. Mas ela explica por que Pedro e João foram a Samaria. Não explica por que, até eles chegarem, “o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles”.
Lucas não diz por que Filipe, que pregava, fazia milagres e batizava, não impôs ele mesmo as mãos sobre os samaritanos. Os Santos dos Últimos Dias leem a passagem à luz de uma distinção que as escrituras da Restauração tornam explícita, entre a autoridade para batizar e a autoridade para conferir o Espírito Santo. Essa leitura é retomada no fim deste artigo.
Cornélio: o Espírito antes da água
Cornélio era um centurião romano, um gentio temente a Deus. Pedro foi enviado à casa dele e, enquanto pregava, aconteceu algo que ninguém esperava:
“Enquanto Pedro falava estas palavras, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a mensagem. E os fiéis que eram da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo. Pois eles os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus. Então Pedro disse: — Será que alguém poderia recusar a água e impedir que sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo? E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.” (Atos 10:44-48)
Esta é a passagem mais citada contra o batismo como condição para a salvação. Cornélio recebeu o Espírito antes de ser batizado, diz o argumento, e quem tem o Espírito já está salvo.
Mas veja o que Pedro fez. Ele não concluiu que o batismo agora era desnecessário. Concluiu que ninguém podia recusá-lo. A vinda do Espírito foi a razão dele para batizá-los, e ele “ordenou que fossem batizados” ali mesmo.
Depois, em Jerusalém, Pedro explicou o que tinha feito, e a explicação resolve a questão: “Então me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: ‘João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo.’” (11:16). Pedro tinha acabado de ver a casa de Cornélio ser batizada com o Espírito Santo, e mesmo assim os batizou com água. Seja o que for que Jesus quis dizer ao contrastar a água de João com o Espírito, Pedro não entendeu que o Espírito substitui a água.
Por que o Espírito veio primeiro dessa vez? Lucas também responde a isso. Os “fiéis que eram da circuncisão”, que tinham vindo com Pedro, “admiraram-se” (10:45). Lucas apresenta a casa de Cornélio como os primeiros gentios trazidos para a igreja sem antes se tornarem judeus (15:7). A vinda do Espírito foi a resposta de Deus a essa questão, dada antes que alguém pudesse objetar. Pedro diz isso em Jerusalém, “se Deus deu a eles o mesmo dom que tinha dado a nós… quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” (11:17), e de novo no concílio de Atos 15, “Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também o havia concedido a nós” (15:8). A ordem incomum foi um sinal para os crentes judeus. Dizia-lhes que Deus aceitava gentios incircuncisos e que, portanto, eles podiam batizá-los.
Pedro não entendeu que o Espírito substitui a água
Lucas chama o que a casa de Cornélio recebeu de “o dom do Espírito Santo” (10:45), e Pedro o chama de “o mesmo dom que tinha dado a nós” (11:17). Joseph Smith, ao explicar essa história, fez uma distinção que o vocabulário de Lucas não faz: “Há uma diferença entre o Espírito Santo e o dom do Espírito Santo. Cornélio recebeu o Espírito Santo antes de ser batizado, foi o poder de Deus que o convenceu da veracidade do evangelho, mas ele não poderia receber o dom do Espírito Santo até depois de ter sido batizado”. Joseph usava “o dom do Espírito Santo” num sentido mais restrito que o de Lucas, próprio da Restauração, para o Espírito como companheiro constante, conferido aos batizados. Esse é um ensinamento da Restauração, não uma leitura das palavras de Lucas. Mas ele se encaixa no que aconteceu em Cesareia. O Espírito veio sobre a casa de Cornélio como testemunho de Deus, e a resposta de Pedro foi batizá-los.
Éfeso: “Então que batismo vocês receberam?”
Anos depois, Paulo encontrou um grupo de discípulos em Éfeso. A primeira pergunta que lhes fez é reveladora:
“perguntou-lhes: — Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? Ao que eles responderam: — Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo. Paulo perguntou: — Então que batismo vocês receberam? Eles responderam: — O batismo de João. Paulo explicou: — João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que viria depois dele, a saber, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus. E, quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo veio sobre eles, e tanto falavam em línguas como profetizavam.” (Atos 19:2-6)
Quando Paulo soube que esses discípulos não tinham recebido o Espírito, a primeira coisa que perguntou foi sobre o batismo deles. Ele esperava que as duas coisas andassem juntas. Se algo tinha dado errado com o Espírito, ele procurava o problema no batismo, e no que lhes tinham ensinado sobre ele, e foi lá que o encontrou. Eles tinham recebido o batismo de João e nunca tinham ouvido falar do Espírito que João disse que viria.
Então Paulo os batizou “no nome do Senhor Jesus”. Esse é o caso mais claro, no Novo Testamento, de pessoas batizadas uma segunda vez, e mostra que o batismo certo importava. Depois Paulo lhes impôs as mãos, e o Espírito veio, na mesma ordem que em Samaria. Dois episódios independentes, um com Pedro e João e outro com Paulo, mostram o batismo seguido do dom do Espírito pela imposição de mãos.
Se algo tinha dado errado com o Espírito, ele procurava o problema no batismo, e no que lhes tinham ensinado sobre ele, e foi lá que o encontrou
O batismo de João tinha sido uma exigência de Deus no seu tempo. Lucas diz que os que o recusaram “rejeitaram, quanto a si mesmos, o plano de Deus” (Lucas 7:30), como discute o artigo sobre o ladrão na cruz. Mas, depois do Pentecostes, discípulos que só conheciam o batismo de João e não tinham ouvido falar do Espírito foram batizados em nome de Jesus. Lucas também menciona Apolo, que conhecia “apenas o batismo de João” e a quem Priscila e Áquila expuseram o caminho de Deus “com mais exatidão” (18:25-26). Lucas não diz o que eles fizeram quanto ao batismo dele, e seria ler demais no seu silêncio decidir num sentido ou no outro.
O que as variações mostram
Coloque as histórias lado a lado, com a conversão de Saulo junto delas.
- Pentecostes: arrepender-se, ser batizado, receber o dom do Espírito (2:38).
- Samaria: batizados, depois o Espírito pelas mãos dos apóstolos (8:12-17).
- Saulo: Ananias impôs as mãos sobre ele para que ficasse “cheio do Espírito Santo”, e então ele “foi batizado” (9:17-18).
- Cornélio: o Espírito caiu primeiro, e Pedro ordenou que fossem batizados imediatamente (10:44-48).
- Éfeso: rebatizados em nome de Jesus, depois o Espírito pelas mãos de Paulo (19:5-6).
A ordem varia. Algumas coisas, não. Todos foram batizados na água, inclusive a casa de Cornélio, que já tinha recebido o Espírito, e Saulo, que já tinha visto o Cristo ressurreto. Duas vezes, o Espírito veio pela imposição de mãos depois do batismo, e numa terceira, com Saulo, as mãos foram impostas antes dele. Hebreus inclui “o ensino de batismos e da imposição de mãos” entre “os princípios elementares da doutrina de Cristo”, logo depois do arrependimento e da fé (Hebreus 6:1-2). Hebreus não diz para que serviam as mãos, mas as conta, junto com o batismo, entre os fundamentos.
O caso de Saulo também mostra algo que vale a pena dizer com todas as letras. A imposição de mãos antes do batismo não é a ordem que os Santos dos Últimos Dias seguem, e Atos não estabelece essa ordem como fórmula. A sequência que os Santos dos Últimos Dias seguem, o batismo e depois a imposição de mãos, vem da revelação da Restauração. Atos 8 e 19 são os seus precedentes.
O que os Santos dos Últimos Dias leem nessas histórias
A quarta Regra de Fé lista os primeiros princípios e ordenanças na ordem em que Atos os apresenta: fé, arrependimento, “Batismo por imersão para a remissão de pecados” e “Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo”. A revelação fundadora da Igreja incumbe os élderes de “confirmar os que são batizados na igreja, pela imposição de mãos para o batismo de fogo e do Espírito Santo, de acordo com as escrituras” (Doutrina e Convênios 20:41). Uma revelação posterior repete quase palavra por palavra a promessa de Pedro no Pentecostes e acrescenta que “todo o que isto fizer receberá o dom do Espírito Santo, pela imposição das mãos dos élderes da igreja” (Doutrina e Convênios 49:14).
O Livro de Mórmon descreve o mesmo padrão entre os nefitas. O Cristo ressurreto impôs as mãos sobre os Seus doze discípulos e lhes disse: “tereis poder para conferir o Espírito Santo àqueles sobre quem impuserdes as mãos… pois assim fazem os meus apóstolos” (Morôni 2:2).
As escrituras da Restauração também oferecem uma resposta para a pergunta que Lucas deixa em aberto em Samaria. Quando João Batista restaurou o Sacerdócio Aarônico a Joseph Smith e Oliver Cowdery, em 1829, disse-lhes que “esse Sacerdócio Aarônico não tinha o poder de imposição de mãos para o dom do Espírito Santo, mas que isso nos seria conferido mais tarde” (Joseph Smith—História 1:70). A autoridade para batizar e a autoridade para conferir o Espírito Santo são distintas. É assim que os Santos dos Últimos Dias leem o ministério de Filipe em Samaria. Ele podia pregar e batizar, e o dom do Espírito Santo esperou pelos apóstolos. Lucas não afirma essa explicação, e ela deve ser apresentada como uma leitura da passagem feita pelos Santos dos Últimos Dias. Mas ela se ajusta ao relato de Lucas melhor do que as alternativas, que precisam esvaziar o sentido de 8:16.
O que essas histórias ensinam
Atos não dá uma fórmula que Deus não possa variar, e as histórias que variam a ordem são justamente as que se citam contra o batismo. Mas, em todas elas, os que creram foram batizados na água, e os que já tinham recebido o Espírito foram batizados mesmo assim. Paulo olhou primeiro para o batismo quando o Espírito faltava. Pedro olhou para pessoas cheias do Espírito e perguntou quem poderia recusar a água. Em Samaria e em Éfeso, o Espírito veio pelas mãos de apóstolos impostas sobre os batizados. Em Cesareia, Deus inverteu a ordem para mostrar que aceitava os gentios, e Pedro respondeu batizando-os.
Este artigo faz parte de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o novo nascimento “da água e do Espírito” é tratado em João 3:5: nascer da água e do Espírito.
Fontes
Escrituras (NAA): Lucas 7:30. Atos 2:38-39; 6:6; 8:12-21; 9:17-18; 10:44-48; 11:16-17; 15:7-8; 18:25-26; 19:2-6. Hebreus 6:1-2.
Escrituras da Restauração: Morôni 2:2. Doutrina e Convênios 20:41; 49:14. Joseph Smith—História 1:70. Regras de Fé 1:4.
Joseph Smith: sermão de 20 de março de 1842, em Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith (A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2007), cap. 7.
Comentarista: N. T. Wright, The Challenge of Acts (Zondervan Academic, 2024), sobre Atos 8:14-17.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.