Tito 3:5: o lavar regenerador

Resposta curta

Tito 3:5 ensina que Deus salva mediante o batismo. O versículo diz que Ele nos salvou não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a Sua misericórdia, mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, e esse lavar é o batismo. As obras são excluídas como razão da salvação, e o lavar é nomeado como o meio pelo qual Deus salva, na mesma frase. Por isso o versículo não sustenta a objeção de que a graça exclui o batismo; ele recusa justamente essa separação.

Tito 3:5 costuma ser citado contra os Santos dos Últimos Dias: “ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia”. A objeção de costume para aí. Mas o texto continua dizendo como Deus nos salvou: “mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. (A NRSVUE traduz por “água” a palavra grega para “lavar”.) No grego, as duas metades dependem de um único verbo; a NAA divide a frase em duas e repete “ele nos salvou”. Esse lavar é o batismo. Então o versículo faz mais do que mencionar o batismo em algum lugar perto da salvação. Ele coloca o lavar dentro do meio pelo qual Deus salvou, na mesma frase que nega que as nossas obras de justiça sejam a fonte da salvação.

Isso faz de Tito 3:5 um dos textos mais fortes contra a ideia de que a graça não deixa espaço para o batismo. A objeção lê o versículo ao contrário.

O texto

Paulo lembra a Tito o que os leitores eram antes e o que Deus fez por eles:

“Pois nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes, desgarrados, escravos de todo tipo de paixões e prazeres, vivendo em maldade e inveja, sendo odiados e odiando-nos uns aos outros. Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.” (Tito 3:3-7)

Muitos estudiosos duvidam que Paulo tenha escrito Tito. Mas quem cita a primeira metade do versículo 5 contra os Santos dos Últimos Dias a está tratando como escritura, e a segunda metade tem a mesma autoridade. A seguir, o autor é chamado de Paulo, como a própria carta o chama.

Não por obras, segundo a misericórdia, mediante o lavar

Um único verbo sustenta a frase inteira, “ele nos salvou”, e dele dependem três expressões. Cada uma tem a sua palavrinha grega, e cada uma responde a uma pergunta diferente.

  • ouk ex ergōn, “não por obras”. As nossas obras de justiça não são a fonte.
  • kata to autou eleos, “segundo a sua misericórdia”. A misericórdia de Deus é a medida e a razão.
  • dia loutrou, “mediante o lavar”. O lavar é o meio.

A primeira expressão merece ser concedida por inteiro. É mais forte que Efésios 2:9, que diz “não de obras”. Aqui as obras são justas, e são nossas, e Paulo não as restringe às obras da lei de Moisés. Deus salvou os que eram “insensatos, desobedientes, desgarrados”, e nada do que eles tinham feito foi o motivo.

A terceira expressão é a que a objeção deixa de fora. Dia com genitivo nomeia o canal pelo qual algo chega, e o versículo seguinte usa a preposição do mesmo jeito. O Espírito foi derramado “por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (3:6), dia Iēsou Christou. Comentaristas mais antigos disseram isso com todas as letras. J. H. Bernard, escrevendo sobre o texto grego para o Cambridge Greek Testament em 1899, chama o lavar de “o instrumento (διά) da salvação”. O volume sobre as Epístolas Pastorais do comentário crítico de Meyer vai além. Se o batismo fosse só um compromisso ou uma imagem visível do novo nascimento, “nem num sentido nem no outro ele poderia ser considerado um meio de salvar”. Paulo o chama assim por ser “o banho por meio do qual Deus realmente produz o novo nascimento”.

Paulo responde, então, por que Deus salvou e mediante o que Ele salvou, e dá a essas duas perguntas duas respostas diferentes. As obras são excluídas como razão, e o lavar é nomeado como meio.

As obras são excluídas como razão, e o lavar é nomeado como meio

O lavar é o batismo

Alguns leitores entendem “o lavar regenerador” como uma figura da obra interior do Espírito, sem nenhum rito em vista. As evidências apontam com força para o outro lado, e é a leitura puramente interior que precisa carregar o ônus da prova.

A palavra grega é loutron, um banho ou a água usada nele. Ela aparece apenas uma outra vez no Novo Testamento, onde Cristo purifica a igreja “por meio da lavagem de água pela palavra” (Efésios 5:26). Ali a lavagem é expressamente “de água”. (A NAA traduz loutron por “lavagem” em Efésios e por “lavar” em Tito.) Lynn Cohick, no seu grande comentário evangélico sobre Efésios, conclui que os argumentos sobre esse versículo “fazem a balança pender a favor de ver Paulo aludindo ao batismo”, e uma de suas razões leva direto de volta a esta passagem: “Tito 3:5 é a única outra ocorrência do substantivo ‘lavagem’, ali muito provavelmente referindo-se ao batismo.” O comentário de Meyer tira a mesma conclusão a partir de Efésios: “De Efésios 5:26 fica claro que não pode significar outra coisa senão o batismo.” Bernard diz que isso é “indubitável”.

Obras de referência modernas concordam. A SBL Study Bible, preparada sob os auspícios da Society of Biblical Literature, explica a expressão assim: “Água (literalmente lavagem…) de renascimento, batismo”, com remissão a João 3:3-5, onde Jesus fala de nascer “da água e do Espírito”. Everett Ferguson, estudioso das Igrejas de Cristo cuja história do batismo antigo chega a quase mil páginas, acrescenta que um uso figurado da palavra para a obra do Espírito Santo “seria algo sem precedentes”.

As outras cartas de Paulo falam da mesma forma: “Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11). Lavagem, Espírito e justificação aparecem juntos ali, como em Tito. Ananias diz a Saulo: “Levante-se, receba o batismo e lave os seus pecados” (Atos 22:16). R. Alan Streett, estudioso batista, escreve que “é difícil imaginar que Tito e os cretenses tenham pensado que água/lavar (loutron) se referisse a qualquer outra coisa que não o batismo”. Em poucas décadas, os escritores cristãos já usavam a mesma palavra para o batismo. Justino Mártir, por volta do ano 150, chama o batismo de “a lavagem com água”.

A graça não exclui o batismo

Junte as duas conclusões. Deus nos salvou mediante o lavar, e o lavar é o batismo. Paulo escreveu isso numa frase construída para excluir a salvação pelas nossas obras, e não viu conflito nenhum.

Um evangélico pode responder que o batismo continua sendo algo que a pessoa faz. Ela entra na água, então é um ato humano, um ato de obediência. Conceda-se isso, para efeito de argumento. O próprio Paulo separa as obras que exclui do lavar que nomeia. As obras de justiça ficam de um lado de “mas segundo a sua misericórdia”, e o lavar fica do outro, como o meio que Deus usou. Enfiar o lavar de volta nas “obras de justiça praticadas por nós” faria Paulo se contradizer dentro de uma única frase. Não dá para simplesmente supor que a categoria das obras excluídas inclua o lavar salvador nomeado logo em seguida.

O anglicano evangélico E. M. B. Green percebeu isso. “Apesar de certa ambiguidade na expressão grega, está claro que Paulo tem duas coisas em mente: o rito do batismo e o dom do Espírito ao crente.” E acrescentou: “O Novo Testamento não via tensão entre a salvação pela fé e a salvação pelo batismo.”

O Novo Testamento não via tensão entre a salvação pela fé e a salvação pelo batismo

A água e o Espírito derramado

A frase não para no lavar. O lavar é também “renovador do Espírito Santo”, e em seguida vem: “que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”. A SBL Study Bible liga essa expressão ao Pentecostes, quando Pedro citou Joel: “derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade” (Atos 2:17). Naquele dia, Pedro disse à multidão: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado… e vocês receberão o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). Tito junta as mesmas duas coisas na conversão. Deus os salvou mediante o lavar regenerador, e derramou sobre eles o Espírito.

A “certa ambiguidade” que Green menciona é real. Bernard expõe as duas maneiras de ler o grego. Um único “mediante” pode reger o lavar e a renovação como duas coisas, ou a renovação pode descrever o próprio lavar, “um lavar que era um lavar de regeneração e de renovação do Espírito Santo”. A NAA traduz no segundo sentido, “o lavar regenerador e renovador”. Seja como for, o lavar é o meio, e a renovação do Espírito está unida a ele. É assim também que os Santos dos Últimos Dias entendem o novo nascimento. Água e Espírito são duas partes de um só nascimento, como argumenta o artigo sobre João 3:5.

As respostas de sempre

“O lavar é uma figura, como em Ezequiel.” Em Ezequiel, Deus promete: “aspergirei água pura sobre vocês”, e depois: “porei dentro de vocês um espírito novo” (Ezequiel 36:25-26). Esse é um pano de fundo real para a linguagem de lavar e renovar no Novo Testamento. Mas Ezequiel nomeia água e espírito como dois dons, e Tito nomeia um lavar e a renovação do Espírito lado a lado. Nenhum dos dois textos dissolve a água no Espírito.

“Deus é o sujeito de todos os verbos de salvação, então o batismo só pode ser um sinal.” Deus faz toda a salvação nesta passagem. Ele salvou, Ele derramou, Ele justificou. Os Santos dos Últimos Dias concordam. A questão é mediante o que Deus salva, e Paulo responde a ela. Um sinal que apenas retratasse o novo nascimento não poderia ser aquilo “mediante” o qual Deus nos salvou, e é justamente esse o argumento do comentário de Meyer.

“Paulo consegue expor o evangelho sem mencionar o batismo.” Consegue. Em 2 Timóteo, Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça” (2 Timóteo 1:9). Não há lavar nessa frase. Também não há fé, e ninguém conclui que a fé seja desnecessária. Paulo não enumera todos os meios toda vez que menciona a graça. Quando ele nomeia o meio, como faz em Tito, a lista inclui um lavar.

O que o versículo, sozinho, não resolve

Tito 3:5, sozinho, não diz que ninguém pode ser salvo sem o batismo, nem estabelece uma ordem entre o lavar e o dom do Espírito. Essas questões são respondidas em outros textos. A necessidade do novo nascimento vem de passagens como João 3:5, e a ordem de primeiro o batismo e depois o dom do Espírito vem de Atos 2:38 e das escrituras da Restauração. O que Tito resolve é a questão para a qual ele costuma ser citado. A graça exclui as nossas obras como razão pela qual Deus nos salva, e não exclui o lavar mediante o qual Ele nos salva.

Depois do lavar

Tito 3:7 diz o propósito: “a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”. A justificação é tratada como fato consumado, e a herança ainda é esperança. Então Paulo diz a Tito que insista nessas coisas “para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras” (3:8). A mesma carta diz que Cristo Se deu para “purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras” (2:14). A graça exclui as nossas obras como razão pela qual Deus nos salva, e produz boas obras nas pessoas que Ele salva.

Onde os Santos dos Últimos Dias se situam

A doutrina dos Santos dos Últimos Dias não faz das obras humanas o fundamento meritório da salvação. A Expiação de Cristo é a razão pela qual a salvação é possível, e a misericórdia de Deus é a sua fonte. O batismo não compra essa misericórdia. Deus o instituiu como a ordenança pela qual a pessoa entra no Seu convênio e recebe as bênçãos que Cristo comprou. As Regras de Fé dizem isso em duas frases: “Cremos que, por meio da Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho.” E “os primeiros princípios e ordenanças do Evangelho são: primeiro, Fé no Senhor Jesus Cristo; segundo, Arrependimento; terceiro, Batismo por imersão para a remissão de pecados; quarto, Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo” (Regras de Fé 1:3-4). A Igreja chama o batismo de “a primeira ordenança de salvação e exaltação no evangelho de Jesus Cristo”.

Coloque isso ao lado de Tito. A misericórdia de Deus é a razão. O lavar regenerador é o meio. O Espírito é derramado. As boas obras vêm em seguida, e os justificados vivem na “esperança da vida eterna”. A gramática do versículo e o padrão dos Santos dos Últimos Dias correspondem ponto por ponto.

A gramática do versículo e o padrão dos Santos dos Últimos Dias correspondem ponto por ponto

O Livro de Mórmon liga o renascimento e o lavar ao batismo da mesma forma: “vos deveis arrepender e nascer de novo… vinde, pois, e sede batizados para o arrependimento, a fim de serdes lavados de vossos pecados” (Alma 7:14). Néfi chama o arrependimento e o batismo de “a porta” e acrescenta que “vem, então, a remissão de vossos pecados pelo fogo e pelo Espírito Santo” (2 Néfi 31:17), o mesmo padrão de água e Espírito. E Morôni descreve a igreja recebendo convertidos em termos que Tito reconheceria: “depois de haverem sido recebidos pelo batismo, de haverem sido moldados e purificados pelo poder do Espírito Santo”, eles seguiam “confiando somente nos méritos de Cristo” (Morôni 6:4). O batismo, a purificação pelo Espírito e a confiança somente nos méritos de Cristo cabem ali numa só frase, assim como a misericórdia, o lavar e o Espírito cabem numa só frase em Tito.

O que o versículo ensina

Tito 3:5 exclui a salvação com base nas nossas obras de justiça e, na mesma frase, nomeia o lavar regenerador como o meio pelo qual Deus nos salvou. Seja qual for a conclusão do leitor sobre o batismo, “a graça significa que o batismo não pode salvar” é a única conclusão que este versículo não sustenta. É exatamente a separação que Paulo se recusa a fazer.

Este é um de uma série de artigos sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o argumento a partir de Atos está em Atos 2:38 e 22:16: batismo “para remissão dos seus pecados”.

Fontes

Escrituras (NAA): Ezequiel 36:25-26. João 3:3-5. Atos 2:17, 38; 22:16. 1 Coríntios 6:11. Efésios 2:9; 5:26. 2 Timóteo 1:9. Tito 2:14; 3:3-8.

Escrituras da Restauração: 2 Néfi 31:17. Alma 7:14. Morôni 6:4. Regras de Fé 1:3-4.

Ensinamento da Igreja: “Batismo”, Tópicos do Evangelho, churchofjesuschrist.org.

Fonte cristã antiga: Justino Mártir, Primeira Apologia 61, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 1.

Comentaristas e obras de referência: J. H. Bernard, The Pastoral Epistles, Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge University Press, 1899), sobre Tito 3:5, Internet Archive. J. E. Huther, Critical and Exegetical Handbook to the Epistles to Timothy and Titus, no Critical and Exegetical Commentary on the New Testament de H. A. W. Meyer (T&T Clark, 1881), sobre Tito 3:5, Bible Hub. The SBL Study Bible (HarperOne, 2023), nota sobre Tito 3:5-6. Lynn H. Cohick, The Letter to the Ephesians, New International Commentary on the New Testament (Eerdmans, 2020), sobre 5:26. Everett Ferguson, Baptism in the Early Church: History, Theology, and Liturgy in the First Five Centuries (Eerdmans, 2009), 163. R. Alan Streett, Caesar and the Sacrament: Baptism, a Rite of Resistance (Cascade, 2018), 143-45. E. M. B. Green, The Meaning of Salvation (Hodder and Stoughton, 1965), 170.

Obra de um Santo dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, Scriptural Mormonism, cujos textos sobre Tito 3:5 reúnem o material de Ferguson, Streett e Green.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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