Os textos em que a sola fide se apoia, e o que eles realmente dizem

Resposta curta

Nenhum dos textos em que a sola fide se apoia estabelece a doutrina por si só. Cada um só produz a tese da justificação somente pela fé depois de uma decisão interpretativa que a própria passagem não toma: que "obras" significa qualquer ato humano, e não as obras da lei de Moisés; que uma condição para receber é um preço de compra; ou que Tiago quer dizer "mostrado justo" quando escreve "justificado". Os Santos dos Últimos Dias concordam que ninguém conquista a salvação.

Nenhum deles a estabelece. A sola fide, a tese de que a pessoa é justificada somente pela fé, com as obras inteiramente excluídas da justificação, se apoia num conjunto pequeno e bem conhecido de textos. Cada um deles só produz a doutrina depois de uma decisão interpretativa que a própria passagem nunca toma: que “obras” significa qualquer ato humano, e não as obras da lei mosaica; que uma condição para receber é a mesma coisa que um preço de compra; ou que Tiago quer dizer “mostrado justo” quando escreve “justificado”.

Nada disso é afirmar que alguém conquista a salvação. Os Santos dos Últimos Dias concordam que ninguém a conquista. A leitura que a Reforma faz de Paulo é uma construção séria, mas é uma construção, e não deveria ser apresentada como o sentido óbvio do texto.

Eis o argumento protestante na sua forma mais forte. Paulo contrapõe salário e favor e diz que é a quem não trabalha que a fé é atribuída como justiça (Romanos 4:4-5). Diz que a salvação é pela graça, mediante a fé, “não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Diz aos gálatas que aceitar a circuncisão significa que “Cristo não terá valor nenhum para vocês” (Gálatas 5:2). São textos sérios, e vale a pena ler as passagens uma de cada vez, na ordem em que um defensor da doutrina as apresentaria.

Efésios 2:8-10

A citação que todo mundo faz termina um versículo cedo demais.

Paulo escreve que “pela graça vocês são salvos, mediante a fé”, que “isto não vem de vocês”, mas “é dom de Deus”, e que a salvação vem “não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Cada palavra disso é verdadeira, e nada disso está em discussão aqui. Então vem a frase seguinte:

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2:10)

O versículo 10 não desfaz o versículo 9, e os Santos dos Últimos Dias não deveriam fingir que desfaz. Mas ele mostra que Paulo não tinha receio nenhum de pôr as boas obras ao lado da graça, na mesma frase, e que as apresenta como o propósito da salvação que acabou de descrever.

A verdadeira pergunta é o que Paulo quer dizer com “obras”. A leitura protestante supõe que ele se refere a qualquer ato humano, seja ele qual for. O parágrafo seguinte da carta mostra o que ele tem em mente:

“Portanto, lembrem-se de que no passado vocês eram gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisão… Porque ele é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade…” (Efésios 2:11, 14-15)

A circuncisão, “a lei dos mandamentos na forma de ordenanças” e a parede entre judeus e gentios. Esse é o assunto ao qual Paulo passa no instante em que termina de dizer “não de obras”. As obras que não podem salvar são as marcas de pertença a Israel sob a lei, e o argumento é que os gentios não precisam delas para serem aproximados.

Colossenses, carta amplamente considerada gêmea de Efésios, mostra o que Paulo pensava que de fato levava uma pessoa a estar em Cristo:

“Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas pela remoção do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. E quando vocês estavam mortos nos seus pecados e na incircuncisão da carne, ele lhes deu vida juntamente com Cristo, perdoando todos os nossos pecados.” (Colossenses 2:11-13)

Ponha isso ao lado de Efésios 2:1-5, onde Paulo diz que os seus leitores estavam “mortos em suas transgressões e pecados” e que Deus “nos deu vida juntamente com Cristo”. A linguagem e o movimento da morte para a vida são os mesmos. Colossenses diz onde isso aconteceu: sepultados com Ele no batismo, ressuscitados por meio da fé. Não o batismo em vez da fé, nem a fé em vez do batismo. Os dois, numa só frase, descrevendo um só acontecimento.

Um argumento segundo o qual “não de obras” exclui o batismo precisa explicar por que o mesmo autor descreve o batismo como o sepultamento por meio do qual os seus leitores foram ressuscitados.

Romanos 4:4-5

“Ora, para quem trabalha, o salário não é considerado como favor, mas como dívida. Mas, para quem não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.” (Romanos 4:4-5)

Este é o texto isolado mais forte a favor da posição protestante, e a sua força deve ser reconhecida. Paulo contrasta dois regimes. Num deles, você ganha e tem o que cobrar. No outro, você recebe.

Os Santos dos Últimos Dias concordam inteiramente com esse contraste. Deus não deve a salvação a ninguém, ninguém a ganha, e qualquer teologia em que a obediência funcione como salário é excluída por essa passagem.

Mas Paulo diz de que obras está falando. O capítulo é a prova de uma afirmação que ele fez algumas linhas antes:

“Concluímos, pois, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. Ou seria Deus apenas Deus dos judeus? Será que não é também Deus dos gentios?” (Romanos 3:28-29)

As obras são as “obras da lei”, e a pergunta que vem logo em seguida é sobre judeus e gentios. Então Paulo defende a sua tese a partir de Abraão, e o teste que ele aplica é a circuncisão:

“Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou sendo ainda incircunciso? Não foi no regime da circuncisão, mas quando ele ainda não havia sido circuncidado.” (Romanos 4:10)

Abraão foi considerado justo antes de trazer a marca do convênio, e por isso os gentios que compartilham a sua fé também não precisam dela. Esse é o argumento de Romanos 4.

As próprias palavras de Paulo também respondem à pergunta sobre se toda condição é um salário. A fé é atribuída como justiça “para quem… crê”. Crer é uma condição para receber, e Paulo não a chama de obra. Uma condição para receber não é um preço de compra, e o texto que diz isso com mais clareza é justamente aquele sobre o qual a sola fide foi construída.

A mesma carta também diz que a obediência faz parte do acerto de contas final. Paulo fala de Deus:

”… que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Romanos 2:6-7)

E, de forma ainda mais direta: “justos diante de Deus não são aqueles que somente ouvem a lei, mas os que praticam a lei é que serão justificados” (Romanos 2:13). Paulo escreveu essa frase, em Romanos, usando o mesmo verbo que usa no capítulo 4.

A resposta habitual é que Romanos 2:13 é hipotético. Ninguém de fato pratica a lei, e portanto ninguém é justificado dessa maneira. Mas Paulo passa imediatamente a descrever pessoas que a praticam. Os gentios, “que não têm a lei, fazem, por natureza, o que a lei ordena” (2:14), e a “circuncisão é a do coração, pelo Espírito, não segundo a letra” (2:29). Não são pessoas hipotéticas. Qualquer leitura de Romanos 4 que faça de Romanos 2:13 uma frase que Paulo não poderia ter escrito tem um problema dentro da própria carta.

Gálatas 5:2-4

Esta é a passagem por trás dos veredictos mais duros, porque parece dizer que acrescentar qualquer condição à fé faz a pessoa perder Cristo por completo:

“Eu, Paulo, lhes digo que, se vocês se deixarem circuncidar, Cristo não terá valor nenhum para vocês… Vocês que procuram justificar-se pela lei estão separados de Cristo; vocês caíram da graça de Deus.” (Gálatas 5:2, 4)

Tomada como princípio geral, o de que qualquer ato exigido anula a graça, essa passagem é devastadora, e é exatamente assim que ela é usada contra o batismo.

Ela não pode ser um princípio geral, por três razões, todas do próprio Paulo.

Dois versículos depois, ele diz o que tem valor: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gálatas 5:6). A fé que atua, na mesma carta em que aparece o argumento do tudo ou nada.

Em outra carta, ele diz que o que vale é obedecer: “A circuncisão, em si, não é nada; a incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar os mandamentos de Deus” (1 Coríntios 7:19). O mesmo apóstolo, sobre o mesmo rito, diz o que a leitura estrita torna impossível.

E ele mesmo fez isso. Pouco depois de o concílio de Jerusalém decidir que os gentios não precisavam ser circuncidados, Paulo levou Timóteo consigo e “circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares” (Atos 16:3). Se aceitar a circuncisão, por si só, separasse uma pessoa de Cristo, Paulo teria separado Timóteo de Cristo de propósito.

Com essas três razões na mesa, a leitura coerente fica clara. Paulo não está atacando a obediência nem os ritos. Está atacando uma afirmação específica: a de que os gentios precisam assumir a lei mosaica como marca de pertença ao convênio para fazer parte dele. Confiar na lei como fundamento da sua posição diante de Deus é o que faz a pessoa perder Cristo. Essa é uma proposição diferente de “o batismo é o meio pelo qual se entra no convênio”, e só a primeira está em vista.

Confiar na lei como fundamento da sua posição diante de Deus é o que faz a pessoa perder Cristo

Tiago 2 e a leitura da “vindicação”

Eis o texto com que todo defensor da fé somente precisa lidar:

“Assim, vocês percebem que uma pessoa é justificada pelas obras e não somente pela fé.” (Tiago 2:24)

A expressão “somente pela fé” (no grego, ek pisteōs monon) aparece uma única vez na Bíblia, e vem precedida da palavra “não”.

A resposta protestante padrão é que Tiago usa “justificado” num sentido diferente do de Paulo. Ele não quer dizer declarado justo diante de Deus, segundo essa resposta, mas vindicado, isto é, mostrado justo diante de outras pessoas. As obras são a evidência que os outros podem ver.

A palavra pode ter esse sentido. Em Lucas 7:35, “a sabedoria é justificada por todos os seus filhos”, e ali o mesmo verbo grego tem exatamente esse sentido: a NVI o traduz como “comprovada”. Então a pergunta é em que sentido Tiago o usa, e o seu próprio parágrafo responde de quatro maneiras.

A pergunta é se a fé pode salvar. Tiago abre a passagem perguntando: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Será que essa fé pode salvá-lo?” (2:14). Tudo o que vem depois responde a essa pergunta, até a frase final: “a fé sem obras é morta” (2:26). O assunto é a salvação, não a reputação.

Tiago tem o vocabulário do mostrar, e deixa de usá-lo. No versículo 18, ele escreve: “Mostre-me essa sua fé sem as obras, e eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé.” Essa é a linguagem da demonstração, e é exatamente dela que a leitura da vindicação precisa. Então Tiago passa a Abraão e a Raabe e usa outra palavra, “justificado”. Se quisesse dizer “mostrado”, tinha acabado de usar a palavra para isso.

O assunto é a salvação, não a reputação

Ele liga as obras de Abraão a Gênesis 15:6. Foi “pelas obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar”, e foi “pelas obras que a fé se consumou”. E assim, diz Tiago, “se cumpriu a Escritura”: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça” (2:21-23). Esse é o versículo que Paulo usa para a justificação diante de Deus (Romanos 4:3). Tiago diz que a oferta de Isaque cumpriu esse versículo, e não que o ilustrou. Diz que a fé “se consumou”, ou seja, chegou ao fim a que se destinava, e não que foi apenas posta à vista.

A obra de Raabe foi feita em segredo. “De igual modo, será que não foi também pelas obras que a prostituta Raabe foi justificada, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?” (2:25). De igual modo, isto é, da mesma forma que Abraão. Nada do que Raabe fez foi uma demonstração para espectadores. Ela escondeu os espias no terraço, mandou os homens do rei na direção errada e fez os espias descerem por uma corda pela janela (Josué 2:4-6, 15-16). As únicas testemunhas foram os dois homens que ela escondia. Se ela foi justificada por essa obra, não foi por ter sido vista.

O problema dos “versículos da lei”

Alguns defensores da sola fide lidam com os textos mais difíceis colocando-os numa categoria de “versículos da lei”. São passagens que fazem o perdão de Deus depender do nosso, ou que prometem juízo segundo as obras, e, nessa leitura, a função delas é mostrar que ninguém consegue atingir o padrão, o que empurra o leitor para Cristo.

A categoria tem uma base real. Paulo diz, de fato, que “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Romanos 3:20). O problema é o que se coloca dentro dela. Veja Mateus 6:14-15:

“Porque, se perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês, que está no céu, perdoará vocês; se, porém, não perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês.”

Na leitura dos versículos da lei, Jesus não está estabelecendo uma condição. Está fixando um padrão que ninguém consegue alcançar, para que os Seus ouvintes se desesperem e confiem Nele. Mas quem fala aqui é Jesus, explicando a oração que acabou de ensinar aos discípulos, logo depois de “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” (6:12). Nada na passagem indica que se trata de um artifício.

O mesmo movimento é aplicado a Romanos 2:6-7, que não soa nem um pouco como ameaça: “a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade”. Isso é uma promessa de vida eterna a um tipo definido de pessoa. Chamar isso de versículo da lei significa que Paulo ofereceu a vida eterna sob uma condição que ele sabia que ninguém poderia cumprir, só para causar efeito.

Quando a distinção é usada para descartar versículos em vez de interpretá-los, ela deixa de ser leitura do texto. Passa a ser um filtro.

Como os Santos dos Últimos Dias leem essas passagens

Paulo e Tiago não se contradizem, e nenhum Santo dos Últimos Dias precisa que se contradigam.

Paulo está combatendo a afirmação de que os gentios precisam assumir a lei mosaica para pertencer ao povo do convênio. A resposta dele é que a entrada vem por meio de Cristo, recebida pela fé, e nunca pelos marcadores de fronteira da lei. Ninguém conquista um lugar, e Deus não deve um lugar a ninguém.

Tiago está combatendo outro erro: a ideia de que uma profissão de fé sem nada por trás basta. A resposta dele é que essa fé está morta, e que a fé alcança na ação a consumação a que se destina.

As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, porque respondem a perguntas diferentes. A entrada no convênio é pela graça, mediante a fé. A vida dentro do convênio envolve condições reais, obediência real e um julgamento final real. Nada disso transforma a graça em salário, porque uma condição para receber não é um preço de compra.

Essa é a leitura que os Santos dos Últimos Dias fazem desses textos. Ela não exige que nenhum versículo seja reclassificado, que nenhuma palavra mude de sentido no meio de um parágrafo, nem que algum apóstolo seja convencido a desdizer o que escreveu.

Fontes

Escrituras (NAA): Efésios 2:1-16. Colossenses 2:11-13. Romanos 2:6-7, 13-14, 29; 3:20, 28-29; 4:3-5, 10. Gálatas 5:2-6. 1 Coríntios 7:19. Atos 16:3. Tiago 2:14-26. Josué 2:4-6, 15-16. Lucas 7:35. Mateus 6:12-15.

Robert S. Boylan. Boa parte do argumento contra a leitura da vindicação em Tiago 2, e contra a leitura das “obras” de Paulo como qualquer ato humano, foi reunida por Robert Boylan no seu blog Scriptural Mormonism, que tem o trabalho mais extenso de um Santo dos Últimos Dias sobre a soteriologia protestante em inglês. Quem quiser o argumento completo, com as fontes primárias, deve ir até lá.

O argumento protestante na sua forma mais cuidadosa: Thomas R. Schreiner sobre Romanos e Gálatas, e Douglas J. Moo, The Letter of James (Pillar New Testament Commentary).

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As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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