A Bíblia é a única fonte suprema de autoridade?
Resposta curta
A Bíblia é inspirada, e os Santos dos Últimos Dias aceitam sua autoridade sem reservas, mas ela nunca afirma ser a única regra infalível de fé. Toda a Bíblia foi escrita durante um período de revelação contínua, como até defensores da sola scriptura admitem, e por isso a doutrina depende da tese de que a revelação se encerrou com os apóstolos. Essa premissa a Bíblia não fornece, e pelo próprio critério da Confissão de Westminster ela também não pode ser deduzida da Escritura.
Não. A Bíblia é inspirada, e os Santos dos Últimos Dias aceitam sua autoridade sem reservas. Mas a Bíblia nunca afirma ser a única regra infalível de fé, e a doutrina segundo a qual ela é, a sola scriptura, se apoia em premissas que a própria Bíblia não fornece.
Não se trata de dizer que a Escritura não é confiável, nem que toda tradição ou suposta revelação merece crédito. A pergunta é mais restrita. A Escritura sozinha é a autoridade final e a única infalível, e a Escritura diz isso?
O que a doutrina realmente afirma
A sola scriptura não significa “eu e minha Bíblia trancados num quarto”. Keith Mathison, um de seus melhores defensores modernos, dedica um livro inteiro a separar a sola scriptura daquilo que ele chama de solo scriptura, a versão individualista em que cada crente é seu próprio intérprete final. A doutrina verdadeira reconhece que os credos são úteis, que a igreja ensina com autoridade genuína e que ninguém lê a Escritura no vácuo.
O que ela afirma é mais restrito. A Escritura é a única regra infalível, o tribunal de última instância. As outras autoridades são reais, mas derivadas e corrigíveis, e quando entram em conflito com a Escritura, a Escritura prevalece. A Confissão de Westminster a formula por inteiro:
“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens…” (Confissão de Westminster 1.6)
O texto-prova habitual é 2 Timóteo 3:16-17, onde toda a Escritura “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.”
Essa é a doutrina em sua forma mais forte, e é a ela que vale a pena responder.
A Bíblia foi escrita enquanto a revelação ainda acontecia
Todos os livros da Bíblia foram escritos durante um período de revelação pública em andamento. Quando Paulo escreveu aos tessalonicenses, havia apóstolos vivos falando com autoridade, e o ensino oral deles obrigava as igrejas tanto quanto as suas cartas. Paulo diz que os tessalonicenses, “ao receberem a palavra que de nós ouviram, que é de Deus”, a acolheram “não como palavra humana, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus” (1 Tessalonicenses 2:13). Aquilo era pregação, não um documento.
Os defensores da sola scriptura reconhecem isso. James White, um de seus defensores mais capazes, diz com todas as letras:
“Os protestantes não afirmam que a sola scriptura seja um conceito válido durante tempos de revelação. Como poderia ser, se a regra de fé para a qual ela aponta estava, naquele exato momento, vindo a existir?”
Robert Boylan, um estudioso Santo dos Últimos Dias que passou anos se dedicando a essa questão, explicita o que essa concessão significa. Um texto não muda de sentido de um século para outro. Se 2 Timóteo 3:16 não estava estabelecendo a Escritura como a única regra infalível quando Paulo o escreveu, numa igreja em que apóstolos ainda pregavam, também não está estabelecendo isso hoje. Nenhum autor do Novo Testamento pode ter ensinado uma doutrina que, segundo os próprios defensores dela, não se aplicava enquanto ele escrevia.
Um protestante tem uma resposta pronta. A doutrina, dirá ele, nunca foi pensada para sair de um único versículo. Ela combina o que a Escritura diz sobre si mesma com um fato histórico: a revelação pública terminou, e por isso a Escritura é agora a única palavra infalível que resta. Essa resposta é coerente. Mas repare no que a sustenta. Tudo passa a depender da afirmação de que a revelação terminou com os apóstolos, e a Bíblia nunca diz isso. Essa afirmação é examinada em A Bíblia diz que a revelação cessou?, e os textos oferecidos a favor dela provam outra coisa.
O próprio critério de Westminster agrava o problema. Ele diz que tudo o que é necessário “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”, e que à Escritura nada se acrescentará, “nem por novas revelações do Espírito”. O encerramento da revelação é a premissa sobre a qual toda a doutrina se sustenta. Se ele não está declarado na Escritura nem pode ser deduzido dela, então a sola scriptura é reprovada no teste que ela mesma impõe a todas as outras doutrinas.
O encerramento da revelação é a premissa sobre a qual toda a doutrina se sustenta
“A palavra de Deus” é maior que a palavra escrita
A Escritura é a palavra de Deus. Jesus repreende os fariseus por estarem “invalidando a palavra de Deus por meio da tradição” (Marcos 7:13), e a palavra a que Ele se refere é um mandamento escrito. Os Santos dos Últimos Dias concordam com a repreensão, que mira a tradição humana passando por cima de Deus, e não Deus continuando a falar.
Mas, na Escritura, a expressão nunca se limita ao que está escrito. Lucas registra que “a palavra de Deus veio a João, filho de Zacarias, no deserto” (3:2). Os tessalonicenses a ouviram pregada. E um caso, trazido à luz por Boylan, mostra uma palavra de Deus com força de lei transmitida fora do texto durante séculos. Quando Ezequias restaurou o culto no templo, ele
“pôs os levitas na Casa do Senhor com címbalos, liras e harpas, segundo o mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã. Porque este mandado veio do Senhor, por meio de seus profetas.” (2 Crônicas 29:25)
Davi, Gade e Natã estavam mortos havia cerca de dois séculos e meio. Crônicas de fato registra que Davi organizou os músicos do templo (1 Crônicas 25:1), mas nenhum livro da Bíblia registra um mandado de Gade ou de Natã sobre isso. As fontes do próprio cronista incluíam os escritos desses dois profetas: os atos de Davi, diz ele, estão escritos “nas crônicas de Natã, o profeta, e nas crônicas de Gade, o vidente” (1 Crônicas 29:29). Esses livros se perderam. Um mandado que “veio do Senhor, por meio de seus profetas”, preservado fora da Escritura, ainda regia o culto de Israel séculos depois. E isso não era pouca coisa. Levítico 10 registra o que aconteceu a Nadabe e Abiú por improvisarem no culto.
A resposta protestante é que essas revelações eram obrigatórias em seu próprio tempo e que o conteúdo delas foi mais tarde absorvido pela Escritura. Pode ser. Mas é o mesmo movimento outra vez, uma afirmação sobre o que aconteceu depois, e a Escritura não a faz.
Os bereanos testaram a pregação e depois creram nela
Atos 17:11 é a citação automática. Os bereanos “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”.
Observe a situação. Eles confrontavam a pregação de Paulo com o Antigo Testamento, que era tudo o que tinham. O versículo seguinte dá o resultado: “Com isso, muitos deles creram” (17:12). Aceitaram como palavra de Deus uma mensagem que não estava escrita.
Matthew Barrett, numa defesa recente da doutrina, lê a passagem no sentido oposto: “suas ações pressupõem que a Escritura basta; ela basta para confirmar ou refutar a mensagem de Paulo”. Mas o Antigo Testamento podia confirmar a afirmação de Paulo sobre o Messias. Não podia fornecê-la. A notícia de que Jesus de Nazaré era o Cristo chegou aos bereanos pela pregação, e eles creram nela. Pela própria regra de White, a sola scriptura não se aplica em tempos de revelação, e os bereanos viviam num deles. Não podem servir de modelo para ela.
Atos 15 foi decidido pelos apóstolos e pelo Espírito
O concílio de Jerusalém enfrentou uma questão que as escrituras não tinham resolvido: o que exigir dos gentios convertidos. A Escritura teve seu papel. Tiago citou Amós 9:11-12. Mas citou o texto em sua forma grega, a da Septuaginta, como observa a SBL Study Bible, e não o texto hebraico que as Bíblias protestantes traduzem. E aplicou uma profecia sobre a restauração da casa de Davi à missão aos gentios, uma interpretação que nenhuma leitura histórica simples de Amós produziria.
A Escritura foi uma testemunha entre várias. Pedro testificou do que Deus tinha feito entre os gentios (15:7-8), e Paulo e Barnabé relataram os sinais que Deus tinha realizado por meio deles (15:12). O concílio então anunciou sua decisão com palavras que ninguém que trabalhasse sob a sola scriptura poderia usar: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (15:28). Essa decisão obrigou as igrejas imediatamente, antes que qualquer parte dela fosse registrada como escritura.
O que 2 Timóteo 3:16-17 estabelece
Leve a sério o principal texto da doutrina:
“Quanto a você, permaneça naquilo que aprendeu e em que acredita firmemente, sabendo de quem você o aprendeu e que, desde a infância, você conhece as sagradas letras, que podem torná-lo sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3:14-17)
A Escritura é inspirada e útil. Os Santos dos Últimos Dias afirmam cada palavra disso.
O peso recai sobre o versículo 17, “perfeitamente habilitado para toda boa obra”, que os protestantes leem como uma afirmação de que a Escritura é suficiente. Mas uma linguagem assim não faz de nada a única fonte. Tiago diz que a perseverança deve ter ação completa para que os crentes sejam “perfeitos e íntegros, sem que lhes falte nada” (Tiago 1:4), e ninguém conclui que a perseverança sozinha é tudo de que um cristão precisa. Dizer que a Escritura habilita não é dizer que nada mais habilita.
O contexto aponta na mesma direção. Paulo diz a Timóteo que permaneça no que aprendeu, “sabendo de quem você o aprendeu”, ou seja, de seus mestres. As “sagradas letras” que Timóteo conhecia desde a infância eram as escrituras hebraicas, já que a maior parte do Novo Testamento ainda não existia e nada dele tinha sido reunido. E Paulo disse aos tessalonicenses que guardassem “as tradições que lhes foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa” (2 Tessalonicenses 2:15). A palavra falada está ao lado da carta, não abaixo dela.
O que a doutrina precisa pressupor
Para sustentar a sola scriptura, quatro coisas precisam ser verdadeiras.
- A revelação pública terminou quando o último apóstolo morreu.
- Tudo o que era obrigatório no ensino oral dos apóstolos foi preservado no Novo Testamento.
- “Escritura” significa estes sessenta e seis livros e nenhum outro.
- Essa coleção é o tribunal de última instância em qualquer disputa.
Nenhuma das quatro está declarada na Escritura. A Bíblia não contém uma lista de seus próprios livros. Nunca diz que a revelação vai terminar, e nunca diz que todo o ensino oral dos apóstolos foi posto por escrito. Cada uma delas precisa ser estabelecida por outros meios: juízo histórico, consenso da igreja ou inferência. A regra de que só a Escritura é a autoridade final repousa sobre quatro compromissos que a Escritura, sozinha, não consegue fornecer.
A questão do cânon
Os defensores da doutrina têm respostas sérias aqui, e elas merecem réplicas sérias.
Mathison argumenta que a igreja reconheceu o cânon em vez de criá-lo, assim como um astrônomo reconhece uma estrela em vez de fabricá-la. A distinção é real. Mas reconhecer continua sendo um ato de julgamento feito fora da Escritura, e a sola scriptura não tem nenhuma explicação bíblica de quem faz o reconhecimento nem de como ele é feito.
Michael Kruger argumenta que o cânon é autoautenticável, porque os livros trazem as próprias marcas de sua origem divina. Se é assim, a autenticação levou muito tempo. No início do século IV, Eusébio ainda listava Tiago, Judas, 2 Pedro e 2 e 3 João entre os livros disputados. Em 1522, Martinho Lutero deslocou Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse para o fim de seu Novo Testamento. E protestantes e católicos ainda discordam sobre sete livros do Antigo Testamento. Um cânon que se autentica sozinho não deveria precisar de séculos de concílios, e do juízo editorial de um reformador, para ser reconhecido.
O que fica no lugar dela
Os Santos dos Últimos Dias não têm uma visão inferior da Bíblia. A discordância é sobre se a Bíblia algum dia foi feita para funcionar sozinha.
O padrão que atravessa a Escritura é o de um Deus que continua a Se dirigir ao Seu povo por meio de profetas, e Ele nunca disse que pararia. João encerra seu evangelho dizendo que, se tudo o que Jesus fez fosse relatado, “nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (João 21:25). O cânon nunca foi o limite do que Deus tinha a dizer.
Por isso, a pergunta a fazer a quem sustenta a sola scriptura não é se ele ama a Bíblia. Parta do princípio de que ama. A pergunta é mais simples. Qual versículo fecha o cânon, e quem decidiu a lista?
Fontes
Escrituras (NAA): Levítico 10. 1 Crônicas 25:1; 29:29. 2 Crônicas 29:25. Amós 9:11-12. Marcos 7:13. Lucas 3:2. João 21:25. Atos 15:7-8, 12, 16-18, 28; 17:11-12. 1 Tessalonicenses 2:13. 2 Tessalonicenses 2:15. 2 Timóteo 3:14-17. Tiago 1:4.
Robert S. Boylan. Boa parte do argumento deste artigo segue o trabalho de Boylan, inclusive o caso de 2 Crônicas 29:25 e o uso que ele faz da concessão de James White. Seu blog, Scriptural Mormonism, é o tratamento mais completo da sola scriptura disponível do ponto de vista dos Santos dos Últimos Dias, e seu livro Not by Scripture Alone: A Latter-day Saint Refutation of Sola Scriptura reúne tudo num só lugar. Quem quiser o argumento completo deve começar por aí.
A doutrina formulada: Confissão de Fé de Westminster 1.6 (tradução da Igreja Presbiteriana do Brasil). Keith A. Mathison, The Shape of Sola Scriptura (Moscow, ID: Canon Press, 2001). Michael J. Kruger, Canon Revisited: Establishing the Origins and Authority of the New Testament Books (Wheaton, IL: Crossway, 2012). Matthew Barrett, God’s Word Alone: The Authority of Scripture (Grand Rapids: Zondervan, 2016), cap. 10.
James White: “A Review and Rebuttal of Steve Ray’s Article, Why the Bereans Rejected Sola Scriptura,” Alpha and Omega Ministries (1998), aomin.org.
Sobre Atos 15 e Amós 9: The SBL Study Bible, nota sobre Atos 15:16-18.
Sobre o cânon: Eusébio, História Eclesiástica 3.25.
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As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.