João 3:5: nascer da água e do Espírito

Resposta curta

Em João 3:5, nascer da água e do Espírito significa ser batizado e receber o dom do Espírito Santo, um só nascimento com dois elementos. O próprio Evangelho de João mostra isso: junta água e Espírito nas palavras de João Batista, mostra os fariseus interrogando João sobre os batismos e passa direto de Nicodemos para uma cena de Jesus e Seus discípulos batizando. A leitura que faz da água o parto natural esbarra no texto, e até estudiosos que rejeitam a regeneração batismal a descartam.

Quando Jesus disse a Nicodemos que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (João 3:5), a água de que Ele falava era o batismo. O Evangelho de João deixa isso claro nos capítulos que cercam a conversa. Ele junta água e Espírito nas palavras de João Batista, mostra os fariseus interrogando João sobre os batismos que ele fazia e passa direto de Nicodemos para uma cena em que Jesus e Seus discípulos batizam. O argumento não depende só da palavra “água”. Depende da união de água e Espírito em João 1:33, do nascimento único de João 3:5, dos batismos que vêm logo depois, em 3:22 e 4:1-2, e da maneira como os primeiros cristãos liam o versículo. As alternativas que os leitores propuseram ou esbarram no próprio texto ou, levadas até o fim, conduzem de volta ao batismo.

O versículo não diz que a água sozinha torna alguém novo. O nascimento é “da água e do Espírito”, um só nascimento com dois elementos. Os Santos dos Últimos Dias entendem esses elementos como o batismo e o dom do Espírito Santo, e sustentam que nenhum dos dois está completo sem o outro. João menciona apenas o Espírito. Que o dom seja concedido pela imposição de mãos é algo que vem de Atos 8 e 19 e das escrituras da Restauração. A pergunta aqui é mais restrita. Quando Jesus disse “água”, Ele estava falando do batismo?

A conversa

Nicodemos é fariseu e “um dos principais dos judeus”. Ele vai até Jesus de noite e O chama de mestre vindo da parte de Deus. Jesus responde com algo que Nicodemos não tinha perguntado:

“Jesus respondeu: — Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus. Nicodemos perguntou: — Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez? Jesus respondeu: — Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não fique admirado por eu dizer: ‘Vocês precisam nascer de novo.’” (João 3:3-7)

A palavra grega que a NAA traduz por “de novo”, anōthen, também significa “do alto”, e é assim que a NRSVUE a traduz. Nicodemos a entende no sentido de “outra vez” e imagina uma segunda passagem pelo ventre. Jesus responde repetindo o que tinha dito, agora com “nascer da água e do Espírito” no lugar de “nascer de novo”, ou “do alto”. O versículo 5 explica o versículo 3. Nascer da água e do Espírito é aquilo em que consiste nascer do alto.

Nascer da água e do Espírito é aquilo em que consiste nascer do alto

Um nascimento, não dois

Uma leitura evangélica comum entende a “água” como o nascimento natural. O bebê nasce quando a bolsa da mãe se rompe, diz o argumento, de modo que “água e Espírito” significaria dois nascimentos: o físico, que todo mundo tem, e um espiritual, que vem pela fé. O versículo 6 parece apoiar essa leitura, já que contrasta o que é “nascido da carne” com o que é “nascido do Espírito”.

Essa leitura tem três problemas, e estudiosos que não leem o versículo como referência ao batismo já apontaram todos eles.

Primeiro, a gramática une as duas palavras. Jesus diz “nascer da água e do Espírito”, e no grego uma única preposição rege os dois substantivos, sem artigo em nenhum deles. (O português precisa dos artigos, “da água e do Espírito”; o grego diz apenas “de água e Espírito”.) É um só nascimento, de água e Espírito juntos, paralelo a “nascer de novo”, ou “do alto”, no versículo 3 e a “nascido do Espírito” no versículo 8. O New Bible Commentary, uma obra de referência evangélica que não lê o versículo como batismo, reconhece o ponto: “devemos tomar água e espírito juntos e relacioná-los a um único nascimento, como no v. 3”.

Segundo, essa leitura faz Jesus dizer algo sem propósito. Ninguém precisava avisar Nicodemos de que ele tinha de nascer. Richard Bauckham, escrevendo sobre os sacramentos em João, diz que é “difícil entender por que o nascimento natural precisaria ser mencionado em 3:5”. Jesus está fazendo uma exigência, e “se você não tiver nascido” não exige nada de ninguém.

É um só nascimento, de água e Espírito juntos, paralelo a nascer de novo, ou do alto, no versículo 3 e a nascido do Espírito no versículo 8

Terceiro, o versículo 6 não se alinha com o versículo 5 do jeito que o argumento precisa. No versículo 6, “carne” se opõe a “Espírito”. No versículo 5, “água” se une a “Espírito” pelo “e”. Craig Blomberg, que não aceita a regeneração batismal, também rejeita a leitura do nascimento natural. “Ainda menos provável”, escreve ele, “é a ideia de que ‘nascer da água’ tenha algo a ver com a fisiologia do nascimento natural.”

A leitura do nascimento natural percebe, sim, algo real. O nascimento neste mundo envolve água, e o novo nascimento tem o primeiro como modelo. As escrituras dos Santos dos Últimos Dias fazem exatamente essa comparação, e chegam à conclusão oposta: “sendo que haveis nascido no mundo pela água e sangue e espírito… do mesmo modo tereis de nascer de novo no reino do céu, da água e do Espírito” (Moisés 6:59). O primeiro nascimento tem a sua água. O segundo também.

Água e Espírito no Evangelho de João

O Evangelho de João não deixa o leitor adivinhando o que significa “água e Espírito”. Ele já apresentou o par. João Batista diz: “Eu batizo com água”, e depois conta que aquele que o enviou a batizar com água lhe disse: “Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo” (João 1:26, 33). A água é aquilo com que João batiza. O Espírito é aquilo com que Jesus batiza. Dois capítulos depois, Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer de ambos.

O comentarista reformado William Hendriksen, que não defende a regeneração batismal, diz a mesma coisa. “A chave para a interpretação destas palavras se encontra em 1:33”, onde “água e Espírito também aparecem lado a lado, em conexão com o batismo”.

A água é aquilo com que João batiza. O Espírito é aquilo com que Jesus batiza

As cenas seguintes à conversa apontam na mesma direção. “Depois disso, Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judeia; ali permaneceu com eles e batizava. Ora, João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque ali havia muitas águas” (3:22-23). Segue-se uma discussão sobre a purificação (3:25), e então chega aos fariseus a notícia de que Jesus “fazia e batizava mais discípulos do que João”, embora fossem os Seus discípulos que batizavam (4:1-2). João coloca a conversa sobre nascer da água entre os batismos de João Batista e os batismos de Jesus. Dificilmente ele esperava que os leitores pensassem em líquido amniótico.

“Água” como figura do Espírito

Uma segunda leitura entende a “água” como uma figura do próprio Espírito, de modo que “água e Espírito” significaria “água, isto é, Espírito”. Bauckham lê assim, como “a água do ventre que é o Espírito”. E João de fato usa a água dessa forma em outro lugar. Na Festa dos Tabernáculos, Jesus promete “rios de água viva”, e João explica: “Isso ele disse a respeito do Espírito” (7:38-39).

Mas no capítulo 7 João diz ao leitor que a água é o Espírito. No capítulo 3 ele não acrescenta nenhuma nota assim, e a frase apresenta água e Espírito como duas coisas unidas por “e”. As traduções refletem isso. A NRSVUE, a NIV, a ESV e a KJV unem as duas com “e”, e nenhuma diz “água, isto é, Espírito”. No capítulo 7, João identifica a água com o Espírito. Em 3:5 ele não faz isso, e une água e Espírito com um “e”.

Nicodemos poderia ter entendido?

A objeção mais séria é histórica. O batismo cristão ainda não existia, diz o argumento, então Jesus não poderia estar falando dele a Nicodemos. O New Bible Commentary defende essa posição e diz que, quanto a uma alusão ao batismo de João, não há “nenhum indício disso na passagem”. Em vez disso, “água e espírito” lembraria a promessa de Ezequiel de que Deus purificaria o Seu povo:

“Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas… Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo… Porei dentro de vocês o meu Espírito.” (Ezequiel 36:25-27)

É muito provável que Ezequiel esteja no pano de fundo. Jesus repreende Nicodemos por não entender: “Você é mestre em Israel e não compreende estas coisas?” (3:10), o que significa que a ideia já estava disponível nas escrituras de Israel. Mas veja o que Ezequiel promete: água pura que purifica e, depois, um espírito novo. O profeta nomeia a água e o espírito separadamente, como dois dons, e a água serve para lavar.

E, quando Nicodemos foi até Jesus, um profeta já estava no Jordão lavando pessoas na água e anunciando que viria alguém que daria o Espírito. O próprio partido de Nicodemos o havia investigado. “Ora, os que haviam sido enviados eram do grupo dos fariseus. E perguntaram a João: — Então por que você batiza…?” (1:24-25). Um fariseu importante que ouvisse “água e Espírito” naqueles anos tinha todos os motivos para pensar na promessa de Ezequiel, no batismo de João e no Espírito que João dizia estar por vir.

Os primeiros leitores do Evangelho de João ouviram essas palavras do outro lado da Páscoa. Eles mesmos tinham sido batizados e recebido o Espírito. Quando liam que ninguém entra no Reino sem nascer da água e do Espírito, reconheceriam ali o próprio batismo. Assim, a leitura de Ezequiel e a leitura batismal não competem entre si. Ezequiel fez a promessa da água que purifica e de um espírito novo. João Batista veio com a água e apontou para aquele que daria o Espírito. O batismo cristão, seguido do dom do Espírito Santo, é onde essa promessa se cumpre.

“Todo o que nele crê”

O mesmo capítulo diz: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (3:15-16), e “quem crê no Filho tem a vida eterna” (3:36). Alguns leitores tomam esses versículos como prova de que o novo nascimento vem pela fé e, portanto, não pode envolver água.

João não os coloca em oposição. Ele registra as duas afirmações no mesmo capítulo, com uma cena de Jesus batizando entre elas. As cartas que levam o nome de João fazem o mesmo com nascimento e fé: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1). Fé e nascimento andam juntos, e em João 3 o nascimento inclui a água. O padrão de Atos, em que os que criam eram batizados no mesmo dia, é tratado no artigo sobre Atos 2:38.

Como os primeiros cristãos o liam

Os escritores cristãos antigos que citam o versículo o leem como batismo. O Pastor de Hermas, escrito em Roma na primeira metade do século II e provavelmente antes de Justino, parece ecoá-lo. Numa de suas visões, pedras sobem através da água para serem edificadas na igreja, porque “se não se despojassem da morte da sua vida, não poderiam de nenhum outro modo entrar no reino de Deus” (Similitude 9.16). Por volta do ano 150, Justino Mártir descreveu ao imperador romano como os novos fiéis eram recebidos na igreja. Eles oravam e jejuavam “pela remissão dos seus pecados passados”, e então “são levados por nós a um lugar onde há água e são regenerados da mesma maneira como nós mesmos fomos regenerados”. Recebem “a lavagem com água” em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Justino dá como razão as palavras de Jesus a Nicodemos: “Pois Cristo também disse: ‘Se não nascerdes de novo, não entrareis no reino dos céus.’” A leitura que a igreja primitiva fazia do batismo é tratada em O que a igreja primitiva cria sobre o batismo?

O que os Santos dos Últimos Dias leem no versículo

Os Santos dos Últimos Dias leem João 3:5 como a declaração direta do que as escrituras da Restauração ensinam em detalhe. O Senhor disse a Adão que ele tinha de “nascer de novo no reino do céu, da água e do Espírito”, e explicou as partes: “pela água guardais o mandamento, pelo Espírito sois justificados e pelo sangue sois santificados” (Moisés 6:59-60). Depois Adão “foi mergulhado na água e foi tirado da água”, e “o Espírito de Deus desceu sobre ele”, e ele “nasceu do Espírito” (6:64-65). Numa revelação a Joseph Smith, o Senhor prometeu aos que cressem em Suas palavras que “eles de mim nascerão, sim, da água e do Espírito” (Doutrina e Convênios 5:16).

É por isso que a quarta Regra de Fé põe o batismo e o dom do Espírito Santo lado a lado. Água e Espírito são duas partes de um só nascimento. A água é o batismo por imersão, e o Espírito é o dom do Espírito Santo, concedido pela imposição de mãos, como em Atos 8 e 19. Nenhum dos dois substitui a fé. Os dois vêm de Cristo, cujo sangue, como diz Moisés 6, é o que santifica.

O que o versículo ensina

Jesus disse a um fariseu importante, numa época em que o próprio partido dele vinha interrogando João sobre os batismos, que ninguém entra no Reino de Deus sem nascer da água e do Espírito. O Evangelho que registra isso une água e Espírito nas palavras do Batista, mostra os fariseus questionando os batismos de João e faz a conversa ser seguida pelos discípulos de Jesus batizando. As leituras que fazem “água” significar outra coisa precisam isolar o versículo de tudo o que o cerca. Lido dentro do seu próprio Evangelho, João 3:5 significa que o novo nascimento inclui o batismo.

Este é um de uma série de artigos sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e a afirmação de Pedro de que o batismo “agora também salva vocês” está em 1 Pedro 3:21: “o batismo… agora também salva vocês”.

Fontes

Escrituras (NAA): Ezequiel 36:25-27. João 1:24-26, 33; 3:1, 3-8, 10, 15-16, 22-25, 36; 4:1-2; 7:38-39. 1 João 5:1.

Escrituras da Restauração: Moisés 6:59-60, 64-65. Doutrina e Convênios 5:16. Regras de Fé 1:4.

Fontes cristãs antigas: Pastor de Hermas, Similitude 9.16, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 2. Justino Mártir, Primeira Apologia 61, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 1.

Comentaristas: New Bible Commentary: 21st Century Edition (InterVarsity, 1994), sobre João 3:3-8. Richard Bauckham, “Sacraments in the Gospel of John”, em The Oxford Handbook of Sacramental Theology, ed. Hans Boersma e Matthew Levering (Oxford University Press, 2015), 86-88. Craig L. Blomberg, Jesus the Purifier: John’s Gospel and the Fourth Quest for the Historical Jesus (Baker Academic, 2023), 246. William Hendriksen, Exposition of the Gospel According to John (Baker, 1953), 1:134.

Obra de um Santo dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, “Baptism, Salvation, and the New Testament, Part 4: John 3:1-7” e textos relacionados, Scriptural Mormonism, que reúnem o material de Bauckham, Blomberg e Hendriksen.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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