O que a igreja primitiva cria sobre o batismo?
Resposta curta
Os cristãos das gerações logo depois dos apóstolos ligavam o batismo, de forma constante, ao perdão dos pecados e ao começo de uma vida nova. Os convertidos eram ensinados, se arrependiam e jejuavam antes de serem batizados, e por volta do ano 200 as mãos eram impostas sobre os recém-batizados para que recebessem o Espírito Santo. O registro também mostra uma mudança: nenhum texto do segundo século descreve claramente o batismo de bebês, que só se torna prática estabelecida em meados do terceiro século.
Os cristãos que escreveram nas gerações logo depois dos apóstolos ligavam, de forma constante, o batismo ao perdão dos pecados e ao começo de uma vida nova. Os convertidos primeiro eram ensinados, e se arrependiam e jejuavam antes de serem batizados. A descida à água e a subida dela estão bem atestadas, e por volta do ano 200 as mãos eram impostas sobre os recém-batizados para que recebessem o Espírito Santo. Nessa época também já havia cristãos argumentando que a fé tornava o batismo desnecessário, e a igreja lhes respondia com João 3:5.
O registro antigo também mostra onde a prática cristã mudou. Nenhum texto do segundo século descreve claramente o batismo de bebês. Quando ele é mencionado explicitamente pela primeira vez, por volta de 200, o autor argumenta contra ele, e só em meados do terceiro século ele se torna prática estabelecida entre os bispos do norte da África.
Por que a igreja primitiva importa
Para os Santos dos Últimos Dias, os escritores posteriores aos apóstolos não são escritura. Os Santos dos Últimos Dias creem que a autoridade e a doutrina se perderam depois da morte dos apóstolos, e que essa perda foi gradual. Mas os primeiros escritores cristãos continuam sendo testemunhas valiosas. Viveram perto dos apóstolos, alguns a menos de uma geração deles, e descrevem o que as suas igrejas de fato faziam. Quando escritores de lugares e gerações diferentes concordam, esse acordo é forte evidência de uma tradição muito antiga, e Justino, como veremos, diz com todas as letras que a igreja aprendeu a sua prática com os apóstolos. Quando o registro muda, ele mostra o tipo de desvio que a Restauração corrigiu.
Quando o registro muda, ele mostra o tipo de desvio que a Restauração corrigiu
As primeiras testemunhas
A Didaqué, um manual eclesiástico geralmente datado da virada do primeiro para o segundo século, dá instruções para o batismo. “Batizai em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, em água viva”, isto é, em água corrente. Se não houver água corrente, outra água serve, fria ou morna. Só se não houver nem uma nem outra o batizador deve “derramar água três vezes sobre a cabeça”. Antes do batismo, “jejuem o batizador e o batizando, e quaisquer outros que puderem” (Didaqué 7). O batismo exigia preparação, o derramamento era o recurso quando não havia água suficiente, e usava-se o nome que Jesus deu em Mateus 28:19. A Didaqué não descreve o ato em si. Barnabé e Hermas descrevem, e ambos retratam os candidatos descendo à água e subindo dela.
A Epístola de Barnabé, do mesmo período, descreve o que o batismo faz. “Nós, de fato, descemos à água cheios de pecados e de impureza, mas subimos dando fruto no coração, tendo no espírito o temor [de Deus] e a confiança em Jesus” (Barnabé 11).
O Pastor de Hermas, escrito em Roma na primeira metade do segundo século, é uma alegoria. Numa das parábolas (as Similitudes), pedras sobem de um poço através da água para serem usadas na construção de uma torre que representa a igreja. O anjo explica que “era necessário que subissem através da água para serem vivificados; pois, se não deixassem de lado a morte da sua vida, não poderiam de nenhum outro modo entrar no reino de Deus… O selo, portanto, é a água: descem à água mortos e sobem vivos” (Similitude 9.16). A parábola vai além. Diz que os apóstolos e mestres, depois da própria morte, pregaram aos que tinham morrido antes deles, “e eles mesmos também lhes deram o selo da pregação”. Hermas é uma alegoria, e não se deve forçá-lo nos detalhes. Mas ele mostra um cristão da Roma do segundo século que cria que até os mortos justos precisavam do selo do batismo, e que os apóstolos o levaram até eles. Isso não é batismo vicário. Em Hermas, os próprios apóstolos, já mortos, levam o selo aos mortos, e nenhuma pessoa viva age em lugar de ninguém. O que a parábola compartilha com o ensino dos Santos dos Últimos Dias é a convicção de que a necessidade do batismo alcança os mortos, assunto que o artigo sobre o ladrão na cruz discute.
Justino Mártir, escrevendo ao imperador romano por volta de 150, dá a descrição antiga mais completa. Os que creem são “ensinados a orar e a suplicar a Deus, com jejum, pela remissão dos seus pecados passados”. Depois, “são levados por nós a um lugar onde há água e são regenerados do mesmo modo como nós mesmos fomos regenerados”. Justino diz que a igreja tinha “aprendido dos apóstolos” a razão disso. Nascemos da primeira vez “sem o nosso conhecimento nem a nossa escolha”, e por isso, no batismo, “podemos nos tornar filhos da escolha e do conhecimento, e obter na água a remissão dos pecados antes cometidos”. O nome de Deus é pronunciado “sobre aquele que escolhe nascer de novo e se arrependeu dos seus pecados” (Primeira Apologia 61). Justino cita as palavras de Jesus a Nicodemos como a razão disso, como mostra o artigo sobre João 3:5.
O que a parábola compartilha com o ensino dos Santos dos Últimos Dias é a convicção de que a necessidade do batismo alcança os mortos
Ireneu, bispo de Lyon por volta de 180, liga o batismo à autoridade que Cristo deu aos Seus apóstolos. “Dando aos discípulos o poder da regeneração para Deus, Ele lhes disse: ‘Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’” (Contra as Heresias 3.17.1).
A imposição de mãos
Tertuliano de Cartago escreveu o primeiro tratado sobre o batismo que chegou até nós, por volta de 200. Depois de descrever o batismo em si, ele descreve o passo seguinte. “Em seguida, a mão é imposta sobre nós, invocando e convidando o Espírito Santo por meio da bênção” (Sobre o Batismo 8). Essa é a ordem que Atos mostra em Samaria e em Éfeso, primeiro o batismo e depois a imposição de mãos para o Espírito, como discute o artigo sobre a água e o Espírito em Atos. É também a ordem da quarta Regra de Fé.
A objeção de que a fé dispensa o batismo é antiga
O tratado de Tertuliano também mostra que o argumento contra a necessidade do batismo não é novo. Ele relata o ensino de que “sem o batismo, a salvação não é alcançável por ninguém”, fundamentado “principalmente naquela declaração do Senhor, que diz: ‘Se alguém não nascer da água, não tem vida’”. E relata quem se opunha a isso. “O batismo não é necessário para aqueles a quem a fé basta; pois, afinal, Abraão agradou a Deus por um sacramento não de água, mas de fé” (Sobre o Batismo 12-13). Isso ainda não é a doutrina da Reforma da justificação somente pela fé, mas o argumento de que a fé torna o batismo desnecessário já está ali.
A resposta dele é que o evangelho acrescentou algo que Abraão não tinha. Cristo deu a ordem de batizar as nações, e essa ordem, junto com as Suas palavras a Nicodemos, “Se alguém não renascer da água e do Espírito, não entrará no reino dos céus”, “ligou a fé à necessidade do batismo. Por isso, todos os que depois disso se tornavam crentes eram batizados” (Sobre o Batismo 13).
O argumento de que a fé torna o batismo desnecessário já está ali
Assim, o debate que esta série vem acompanhando já estava em curso dois séculos depois de Cristo. O lado que sustentava a necessidade do batismo argumentava a partir de João 3:5 e Mateus 28:19, os mesmos textos que esta série usou.
Onde o registro muda: os bebês
Uma prática não tem lugar claro nas evidências mais antigas. A Didaqué, Barnabé, Hermas e Justino descrevem todos o batismo de pessoas que foram ensinadas, se arrependeram e jejuaram. Justino o descreve como o momento em que alguém se torna filho “da escolha e do conhecimento”. Edmund Schlink, teólogo luterano que defendia o batismo infantil, admitiu que nos textos do segundo século “não encontramos nenhum apoio convincente para a prática do batismo infantil”. O apologista Aristides, escrevendo mais ou menos na mesma época, descreve cristãos dando graças quando uma criança morria pequena, “como por alguém que passou pelo mundo sem pecados”. Ele não menciona batismo nenhum. Ireneu, por volta de 180, diz que Cristo veio salvar “todos os que por meio Dele renascem para Deus: bebês, e crianças, e meninos, e jovens, e anciãos” (Contra as Heresias 2.22.4). Alguns historiadores leem isso como evidência de batismo infantil, já que Ireneu usa em outros lugares a linguagem do novo nascimento para o batismo. Mas a passagem não menciona o batismo, e a inferência é contestada.
O primeiro escritor a mencionar explicitamente o batismo infantil é Tertuliano, e ele argumenta contra. A objeção dele também mostra que alguns já o praticavam no seu tempo. “É preferível adiar o batismo; principalmente, porém, no caso das criancinhas.” Ele retoma as palavras do Senhor, “Não os impeçais de vir a mim”, e responde: “Que ‘venham’, então, enquanto crescem; que ‘venham’ enquanto aprendem… que se tornem cristãos quando forem capazes de conhecer a Cristo. Por que a idade inocente haveria de se apressar para a ‘remissão dos pecados’?” (Sobre o Batismo 18).
Cerca de cinquenta anos depois, a questão tinha sido resolvida no sentido oposto no norte da África. Um concílio de sessenta e seis bispos presidido por Cipriano de Cartago escreveu a um bispo chamado Fido. Fido aceitava o batismo infantil, mas achava que os recém-nascidos não deviam ser batizados antes do oitavo dia, como na circuncisão. O concílio decidiu que os bebês podiam ser batizados mesmo antes disso (Cipriano, Epístola 58). Cerca de um século e meio depois dos apóstolos, uma prática que nenhum escritor anterior descreve claramente, e à qual Tertuliano se opôs, tinha se tornado prática estabelecida entre os bispos do norte da África.
Os Santos dos Últimos Dias veem nisso a mudança que o Livro de Mórmon trata diretamente. Mórmon escreveu ao filho, Morôni, transmitindo as palavras de Cristo de que “as criancinhas são sãs, por serem incapazes de cometer pecado”, e acrescentou que as “criancinhas não necessitam de arrependimento nem de batismo” e que as criancinhas “estão vivas em Cristo desde a fundação do mundo” (Morôni 8:8, 11-12). A pergunta de Tertuliano, por que os inocentes haveriam de se apressar para a remissão dos pecados, é a mesma que Mórmon faz.
O que os Santos dos Últimos Dias reconhecem no registro
Coloque o registro antigo ao lado da quarta Regra de Fé, e a semelhança fica clara:
- Primeiro a fé e o arrependimento. Os candidatos eram ensinados, e oravam e jejuavam “pela remissão dos seus pecados passados” (Justino).
- Batismo por imersão para a remissão dos pecados. Eles desciam à água “cheios de pecados” e subiam “dando fruto” (Barnabé), e o derramamento era a exceção quando não havia água suficiente (Didaqué).
- Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo. “A mão é imposta sobre nós, invocando e convidando o Espírito Santo” (Tertuliano).
- Batismo exigido de todos os que podem crer. Tertuliano disse que a ordem de Cristo “ligou a fé à necessidade do batismo”, com base em João 3:5.
O registro também mostra onde a Restauração difere das igrejas que nasceram desse período. O batismo infantil veio depois, e a sua primeira testemunha registrada se opôs a ele. O registro também inclui coisas que os Santos dos Últimos Dias não aceitam, como o derramamento admitido como concessão. E a convicção que Hermas retrata, a de que os mortos também precisam do selo do batismo, desapareceu da maior parte do cristianismo. Ela voltou, de outra forma, no ensino da Restauração sobre o batismo pelos mortos.
O que a igreja primitiva ensina
Os primeiros cristãos depois dos apóstolos não tratavam o batismo como símbolo de uma salvação já completa. Desciam à água “cheios de pecados” e subiam perdoados, depois do arrependimento e antes da imposição de mãos. Quando alguns cristãos argumentaram que a fé tornava o batismo desnecessário, a igreja respondeu com as palavras de Jesus a Nicodemos. Nessas questões (o arrependimento primeiro, o batismo para a remissão dos pecados e o Espírito dado junto com o batismo), o registro antigo se parece com o que os Santos dos Últimos Dias ensinam hoje.
Este é o último de uma série de artigos sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e a afirmação de Pedro de que o batismo “agora também salva vocês” é tratada em 1 Pedro 3:21: “o batismo… agora também salva vocês”.
Fontes
Escrituras: Mateus 28:19 e João 3:5 (NAA). Morôni 8:8, 11-12. Regras de Fé 1:4.
Fontes cristãs antigas (todas em The Ante-Nicene Fathers): Didaqué 7 (vol. 7). Epístola de Barnabé 11 (vol. 1). Pastor de Hermas, Similitude 9.16 (vol. 2). Justino Mártir, Primeira Apologia 61 (vol. 1). Ireneu, Contra as Heresias 2.22.4; 3.17.1 (vol. 1). Tertuliano, Sobre o Batismo 8, 12-13, 18 (vol. 3). Cipriano, Epístola 58, a Fido (vol. 5). Aristides, Apologia 15.
Estudos modernos: Edmund Schlink, The Doctrine of Baptism, trad. Herbert J. A. Bouman (Concordia, 1972), 134. Everett Ferguson, Baptism in the Early Church: History, Theology, and Liturgy in the First Five Centuries (Eerdmans, 2009).
Obras de Santos dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, Scriptural Mormonism, que reúne o material de Schlink e Ferguson sobre o batismo infantil.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.