1 Pedro 3:21: "o batismo… agora também salva vocês"
Resposta curta
Em 1 Pedro 3:21, Pedro afirma que o batismo agora também salva e logo explica como: não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo. Essa ressalva diz como o batismo salva, sem retirar o verbo. A água não lava o pecado como lava a sujeira, e o rito não funciona à parte da conversão nem de Cristo, mas o batismo é um lugar onde Deus salva, não a imagem de uma salvação já concluída.
Pedro diz que o batismo salva. Suas palavras são “O batismo… agora também salva vocês”, e logo em seguida ele explica como. O batismo salva “não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo”. Essa ressalva diz ao leitor como o batismo salva. Ela não retira o verbo. Lido assim, o versículo diz quase palavra por palavra o que os Santos dos Últimos Dias creem sobre o batismo, e alguns dos comentaristas protestantes mais cuidadosos o leem de modo muito parecido.
Pedro de fato descarta algumas coisas. A água não lava o pecado do jeito que lava a sujeira, e o rito não funciona à parte da conversão da pessoa a Deus nem à parte de Cristo. Os Santos dos Últimos Dias concordam com tudo isso. A questão é se o batismo é um lugar onde Deus salva ou apenas a imagem de uma salvação que já estava concluída antes de a pessoa chegar à água. A resposta de Pedro é a primeira.
A passagem
Pedro vinha dizendo aos seus leitores que sofressem por fazer o bem, como Cristo sofreu. Então ele descreve o que o sofrimento de Cristo realizou:
“Pois também Cristo padeceu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir vocês a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes, quando Deus aguardava com paciência nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucas pessoas, apenas oito, foram salvas através da água. O batismo, que corresponde a isso, agora também salva vocês, não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo, que, depois de ir para o céu, está à direita de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, potestades e poderes.” (1 Pedro 3:18-22)
Quem eram os “espíritos em prisão” é uma das questões mais disputadas do Novo Testamento, e o artigo sobre o ladrão na cruz toca nesse ponto. A frase que importa aqui é a seguinte, sobre o batismo.
“Salvas através da água”
Uma resposta evangélica comum começa por Noé. A arca salvou a família de Noé, diz essa resposta, e a água foi o juízo que afogou todos os outros. Portanto, a comparação é com a arca, que representa Cristo, e a água é um detalhe.
Pedro não escreveu assim. Ele diz que as oito pessoas “foram salvas através da água”, e é a água que ele liga ao batismo. Gênesis descreve a mesma água fazendo as duas coisas: “As águas subiram e elevaram a arca sobre a terra” (Gênesis 7:17). O dilúvio que destruiu o velho mundo ergueu a arca e levou a família de Noé até um mundo novo.
Paulo lê o mar Vermelho da mesma forma. Os israelitas “todos passaram pelo mar, e todos, em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar” (1 Coríntios 10:1-2). A água que se fechou sobre o exército do faraó foi a mesma que o povo de Deus atravessou em segurança. Os dois apóstolos olham para um livramento através da água e veem nele o batismo.
Os dois apóstolos olham para um livramento através da água e veem nele o batismo
Pedro diz que o batismo agora salva
A frase grega é concisa, e as traduções lidam com ela de maneiras diferentes. A NIV diz que a água “symbolizes baptism that now saves you” (simboliza o batismo que agora salva vocês). A KJV fala de “the like figure whereunto even baptism doth also now save us” (a figura semelhante, pela qual também o batismo agora nos salva). Alguns leitores pegam a palavra “figura” ou “símbolo” e a aplicam à frase inteira, como se Pedro quisesse dizer que o batismo salva apenas simbolicamente.
A gramática não permite isso. A rigor, no grego, o sujeito de “salva” é o pronome relativo “a qual”, que remete à água, e “batismo” é nomeado ao lado dele como a contraparte da água. (A NAA reordena a frase e põe “o batismo” como sujeito.) A palavra por trás de “símbolo” e “figura” é antitypon, um adjetivo usado aqui como substantivo, “contraparte”, que a NAA traduz por “que corresponde a isso”. Ela descreve a relação entre a água de Noé e o batismo cristão, e não altera o verbo. “Salva” está no presente, tem “vocês” como objeto e diz o que a contraparte, o batismo, faz agora. Everett Ferguson, estudioso das Igrejas de Cristo que escreveu a história de referência do batismo cristão primitivo, examina a frase e conclui que, “gramaticalmente, é o batismo, e não a água do dilúvio, que ‘salva vocês’”. Paul Achtemeier, cujo comentário na série Hermeneia é uma obra crítica de referência sobre a carta, diz que a frase ficou truncada porque Pedro estava relacionando “Noé e o dilúvio, como meio de livramento, ao batismo cristão, como meio de salvação”.
O dilúvio, portanto, apontava para a frente, e o batismo é aquilo para o que ele apontava. E a frase de Pedro diz que essa realidade apontada “agora também salva vocês”.
O dilúvio, portanto, apontava para a frente, e o batismo é aquilo para o que ele apontava
“Não sendo a remoção das impurezas do corpo”
Então Pedro faz uma ressalva. O batismo não salva do jeito que um banho limpa.
Essa ressalva resolve uma questão logo de saída. Alguns protestantes dizem que o batismo desse versículo é o batismo do Espírito, e não o de água. Mas ninguém precisaria dizer que o Espírito não remove as impurezas do corpo. Pedro diz isso porque o batismo de que ele fala é feito na água, e ele não quer que ninguém pense que a água age como sabão.
Thomas Schreiner, batista reformado e um dos principais comentaristas evangélicos das cartas de Pedro, examina as maneiras como essa oração tem sido lida. Alguns entendem as “impurezas” (no grego, rhypos, sujeira) como imundície moral, ou leem a expressão como uma referência à circuncisão. Ele rejeita as duas leituras e fica com a mais simples. O ponto, escreve ele, “não é que a água em si purifique magicamente”. Isso está certo, e os Santos dos Últimos Dias nunca ensinaram outra coisa. Ninguém acredita que a água da pia batismal seja um detergente para o pecado.
O ponto, escreve ele, não é que a água em si purifique magicamente
“O apelo por uma boa consciência para com Deus”
O que o batismo é, diz Pedro, é “o apelo por uma boa consciência para com Deus”. A palavra grega, eperōtēma, aparece só aqui no Novo Testamento. Ela é aparentada ao verbo comum para “perguntar” ou “pedir”, e por isso a maioria das traduções a verte por “apelo” ou “pedido”. Mas a palavra também aparece em contratos, onde designa a promessa formal que uma parte faz à outra, e a NIV e a nota de rodapé da NRSVUE trazem “pledge”, compromisso.
Qualquer das duas leituras descreve algo que acontece no batismo. Pedro não está contrapondo o batismo ao apelo, como se o apelo fosse o que salva e o batismo fosse um acompanhamento opcional. Ele define o batismo como o eperōtēma, seja qual for o sentido da palavra: “O batismo… agora também salva vocês… mas o apelo por uma boa consciência para com Deus”.
Considere primeiro a leitura que a maioria das traduções prefere. Schreiner a defende, e o que ele diz sobre o objeto desse apelo é notável, vindo de um batista:
“…no batismo, os crentes pedem a Deus, com base na morte e na ressurreição de Cristo, que purifique a consciência deles e perdoe os seus pecados.”
Ele liga isso a Hebreus, que põe a consciência e a água lado a lado: “aproximemo-nos com um coração sincero, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e o corpo lavado com água pura” (Hebreus 10:22). E isso corresponde ao que Ananias disse a Saulo: “Levante-se, receba o batismo e lave os seus pecados, invocando o nome dele” (Atos 22:16). O batismo é o lugar onde o crente clama a Deus pelo perdão, e Deus responde. Nessa leitura, uma “boa consciência” é a consciência que foi perdoada, e é a mesma boa consciência que Pedro manda seus leitores conservarem cinco versículos antes (3:16).
Agora considere a outra leitura, “compromisso”. Nesse caso, o batismo é a promessa de convênio que o crente faz a Deus. É assim que o Livro de Mórmon o descreve. Alma perguntou aos que queriam seguir a Cristo: “o que vos impede de serdes batizados em nome do Senhor, como um testemunho, perante ele, de que haveis feito convênio com ele de servi-lo e guardar seus mandamentos” (Mosias 18:10). Néfi fala de seguir o Filho “testemunhando ao Pai que estais dispostos a tomar sobre vós o nome de Cristo pelo batismo” (2 Néfi 31:13). Também nessa leitura, Pedro diz que o compromisso assumido no batismo “salva vocês”.
Nenhuma das duas traduções transforma o versículo numa afirmação de que o batismo é mero símbolo.
“Por meio da ressurreição de Jesus Cristo”
A última expressão diz de onde vem o poder do batismo. O batismo salva “por meio da ressurreição de Jesus Cristo”.
Pedro usa a mesma expressão no início da carta (no grego, ela é idêntica; ali a NAA traduz “mediante”). Deus “nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pedro 1:3). O novo nascimento vem mediante a ressurreição, e o batismo salva por meio da ressurreição. Paulo faz a mesma ligação: “Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida” (Romanos 6:4). E ainda: “tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:12). Colossenses menciona a fé e o batismo de uma só vez, sem nenhuma sugestão de que um concorra com o outro. Essas passagens são tratadas em Batizados na morte de Cristo.
O manual de Arichea e Nida para tradutores da Bíblia resume bem o resultado. A frase faz de Deus o agente da salvação, e o batismo “claramente não é o agente, mas o instrumento”. Deus salva, por meio do Cristo ressuscitado, e o batismo é um meio que Ele usa. Isso se encaixa na posição dos Santos dos Últimos Dias, em que o batismo atua junto com a fé, o arrependimento e o dom do Espírito Santo, já que a remissão vem “pelo fogo e pelo Espírito Santo” depois da porta do batismo (2 Néfi 31:17).
A resposta de sempre
A leitura evangélica mais comum fica com a segunda metade do versículo e descarta a primeira. Um comentário recente a resume numa só linha: “Embora o batismo não salve uma pessoa, a ressurreição de Jesus Cristo salva”.
Mas Pedro não pôs o batismo contra a ressurreição. Ele disse que o batismo salva por meio da ressurreição. Dizer que a ressurreição salva e o batismo não é cortar o versículo ao meio e jogar fora o sujeito e o verbo que Pedro de fato escreveu. Uma frase que diz “a chave abre a porta girando a fechadura” não quer dizer que a chave não tem nada a ver com isso.
Schreiner é mais cuidadoso. Ele admite que, no batismo, os crentes pedem a Deus purificação e perdão, e que podem ter confiança de que o apelo será atendido. O que ele nega é uma “visão mecânica do batismo, como se o próprio rito contivesse um poder salvador inerente”. Os Santos dos Últimos Dias também negam isso. Batismo sem fé e arrependimento não passa de se molhar, e batismo sem a ressurreição de Cristo seria um sepultamento do qual ninguém se levanta. O que Pedro descarta e o que os Santos dos Últimos Dias rejeitam acabam sendo a mesma coisa.
O que os Santos dos Últimos Dias leem no versículo
Os Santos dos Últimos Dias leem 1 Pedro 3:21 como uma descrição do batismo que a Restauração ensina. Ele salva. Salva como apelo e como convênio, feitos por alguém que se voltou para Deus. E tira seu poder da ressurreição de Cristo.
Néfi diz que “a porta pela qual deveis entrar é o arrependimento e o batismo com água” e acrescenta: “vem, então, a remissão de vossos pecados pelo fogo e pelo Espírito Santo” (2 Néfi 31:17). Mórmon expõe a ordem: “o primeiro fruto do arrependimento é o batismo; e o batismo vem pela fé, para cumprirem-se os mandamentos; e o cumprimento dos mandamentos traz remissão de pecados” (Morôni 8:25). O batismo é a porta, a fé e o arrependimento conduzem a ela, e o Espírito Santo completa o que ela começa.
O versículo também se harmoniza com a prática dos Santos dos Últimos Dias de não batizar bebês, e aponta a razão. Um apelo a Deus por uma boa consciência, ou um compromisso assumido com Ele, precisa de alguém capaz de fazê-lo. Católicos e luteranos respondem que os pais e os padrinhos assumem o compromisso pela criança. Mas Pedro descreve o apelo como parte do batismo de quem está sendo salvo, e não como algo que outros fazem em nome dessa pessoa. O fundamento doutrinário está no Livro de Mórmon, que ensina “arrependimento e batismo aos que são responsáveis e capazes de cometer pecados” e diz que “suas criancinhas não necessitam de arrependimento nem de batismo” (Morôni 8:10-11). Nesse ponto, os Santos dos Últimos Dias diferem de católicos, ortodoxos e luteranos, que leem o versículo como ensino da regeneração batismal e batizam bebês.
O que o versículo ensina
Pedro poderia ter escrito que o batismo simboliza a salvação, ou a retrata, ou vem depois dela. Ele escreveu que o batismo “agora também salva vocês”. E então explicou como. Não salva como um banho. Salva como um apelo a Deus e uma promessa feita a Ele, pelo poder do Cristo ressuscitado. Cada parte dessa explicação pressupõe que o batismo importa, e nenhuma delas retira o verbo.
Este é um dos artigos de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o argumento a partir de Atos está em Atos 2:38 e 22:16: batismo “para remissão dos seus pecados”.
Fontes
Escrituras (NAA): Gênesis 7:17. Atos 22:16. Romanos 6:4. 1 Coríntios 10:1-2. Colossenses 2:12. Hebreus 10:22. 1 Pedro 1:3; 3:16, 18-22.
Escrituras da Restauração: 2 Néfi 31:13, 17. Mosias 18:10. Morôni 8:10-11, 25.
Comentaristas: Thomas R. Schreiner, 1, 2 Peter, Jude, New American Commentary 37 (Broadman & Holman, 2003), 193-97. Everett Ferguson, Baptism in the Early Church: History, Theology, and Liturgy in the First Five Centuries (Eerdmans, 2009), 190-91. Paul J. Achtemeier, 1 Peter, Hermeneia (Fortress, 1996), 266. Daniel C. Arichea e Eugene A. Nida, A Translator’s Handbook on the First Letter from Peter (United Bible Societies, 1980), 121. David R. Seal, First and Second Peter: An Oral and Performance Commentary (Sheffield Phoenix, 2023), 84.
Trabalhos de Santos dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, Scriptural Mormonism, cujas postagens sobre 1 Pedro 3:21 reúnem os comentaristas citados aqui.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.