Batizados na morte de Cristo: Romanos 6, Colossenses 2, Gálatas 3:27
Resposta curta
Ser batizado na morte de Cristo, na linguagem de Paulo, significa ser unido a Cristo no próprio batismo, não apenas retratar uma união que já aconteceu em outro momento. Em Romanos 6, Colossenses 2 e Gálatas 3:27, os batizados são sepultados com Ele e se revestem de Cristo. Paulo não ensina que o rito funcione automaticamente, pois a ressurreição com Cristo vem por meio da fé, e os Santos dos Últimos Dias concordam com isso. Mas é no batismo que Paulo situa a união com Cristo.
Em três cartas diferentes, Paulo descreve o batismo como o acontecimento em que a pessoa é unida a Cristo. Os batizados foram “batizados na sua morte” e “sepultados com ele na morte pelo batismo” (Romanos 6:3-4). Foram “sepultados juntamente com ele no batismo” e “ressuscitados por meio da fé” (Colossenses 2:12). Aos gálatas, ele escreve que “todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram” (Gálatas 3:27). Paulo nunca diz que o batismo retrata uma união que já aconteceu em outro lugar. Ele situa a união com Cristo no batismo. E, em duas das três cartas, a passagem sobre o batismo está logo ao lado das afirmações mais fortes de Paulo sobre a justificação pela fé.
Paulo não ensina que o rito funciona automaticamente. Em Colossenses, eles são ressuscitados “por meio da fé”, e em outras passagens Paulo adverte que pessoas batizadas ainda podem cair. Os Santos dos Últimos Dias concordam com os dois pontos. A pergunta que essas passagens respondem é mais específica. O batismo é o acontecimento em que o crente é unido a Cristo, ou uma imagem posterior disso? A resposta de Paulo é a primeira.
Romanos 6: um argumento a partir do batismo
Romanos 5 termina com a graça transbordando onde o pecado aumentou. Romanos 6 começa enfrentando a leitura equivocada que salta aos olhos:
“Que diremos, então? Continuaremos no pecado, para que a graça aumente ainda mais? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós, que já morremos para ele? Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Romanos 6:1-5)
Veja como o argumento funciona. Paulo diz que os cristãos não podem continuar no pecado porque morreram para ele. Como ele sabe que morreram? “Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados…” Ele argumenta a partir do batismo. Remete os romanos a um acontecimento de que todos se lembram e lhes diz o que aconteceu com eles ali. Foram batizados na morte de Cristo. Foram sepultados com Ele. Agora devem andar numa vida nova.
Na leitura memorialista, os romanos morreram para o pecado num momento anterior, quando creram, e o batismo depois retratou isso. Mas Paulo nunca menciona um momento anterior. Quando quer mostrar que eles morreram com Cristo, aponta para o batismo e lhes diz o que aconteceu com eles ali. A leitura que faz do batismo a imagem de uma morte anterior precisa fornecer um momento que Paulo não fornece. Paulo recorre ao batismo como o acontecimento em que situa a morte deles com Cristo.
Ele conclui o raciocínio no versículo 7: “Pois quem morreu está justificado do pecado”. O verbo grego ali é o mesmo que Paulo usa em toda a carta aos Romanos para “justificar”, e a NAA o traduz exatamente assim; a NRSVUE, em inglês, prefere “is freed from sin” (“está livre do pecado”). John Harvey, cujo comentário exegético de Romanos defende a justificação somente pela fé, entende que a pessoa que morreu “foi declarada justa” em relação ao pecado. Seja qual for a nuance do verbo aqui, o que o versículo 7 diz sobre o pecado vem depois da morte que Paulo acabou de situar no batismo.
A leitura que faz do batismo a imagem de uma morte anterior precisa fornecer um momento que Paulo não fornece
Para dentro de Cristo
A expressão de Paulo é “batizados em Cristo Jesus”, e esse “em” traduz a preposição grega eis, que indica movimento para dentro (a NRSVUE traduz “into”). É linguagem de entrada e de pertença. Jesus enviou os apóstolos para batizar as pessoas “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), onde o grego diz literalmente “para dentro do nome” (eis to onoma), e Paulo usa a mesma construção para o mesmo acontecimento.
Stanley Fowler, teólogo batista que escreveu dois livros sobre o assunto, repara no que a sua própria tradição faz com esse texto. Os batistas há muito tempo citam Romanos 6 como prova de que o batismo deve ser por imersão, porque o texto fala de sepultamento. Mas, escreve ele, “o texto não diz com todas as letras que o batismo retrata coisa alguma. O que ele diz é que o batismo efetua a união com Cristo e com o seu sofrimento vicário e a sua ressurreição”.
O que ele diz é que o batismo efetua a união com Cristo e com o seu sofrimento vicário e a sua ressurreição
É água mesmo?
Para escapar dessa conclusão, alguns intérpretes dizem que o batismo de Romanos 6 é o batismo do Espírito, um acontecimento invisível na conversão, e não o rito da água.
Fowler também responde a isso. O argumento de Paulo está condensado em duas frases. É “altamente improvável”, escreve ele, que “batizados na sua morte”, no versículo 3, signifique apenas o batismo do Espírito, enquanto “na morte pelo batismo”, já na frase seguinte, signifique a água. Além disso, quando os Evangelhos e Atos falam do batismo no Espírito, é Cristo quem batiza. Em Romanos 6 e Gálatas 3, as pessoas são batizadas em Cristo, isto é, para dentro Dele. Fowler aponta o impasse em que estão seus colegas batistas. Eles querem usar Romanos 6 a favor da imersão, e não a favor da união com Cristo, “mas não podem ter as duas coisas. Se a água está em vista neste texto, então se trata de mais do que um símbolo”. Mais do que apenas um símbolo, entenda-se. Paulo usa a imagem do sepultamento como símbolo e, mesmo assim, trata o batismo como parte daquilo que a imagem representa.
Douglas Moo, cujo comentário evangélico de Romanos está entre os mais usados, diz que, na época em que Paulo escreveu a carta, “‘batizar’ tinha se tornado quase uma expressão técnica para o rito cristão de iniciação pela água, e esse é certamente o sentido que os cristãos de Roma teriam dado à palavra”. Os romanos não conheciam Paulo pessoalmente. Ele só podia recorrer a um acontecimento que eles reconhecessem sem explicação, e o que todos tinham em comum era o batismo.
Se a água está em vista neste texto, então se trata de mais do que um símbolo
Gálatas 3:27: fé e batismo no mesmo argumento
Gálatas é a carta mais citada contra qualquer papel do batismo na salvação, porque todo o seu argumento é contra ser justificado pelas obras da lei. Veja como Paulo chega à sua conclusão no capítulo 3:
“De maneira que a lei se tornou nosso guardião para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé. Mas, agora que veio a fé, já não permanecemos subordinados ao guardião. Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram.” (Gálatas 3:24-27)
O versículo 26 diz que eles são filhos de Deus “mediante a fé em Cristo Jesus”. A NAA lê “em Cristo Jesus” como o objeto da fé; o grego também admite a leitura da NRSVUE, em que “em Cristo Jesus” é onde eles são filhos de Deus, e isso “mediante a fé”. O versículo 27 começa com “porque” (no grego, gar) e explica o 26. Como eles sabem que estão “em Cristo”? Porque foram batizados Nele e Dele se revestiram. N. T. Wright expõe essa lógica com clareza em seu comentário de Gálatas. Paulo está respondendo à pergunta “Como sabemos que estamos ‘no Messias’?”, e “ele dá a resposta: todos nós fomos batizados no Messias”. Wright acrescenta que “tomar a linguagem de Paulo tal como está” levaria a “uma teologia sacramental obviamente ‘alta’”.
Assim, na carta escrita para defender a justificação pela fé contra as obras da lei, Paulo põe o batismo do lado da fé no argumento. O que ele rejeita é a circuncisão (5:2-4). O batismo foi justamente o meio pelo qual os gálatas passaram a estar em Cristo. Paulo não via disputa entre as duas frases, e os seus leitores também não deveriam ver.
Colossenses 2: sepultados no batismo, ressuscitados por meio da fé
Colossenses diz o mesmo outra vez, com um acréscimo que importa:
“Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas pela remoção do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. E quando vocês estavam mortos nos seus pecados e na incircuncisão da carne, ele lhes deu vida juntamente com Cristo, perdoando todos os nossos pecados.” (Colossenses 2:11-13)
O acréscimo é “por meio da fé no poder de Deus”. Na mesma frase sobre o batismo deles, Paulo diz que os colossenses foram sepultados com Cristo e ressuscitados com Ele por meio da fé. Aqui a fé não é rival do batismo. É o modo como os batizados recebem o que Deus faz nele. E o que Deus faz é dar-lhes vida e perdoar os seus pecados.
Wright, em seu comentário de Colossenses, afirma isso sem rodeios: “A transferência da antiga solidariedade para a nova se realiza no batismo”. Ele sabe que isso incomoda muitos leitores, que “recuaram diante do realismo da linguagem de Paulo, não só nesta passagem, mas (por exemplo) em Romanos 6:2-11 e Gálatas 3:27”. Alguns dizem que “batismo” é só uma metáfora para tornar-se cristão; outros, que o seu significado principal é “a profissão pública de fé”. Wright rejeita as duas leituras. Rejeita também o erro oposto, o de que o rito torna a pessoa cristã “quer ela queira, quer não” e “automaticamente”. Os Santos dos Últimos Dias também rejeitam esse erro.
“O batismo retrata o sepultamento”
A leitura evangélica mais comum desses textos é a que Robert Mounce apresenta em seu comentário de Romanos: “O batismo é o ato ritual que retrata esse sepultamento”. Nessa visão, a fé é o verdadeiro meio da união, e o batismo é uma imagem dela.
Retratar não é o que Paulo diz. Ele diz: “Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo”, com a mesma preposição grega (dia, “por meio de”) que Tito usa para “o lavar regenerador” (Tito 3:5), onde a NAA a traduz como “mediante”. Ele diz que os gálatas batizados em Cristo “de Cristo se revestiram”, e não que mostraram que já estavam revestidos. Diz que os colossenses foram ressuscitados com Cristo no mesmo acontecimento em que foram sepultados com Ele. Como diz Fowler, o texto não diz que o batismo retrata coisa alguma.
Isso não quer dizer que o batismo não seja um símbolo. Descer à água e sair dela retrata o sepultamento e a ressurreição, e as escrituras dos Santos dos Últimos Dias dizem isso, como mostra a última seção. A questão é se o batismo é apenas a imagem de uma união com Cristo que já estava concluída antes. O “pelo batismo” de Paulo diz que ele é mais do que isso. É sinal do sepultamento e também o acontecimento em que o sepultamento se dá.
Batizados, e ainda sujeitos a cair
Nada disso significa que os batizados não possam se desviar. O ponto de Paulo em Romanos 6 é que os batizados devem andar “em novidade de vida” e não permitir “que o pecado reine” em seu corpo (6:4, 12). Em 1 Coríntios, ele lembra a igreja de que, em Israel, “todos, em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar”, e, no entanto, “Deus não se agradou da maioria deles” (10:2, 5). Wright tira a conclusão: “1 Coríntios 10 mostra que, no pensamento de Paulo, é possível alguém ser batizado e, ainda assim, correr o risco de perder tudo. Isso não faz do batismo um mero ritual vazio”.
Os Santos dos Últimos Dias sustentam as duas metades dessa frase. O batismo é onde a pessoa entra em Cristo, e é um convênio que precisa ser guardado.
O que os Santos dos Últimos Dias leem nesses textos
As escrituras da Restauração usam a linguagem de sepultamento de Paulo para descrever o próprio batismo. Os que herdam a glória celestial são os que “creram em seu nome e foram batizados na semelhança de seu sepultamento, sendo sepultados na água em seu nome… Para que, guardando os mandamentos, fossem lavados e purificados de todos os seus pecados e recebessem o Santo Espírito pela imposição das mãos” (Doutrina e Convênios 76:51-52). É Romanos 6 e Colossenses 2 numa só frase. O sepultamento, o nome, a purificação e o Espírito aparecem juntos.
É também por isso que os Santos dos Últimos Dias batizam por imersão. O Cristo ressurreto disse aos nefitas exatamente como fazer: “os imergireis na água e depois saireis novamente da água” (3 Néfi 11:26). E Joseph Smith explicou por quê: “ser imerso na água e sair da água assemelha-se à ressurreição dos mortos ao saírem da sepultura”, e “instituiu-se a fonte batismal como símbolo da sepultura” (Doutrina e Convênios 128:12-13). Descer à água e sair dela é o sepultamento e a ressurreição que Paulo descreve.
O “de Cristo se revestiram” de Paulo tem um paralelo no Livro de Mórmon: tomar sobre si o Seu nome. O rei Benjamim disse ao seu povo que, “por causa do convênio que fizestes, sereis chamados progênie de Cristo… porque eis que neste dia ele vos gerou espiritualmente”, e exortou-os: “quisera, portanto, que tomásseis sobre vós o nome de Cristo” (Mosias 5:7-8). Os que fazem o convênio batismal pertencem a Cristo e levam o Seu nome.
O que essas passagens ensinam
Paulo poderia ter escrito que o batismo retrata a união com Cristo. Em três cartas, ele escreveu que os crentes foram batizados em Cristo, sepultados com Ele pelo batismo, ressuscitados com Ele por meio da fé e revestidos Dele. Argumentou a partir do batismo para provar que os cristãos tinham morrido para o pecado, e pôs o batismo ao lado da justificação pela fé na carta escrita para defendê-la. Lidas como Paulo as escreveu, essas passagens situam no batismo a entrada do crente na morte e na ressurreição de Cristo.
Este artigo faz parte de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o novo nascimento “da água e do Espírito” é tratado em João 3:5: nascer da água e do Espírito.
Fontes
Escrituras (NAA): Mateus 28:19. Romanos 5:20-6:12. 1 Coríntios 10:2, 5. Gálatas 3:24-27; 5:2-4. Colossenses 2:11-13.
Escrituras da Restauração: Mosias 5:7-8. 3 Néfi 11:26. Doutrina e Convênios 76:51-52; 128:12-13.
Comentaristas: N. T. Wright, Colossians and Philemon, Tyndale New Testament Commentaries 12 (Inter-Varsity Press, 1986), sobre 2:11-12. N. T. Wright, Galatians, Commentaries for Christian Formation (Eerdmans, 2021), sobre 3:27. Stanley K. Fowler, More than a Symbol: The British Baptist Recovery of Baptismal Sacramentalism, Studies in Baptist History and Thought 2 (Paternoster, 2002; reimpr. Wipf and Stock, 2007), 2-3, 171-72. Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans, New International Commentary on the New Testament (Eerdmans, 1996), 359. Robert H. Mounce, Romans, New American Commentary 27 (Broadman & Holman, 1995), 149. John D. Harvey, A Commentary on Romans, Kregel Exegetical Library (Kregel Academic, 2019), 173-74.
Obra de um Santo dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, Scriptural Mormonism, cujas postagens sobre Romanos 6 reúnem o material de Fowler, Moo, Mounce e Harvey.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.