"Cristo não me enviou para batizar" (1 Coríntios 1:17)

Resposta curta

Em 1 Coríntios 1:17, quando Paulo diz que Cristo não o enviou para batizar, mas para pregar o evangelho, ele trata de quem batiza, não de se o batismo importa. Paulo corrigia uma igreja dividida em facções em torno de líderes e se alegrava por ter batizado poucos, para que ninguém dissesse que pertencia a ele. A pergunta que ele faz, se foram batizados em nome de Paulo, só funciona se o batismo une a pessoa àquele em cujo nome é realizado.

“Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho” (1 Coríntios 1:17) é um dos versículos mais citados para mostrar que o batismo não é necessário para a salvação. Se o batismo importasse tanto, diz o argumento, Paulo jamais teria dito isso.

Lido dentro do seu parágrafo, o versículo trata de quem batiza, não de se o batismo importa. Paulo estava corrigindo uma igreja que tinha se dividido em facções em torno de líderes proeminentes. Ele se alegrava por ter batizado poucos deles, para que ninguém pudesse ligar o próprio batismo a ele e se dizer seu partidário. E a pergunta que ele faz para defender o seu ponto só funciona se o batismo une a pessoa àquele em cujo nome ele é realizado.

O problema em Corinto

Paulo tinha ouvido dizer que a igreja de Corinto estava se dividindo em grupos:

“Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: ‘Eu sou de Paulo’, ‘Eu sou de Apolo’, ‘Eu sou de Cefas’, ‘Eu sou de Cristo’. Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus por não ter batizado nenhum de vocês, exceto Crispo e Gaio, para que ninguém diga que vocês foram batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas. Além destes, não me lembro se batizei algum outro. Afinal, Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo.” (1 Coríntios 1:12-17)

Os coríntios estavam se apegando a líderes, entre eles o próprio Paulo. A resposta de Paulo é que nenhum desses homens importa. Cristo foi crucificado por eles, e eles foram batizados em nome de Cristo. Quem os batizou não vem ao caso.

A pergunta de Paulo pressupõe que o batismo importa

Veja as duas perguntas que Paulo coloca lado a lado: “Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?” As duas esperam a resposta “não”, e as duas apontam para o que de fato faz alguém pertencer a Cristo. Cristo foi crucificado por eles, e eles foram batizados em nome Dele.

O argumento só funciona se o batismo for algo sério. O ponto de Paulo é que ser batizado em nome de alguém faz você pertencer a essa pessoa. Ele diz a mesma coisa em Gálatas: “todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram”, e logo depois conclui: “se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão” (Gálatas 3:27, 29). É exatamente por isso que seria absurdo ser batizado em nome de Paulo, e é por isso que importa que eles tenham sido batizados em nome de Cristo.

A mesma carta trata o batismo como tudo, menos opcional: “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo” (12:13). Paulo chega a recorrer ao batismo pelos mortos no seu argumento em favor da ressurreição (15:29). E Lucas diz que, quando Paulo pregou pela primeira vez em Corinto, “muitos dos coríntios, ouvindo, creram e foram batizados” (Atos 18:8). O batismo era a forma como as pessoas em Corinto respondiam à pregação de Paulo. A pergunta de Paulo era apenas sobre quem tinha feito o batismo.

O ponto de Paulo é que ser batizado em nome de alguém faz você pertencer a essa pessoa

Paulo batizou, sim

Paulo diz que batizou Crispo, Gaio e a casa de Estéfanas, e acrescenta: “Além destes, não me lembro se batizei algum outro” (1:16). Ele agradece a Deus por ter batizado poucos dos coríntios, dado o que eles tinham feito com isso. Não está dizendo que nunca batizava. E a incerteza quanto à conta mostra o que importava para Paulo. Ele não mantinha registro de quem tinha batizado, porque quem batizava não era o ponto.

“Não me enviou para batizar, mas para pregar”

Lida da forma mais simples possível, a frase descreve a missão de Paulo. Cristo o enviou para pregar, e outros faziam a maior parte dos batismos. Isso não diz nada sobre se os seus convertidos precisavam ser batizados, já que eles eram batizados. Tomada ao pé da letra, a frase significaria que Cristo não queria Paulo batizando ninguém, e Paulo tinha acabado de dizer que batizou. A Bíblia usa com frequência o “não isto, mas aquilo” para dizer qual de duas coisas vem primeiro, sem negar a primeira:

  • “quem receber a mim, não é a mim que recebe, mas aquele que me enviou” (Marcos 9:37). Quem recebe Jesus de fato recebe a Ele.
  • “Quem crê em mim crê não em mim, mas naquele que me enviou” (João 12:44). Crer em Jesus continua sendo crer em Jesus.
  • “Trabalhem, não pela comida que se estraga, mas pela que permanece para a vida eterna” (João 6:27). Jesus não está mandando as pessoas pararem de trabalhar para ganhar a vida.

A frase de Paulo funciona do mesmo jeito. A missão específica dele era pregar, e isso não quer dizer que o batismo fosse sem importância.

A outra metade do versículo confirma isso. Paulo continua dizendo que pregava “não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo”. O contraste que percorre o resto do capítulo é entre a mensagem da cruz e a esperteza humana (1:18-31). O batismo não é o assunto desse contraste.

O contraste que percorre o resto do capítulo é entre a mensagem da cruz e a esperteza humana

Jesus também deixava o batismo a cargo de outros

Paulo não foi o primeiro a deixar o batismo a cargo de outros. O Evangelho de João diz que Jesus “fazia e batizava mais discípulos do que João” e logo acrescenta: “se bem que Jesus mesmo não batizava, e sim os seus discípulos” (João 4:1-2). Na casa de Cornélio, Pedro “ordenou que fossem batizados” (Atos 10:48). Não necessariamente os batizou ele mesmo. Deixar o rito a cargo de outros não dizia nada sobre a importância dele. Refletia a divisão de trabalho numa igreja em crescimento.

Tanto leitores cristãos antigos quanto protestantes perceberam isso. João Crisóstomo, pregando sobre esse versículo por volta do ano 390, explicou que “pregar o Evangelho é tarefa talvez para um ou dois; mas batizar, para todo aquele que é revestido do sacerdócio”. Na mesma homilia, disse sobre o batismo: “É impossível ser salvo sem ele; contudo, não é grande coisa o que faz quem batiza”. João Calvino, que rejeitava a ideia de que o rito regenera por si mesmo, disse em seu comentário que Paulo “de modo algum diminui aqui, como alguns pensam, a dignidade ou a utilidade do sacramento. Pois a questão aqui não é a eficácia do batismo”. Paulo, diz Calvino, apenas indica “o principal de sua vocação”. Obras de referência modernas concordam. O Anchor Bible Dictionary diz que a observação “é em geral entendida como não demonstrando nenhum desprezo de Paulo pelo batismo”, e o Eerdmans Dictionary of the Bible diz que a suposta indiferença de Paulo “refere-se apenas à pessoa do ministrante”.

O mesmo Paulo escreveu que “todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte” (Romanos 6:3), como discute o artigo sobre Romanos 6, Colossenses 2 e Gálatas 3:27. Uma leitura de 1 Coríntios 1:17 que tira a importância do batismo põe Paulo em contradição consigo mesmo.

Três perguntas diferentes

A passagem toca em três perguntas, e vale a pena mantê-las separadas. Quem realiza o batismo? Paulo diz que isso não importa. Em nome de quem a pessoa é batizada? Isso importa muito, e tem de ser o de Cristo. O que o batismo faz? Esta passagem nem sequer trata dessa pergunta.

A objeção pega a resposta de Paulo à primeira pergunta e a trata como se fosse a resposta à terceira. Como Paulo não se importava com quem batizava os coríntios, ela conclui que ele não se importava que fossem batizados ou não. A passagem não autoriza esse passo, e o restante das cartas de Paulo responde diretamente à terceira pergunta, como mostra o artigo sobre Romanos 6, Colossenses 2 e Gálatas 3:27.

O que os Santos dos Últimos Dias leem no versículo

O Livro de Mórmon registra um problema parecido. Quando o Cristo ressurreto ensinou os nefitas a batizar, disse-lhes duas vezes que “não haverá disputas entre vós”, porque antes tinha havido disputas sobre o batismo (3 Néfi 11:22, 28). A resposta Dele à disputa foi dar instruções exatas e conceder o poder de batizar aos discípulos que Ele escolheu. Como Paulo, Ele tratou uma briga sobre o batismo como motivo para estabelecer como ele deve ser feito, e não como sinal de que ele não importava.

Os Santos dos Últimos Dias têm uma divisão de trabalho muito parecida com a que Crisóstomo descreve nos termos da igreja dele. Na Igreja, o batismo é realizado por quem possui a autoridade do sacerdócio para realizá-lo. Um sacerdote do Sacerdócio Aarônico, muitas vezes um rapaz, tem o dever de “pregar, ensinar, explicar, exortar, batizar” (Doutrina e Convênios 20:46), e os missionários batizam as pessoas que ensinam. Os apóstolos raramente realizam batismos pessoalmente. Ninguém conclui disso que o batismo não tem importância, e ninguém é batizado em nome de quem o batiza. Como diz a oração de 3 Néfi 11:25, quem batiza age dizendo “Tendo autoridade que me foi concedida por Jesus Cristo” e batiza “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

O que o versículo ensina

Paulo se alegrava por ter batizado poucos coríntios, porque eles estavam formando partidos em torno dos homens que os tinham batizado. A pergunta dele, “vocês foram batizados em nome de Paulo?”, pressupõe que o batismo une a pessoa àquele em cujo nome ele é realizado. É por isso que só o nome de Cristo serve. Lido junto com o seu parágrafo e com o resto da carta, 1 Coríntios 1:17 significa que quem batiza não importa. Não diz que o batismo é desnecessário.

Este artigo faz parte de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o dom do Espírito que se segue ao batismo é tratado em Água e Espírito: os samaritanos, Cornélio e Éfeso.

Fontes

Escrituras (NAA): Marcos 9:37. João 4:1-2; 6:27; 12:44. Atos 10:48; 18:8. Romanos 6:3. 1 Coríntios 1:12-31; 12:13; 15:29. Gálatas 3:27, 29.

Escrituras da Restauração: 3 Néfi 11:22-28. Doutrina e Convênios 20:46.

Fonte cristã antiga: João Crisóstomo, Homilies on First Corinthians 3, em Nicene and Post-Nicene Fathers, primeira série, vol. 12.

Comentaristas e obras de referência: João Calvino, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians, sobre 1:17. Lars Hartman, “Baptism”, em The Anchor Bible Dictionary, ed. David Noel Freedman (Doubleday, 1992), 1:587. Laurence Hull Stookey, “Baptism”, em Eerdmans Dictionary of the Bible, ed. David Noel Freedman (Eerdmans, 2000).

Obra de um Santo dos Últimos Dias: Robert S. Boylan, Scriptural Mormonism, cujas postagens sobre 1 Coríntios 1:17 reúnem o material de Calvino, Crisóstomo, Hartman e Stookey.

As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.

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