Marcos 16:16 e o final longo de Marcos
Resposta curta
Marcos 16:16, que diz que quem crer e for batizado será salvo, pertence ao final longo de Marcos (16:9-20), ausente dos dois manuscritos gregos completos mais antigos, e a maioria dos especialistas acha que Marcos não o escreveu. Por isso a doutrina do batismo não deve se apoiar nele, e a posição contrária também não. Abrir mão do versículo não custa nada aos Santos dos Últimos Dias, porque tudo o que ele ensina sobre fé e batismo aparece em textos indiscutíveis, como Mateus 28:19, Atos 2:38 e 1 Pedro 3:21.
“Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Marcos 16:16). Nenhuma frase do Novo Testamento une a fé e o batismo de forma mais direta. Mas ela vem dos últimos doze versículos de Marcos, e os dois manuscritos gregos completos mais antigos que preservam o final de Marcos não os têm. A maioria dos especialistas em crítica textual acha que Marcos não os escreveu.
Isso significa que a defesa do batismo não deve se apoiar neste versículo, e esta série não se apoia nele. Quem argumenta no sentido contrário também não deveria. A boa notícia para os Santos dos Últimos Dias é que abrir mão dele não custa nada. Tudo o que Marcos 16:16 diz, os livros indiscutíveis do Novo Testamento também dizem. Há mais uma pergunta que merece resposta, porque o Livro de Mórmon cita esses versículos. Ela fica para o final.
O versículo e o seu final
O Evangelho de Marcos, na forma que a maioria das Bíblias imprime, termina assim:
“E disse-lhes: — Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que creem: em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.” (Marcos 16:15-18)
Esses versículos pertencem ao que os estudiosos chamam de “final longo” de Marcos (16:9-20). As duas Bíblias gregas completas mais antigas, o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, ambos do século IV, terminam Marcos em 16:8, com as mulheres fugindo do túmulo vazio, “porque estavam com medo”. Outros manuscritos trazem finais diferentes, entre eles um “final curto” de duas frases. E o vocabulário e o estilo do final longo diferem do resto de Marcos. A New Oxford Annotated Bible (NOAB) o chama de “um conglomerado de versículos dos outros Evangelhos” que “provavelmente data de meados do século II d.C.”.
Os estudiosos ainda debatem se Marcos quis terminar em 16:8 ou se o seu final original se perdeu. Mas, na pergunta mais restrita, se Marcos escreveu 16:9-20, as evidências pesam fortemente contra. Os Santos dos Últimos Dias não têm motivo para combater essa conclusão. Joseph Smith disse: “Creio na Bíblia como ela estava escrita quando saiu da pena dos autores originais. Tradutores ignorantes, copistas descuidados ou sacerdotes ardilosos e corruptos cometeram muitos erros.” Essa declaração deixa espaço para uma passagem acrescentada ao final de um Evangelho. A data do acréscimo é menos certa que o fato em si. A NOAB o situa em meados do século II, e Irineu mostra que ele já circulava por volta de 180.
Os estudiosos ainda debatem se Marcos quis terminar em 16:8 ou se o seu final original se perdeu
Nenhum dos lados deve se apoiar nele
Se o versículo não pode sustentar a defesa do batismo, também não pode sustentar o ataque a ele. Autores protestantes costumam apontar para a segunda metade do versículo. Ela diz “quem, porém, não crer será condenado”, e não “quem não for batizado”. Portanto, argumentam, a incredulidade condena, e a falta de batismo não.
Mesmo nos seus próprios termos, esse argumento é fraco. Quem não crê não vai pedir o batismo, de modo que a frase nomeia a raiz do problema. E a primeira metade da mesma frase une a fé e o batismo como condição para ser salvo. Mas a questão textual resolve o assunto de forma mais simples. Se Marcos não escreveu o versículo, nem a primeira nem a segunda metade dele pode servir como ensinamento de Marcos sobre o batismo. Os dois lados precisam argumentar a partir de outros textos.
Se o versículo não pode sustentar a defesa do batismo, também não pode sustentar o ataque a ele
Quão antigo ele é
Um acréscimo posterior não é necessariamente um acréscimo tardio. Por volta de 180 d.C., Irineu de Lyon citou o final longo como parte de Marcos: “Também, perto da conclusão do seu Evangelho, Marcos diz: ‘Assim, depois de lhes ter falado, o Senhor Jesus foi recebido no céu e está sentado à direita de Deus’” (Marcos 16:19). No fim do século II, portanto, as igrejas liam esses versículos como o final de Marcos.
Isso faz do final longo uma testemunha antiga do que os cristãos criam, ainda que não seja de Marcos. E o que ele diz sobre o batismo coincide com o que outros cristãos do século II diziam. Por volta de 150 d.C., Justino Mártir descreveu os convertidos sendo “levados por nós a um lugar onde há água” para serem “regenerados”, como discute o artigo sobre João 3:5.
O que dizem os textos indiscutíveis
A razão pela qual os Santos dos Últimos Dias podem abrir mão do versículo é que o seu ensinamento sobre o batismo não é exclusivo dele. A sua comissão e a sua promessa aparecem em textos que ninguém contesta:
- A comissão de pregar a todas as nações e batizá-las: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), e “em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações” (Lucas 24:47).
- Crer e ser batizado para ser salvo: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado… para remissão dos seus pecados” (Atos 2:38), tema do artigo sobre Atos 2:38, e “O batismo… agora também salva vocês” (1 Pedro 3:21), tema do artigo sobre 1 Pedro 3:21.
- Nascer “da água e do Espírito” como condição para entrar no Reino (João 3:5).
A maioria dos sinais do final longo também tem paralelos em outros lugares. Os fiéis falam em línguas no Pentecostes e em Cesareia (Atos 2:4; 10:46). Em Malta, uma víbora se prendeu na mão de Paulo e ele “não sofreu mal nenhum”, e quando o pai de Públio estava doente, Paulo, “orando, impôs-lhe as mãos, e o curou” (Atos 28:3-8). Paulo, porém, não pegou a serpente, e a promessa de que os fiéis podem beber veneno sem sofrer dano não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento. A descrição da NOAB se aplica, na maior parte. O final longo reúne o que a igreja já sabia por outras fontes e, quanto ao batismo, não acrescenta nada de que a defesa precise.
Marcos 16 no Livro de Mórmon
Há mais uma razão para os Santos dos Últimos Dias conhecerem o final longo. O Livro de Mórmon o cita. Perto do fim do registro, Morôni escreve que Jesus disse “a seus discípulos que iriam permanecer, sim, e também a todos os seus discípulos, na presença da multidão: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura; E aquele que crer e for batizado, será salvo, mas aquele que não crer, será condenado”, e prossegue com os sinais prometidos (Mórmon 9:22-24). Em inglês, a redação coincide quase exatamente com a da King James Version de Marcos 16:15-18.
Os críticos apresentam isso como um problema. Por que um registro antigo das Américas conteria palavras que Marcos provavelmente não escreveu? A pergunta merece uma resposta franca.
Grant Hardy, em The Annotated Book of Mormon, expõe as duas maneiras de ler a passagem. A presença dela “no Livro de Mórmon pode ser interpretada ou como um exemplo de Joseph Smith seguindo a KJV até nos seus erros, ou como um testemunho divino adicional de que o final longo de Marcos se baseava em tradições autênticas sobre Jesus”.
Três observações pesam na escolha entre as duas.
Primeiro, Morôni não atribui essas palavras a Marcos. Atribui-as a Jesus, falando aos Seus discípulos nas Américas. As evidências textuais indicam que Marcos não escreveu 16:9-20. Não mostram que Jesus nunca disse nada parecido. E, como mostrou a seção anterior, o conteúdo desses versículos está atestado em todo o Novo Testamento.
Segundo, o Livro de Mórmon regularmente coloca conteúdo bíblico na redação da King James quando os dois se sobrepõem. Longas passagens de Isaías e o Sermão da Montanha aparecem nele na linguagem da KJV. Os Santos dos Últimos Dias leem a redação da KJV em Mórmon 9 da mesma forma: como a tradução usando uma linguagem bíblica familiar para um ensinamento que correspondia a ela.
Terceiro, o ensinamento do Livro de Mórmon sobre o batismo não depende de Mórmon 9. Quando o Cristo ressurreto ensinou os nefitas no templo, Ele disse: “os que crerem em mim e forem batizados, esses serão salvos; e eles são os que herdarão o reino de Deus. E os que não crerem em mim e não forem batizados, serão condenados” (3 Néfi 11:33-34). Em inglês, essa redação é próxima da KJV de Marcos 16:16, de modo que não serve como evidência contra a influência da KJV. Mas ela expõe a doutrina no próprio sermão de Cristo, e nomeia o batismo nas duas metades. Revelações posteriores a Joseph Smith repetem a comissão em termos semelhantes (Doutrina e Convênios 68:8-9; 112:28-29).
Nada disso elimina a pergunta sobre por que a tradução segue a redação da KJV numa passagem que Marcos provavelmente não escreveu. Essa pergunta é real. Os Santos dos Últimos Dias que sustentam que a tradução de Joseph Smith usou a linguagem familiar da KJV onde o conteúdo correspondia têm uma resposta para ela. A crítica textual não consegue decidir se o final longo preserva palavras que Jesus realmente disse, e Hardy tem razão em deixar as duas leituras em aberto.
A posição dos Santos dos Últimos Dias, então, não depende de quem escreveu Marcos 16:9-20. Depende de Jesus ter ensinado que os que creem e são batizados serão salvos. Passagens que nenhum manuscrito omite põem esse ensinamento nos Seus lábios (João 3:5; Mateus 28:19) e nos lábios dos Seus apóstolos (Atos 2:38; 1 Pedro 3:21), e as escrituras da Restauração dizem o mesmo.
O que isso significa para o argumento
Marcos 16:16 é a frase mais citável sobre o assunto, e é justamente a que um leitor cuidadoso não deveria usar para abrir a discussão. O seu lugar no final longo significa que um crítico bem informado pode deixá-la de lado, e, pelas evidências textuais, o crítico estaria certo. Mas deixá-la de lado não muda nada. Mateus 28, Atos 2, João 3, Romanos 6 e 1 Pedro 3 ensinam o que ela ensina, e nenhum manuscrito os omite.
Este artigo faz parte de uma série sobre o batismo. A visão geral está em O batismo salva?, e o padrão do batismo e do Espírito em Atos está em Água e Espírito: os samaritanos, Cornélio e Éfeso.
Fontes
Escrituras (NAA): Mateus 28:19. Marcos 16:8, 15-19. Lucas 24:47. João 3:5. Atos 2:4, 38; 10:46; 28:3-8. 1 Pedro 3:21. Marcos 16:16 também é comparado com a King James Version.
Escrituras da Restauração: 3 Néfi 11:33-34. Mórmon 9:22-24. Doutrina e Convênios 68:8-9; 112:28-29.
Joseph Smith: sermão de 15 de outubro de 1843, em Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith (A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2007), cap. 17, sobre a Bíblia “como ela estava escrita quando saiu da pena dos autores originais”.
Fonte cristã antiga: Irineu, Against Heresies 3.10, em The Ante-Nicene Fathers, vol. 1.
Obras de referência: The New Oxford Annotated Bible, 6.ª ed., ed. Michael D. Coogan e outros (Oxford University Press), nota sobre Marcos 16:9-20. Grant Hardy, ed., The Annotated Book of Mormon (Oxford University Press, 2023), nota sobre Mórmon 9:22-24.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.